UOL Notícias Internacional
 

21/08/2007

Preocupação com 'fundos de riqueza soberana' se espalha em Washington

The New York Times
Steven R. Weisman
Em Washington
Por anos, o governo Bush tratou com indiferença as preocupações com os trilhões de dólares devidos pelos Estados Unidos à China, Japão e os países produtores de petróleo do Oriente Médio, argumentando que estas dívidas não davam um poder desmedido aos governos estrangeiros.

Mas em um momento de instabilidade financeira global, o governo começou a se preocupar.

As preocupações americanas -como as de muitos autores de políticas europeus- se concentram na crescente mas pouco compreendida tendência dos governos estrangeiros de converter seus títulos da dívida em "fundos de riqueza soberana" ("sovereign wealth funds" - SWF) que estão adquirindo ativos nos Estados Unidos e em outros lugares -e podem influenciar os mercados quando compram e vendem.

Em resposta, o governo Bush está pressionando o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial para que examinem o comportamento destes fundos, que controlam até US$ 2,5 trilhões em investimentos, e desenvolvam possíveis códigos de conduta para eles. Entre as regras propostas estaria a obrigação de revelação de seus métodos de investimento e evitar a interferência nas políticas do país anfitrião.

Oficialmente, os Estados Unidos recebem de braços abertos todos os investimentos, exceto aqueles que possam comprometer a segurança nacional.

Mas uma nota de cautela pode ser ouvida em relação ao investimento de governos estrangeiros em vez de empresas. Algumas autoridades alertam para a possibilidade de repercussões políticas caso cresça a tendência.

"O dinheiro naturalmente gravitará para ativos baseados em dólar devido à força de nossa economia", disse o secretário do Tesouro, Henry Paulson Jr., em uma entrevista. "Eu adoraria receber mais de tal dinheiro. Mas eu entendo a existência de um medo natural de que ele comprará a América".

Uma das preocupações americanas é filosófica. Os Estados Unidos por anos pregaram o evangelho da privatização, pedindo aos outros governos para que vendessem suas empresas estatais.

Agora, com os fundos de riqueza soberana, muitos especialistas estão se perguntando se o investimento além das fronteiras está evoluindo em algo que poderia ser chamado de nacionalização além das fronteiras, aumentando o fantasma de interferência do governo nos mercados livres -só que desta vez, nos mercados de outros países em vez do seus.

Outra preocupação é o simples tamanho e potencial de crescimento destes fundos. Seus ativos estimados em US$ 2,5 trilhões ultrapassam a soma investida pelos fundos hedge do mundo. Além disso, o Morgan Stanley, em um estudo amplamente citado, projeta que estes fundos de investimento poderão crescer a impressionantes US$ 17,5 trilhões em 10 anos.

Apesar dos fundos de riqueza soberana não parecerem ter tido um papel na recente turbulência nos mercados globais, especialistas dizem que poderão ter no futuro, de formas favoráveis e desfavoráveis -com a venda abrupta de ativos precipitando uma crise ou socorrendo fundos ou empresas em dificuldades.

"Eles poderão se tornar tanto a fonte do problema quanto parte da solução", disse Edwin Truman, membro sênior do Instituto Peterson de Economia Internacional. "Quando governos estrangeiros possuem ações e debêntures, não apenas títulos do Tesouro, é preciso se perguntar se serão uma força estabilizadora ou desestabilizadora".

Truman disse que seria fácil imaginar isto em uma futura crise global, Paulson telefonando não apenas para presidentes de bancos centrais, mas também para diretores de fundos de riqueza soberana. "Ele pode até já estar fazendo isto", ele acrescentou.

Os fundos são resultado de décadas dos Estados Unidos importarem mais do que exportarem. Os altos preços de energia renderam trilhões para os produtores de petróleo e gás natural, da Noruega e Rússia até os países do Oriente Médio, enquanto o interesse americano pela importação de outros bens e serviços engordou as reservas da China, Japão e outros gigantes exportadores da Ásia.

O furor político em torno destes fundos é limitado até o momento. Os esforços neste ano pela China e Cingapura para compra de participação acionária no Barclays Bank do Reino Unido, e do Qatar para assumir a rede de supermercados Sainsbury também no Reino Unido, causaram pouco alvoroço entre os líderes britânicos.

Nem a oferta de Dubai pela Barney's, a rede de varejo americana, nem a compra pela China de uma participação de 10% na Blackstone neste ano provocaram protestos nos Estados Unidos, apesar da ocorrência de algumas repercussões na China devido às recentes perdas em investimentos da Blackstone.

Mas na Alemanha, onde há preocupação com a compra pela Rússia de oleodutos, gasodutos e infra-estrutura de energia assim como diante da pressão sobre a Europa para ganho político, a chanceler Angela Merkel alertou que compras feitas por governos estrangeiros ou por empresas estatais representavam um risco.

"Como lidamos com fundos que estão nas mãos do Estado?" disse Merkel em uma coletiva de imprensa em julho. "Este é um fenômeno que até agora não existia em tal escala".

Provavelmente a maior turbulência política causada por um fundo de riqueza soberana ocorreu quando a Temasek Holdings, a divisão estatal de investimento de Cingapura, comprou uma participação na empresa de propriedade do primeiro-ministro da Tailândia, Thaksin Shinawatra. O acordo alimentou manifestações antigoverno que levaram à sua derrubada em golpe militar em 2006.

A preocupação é de que, além da possibilidade dos fundos estrangeiros provocarem alta dos preços de títulos, ações e imóveis, eles possam exercer controle impróprio nas esferas política e privada.

Truman, do Instituto Peterson, é um dos muitos especialistas que pedem aos Estados Unidos, ao Fundo Monetário Internacional e ao Banco Mundial para que elaborem códigos de conduta que mantenham a política de fora de decisões de investimento e exijam que os fundos compartilhem informação sobre a composição de seus portfólios e suas estratégias de investimento.

"Um governo é um tipo diferente de animal no mundo do investimento", ele disse. "Nós os chamamos de fundos de riqueza soberana, mas assim que você passa a operar fora de suas próprias fronteiras, não há soberania no mesmo sentido".

Outros defendem a exigência de que os fundos coloquem suas decisões de investimento nas mãos de administradores não-políticos.

"À medida que os país asiáticos e petrolíferos enriquecem, eles certamente dispõem de dinheiro para tentar exercer influência", disse Kenneth Rogoff, professor de política e políticas públicas em Harvard. "Nós não queremos que tal influência seja exercida de forma temerária. É preciso haver transparência na governança da empresa e na governança financeira como forma de proteção contra isso".

Paulson e o vice-secretário do Tesouro, Robert Kimmitt, viajaram para a China, Rússia e ao Golfo para pedir a importantes autoridades financeiras que adotem maior transparência em suas práticas de investimento e proíbam subsídios governamentais ou outras formas de incentivo para suas atividades de investimento no exterior.

O governo também está dizendo a estes países que devem abrir suas próprias propriedades para investimentos americanos caso queiram investir nos Estados Unidos.

Kimmitt disse em uma entrevista que os fundos soberanos parecem estar aderindo a práticas financeiras sólidas e não a motivações políticas, pelo menos até agora.

"Quando estive na China e na Rússia, eu fiquei surpreso com o grau com que, apesar de estar falando com autoridades do governo, parecia que estava falando com administradores de ativos", ele disse.

Os fundos de riqueza soberana já existem há décadas. O Fundo de Reserva Geral do Kuwait foi criado em 1960, e a Autoridade de Investimentos de Abu Dhabi, formada em 1976, conta com investimentos que totalizam cerca de US$ 800 bilhões, o tornando o maior destes fundos no mundo.

Com US$ 300 bilhões em seu fundo, a Noruega é vista por muitos especialistas financeiros como modelo de transparência de estratégia de portfólio, métodos e ativos. Mas também é assumidamente político, recentemente retirando seu investimento do Wal-Mart, citando acusações de que violou leis de trabalho infantil e de ter minado os esforços de sindicalização de seus funcionários.

Mas a China e os países do Oriente Médio ainda têm muito o que fazer para atingirem a mesma transparência nas atividades que a Noruega. Alguns especialistas se perguntam o que aconteceria se a China assumisse uma companhia farmacêutica americana e pressionasse por mudanças nos programas de medicamentos prescritos. Da mesma forma, qual seria a reação se um governo árabe exigisse uma ajuda financeira ou isenção de impostos para sua empresa em troca de apoio às negociações de paz no Iraque ou em Israel?

"Se estes fundos comprassem um grande mútuo Fidelity, eles fazem os investimentos padrão que fazem o fundo de Yale", disse Lawrence Summers, o economista que serviu como secretário do Tesouro e presidente de Harvard. "Mas em caso de investimentos mais diretos, eles se tornam protagonistas na economia e isto gera mais dúvidas".

O presidente George W. Bush sancionou recentemente um projeto de lei aprovado pelo Congresso para simplificar o processo de análise e possível rejeição de compra de empresas americanas por estrangeiros com base na segurança nacional. Mas elas representam aproximadamente apenas 10% de tais compras, disse o Departamento do Tesouro.

Mas um grande alvoroço ocorreu há poucos anos, quando uma empresa controlada por Dubai tentou assumir a administração de vários portos nos Estados Unidos e quando uma companhia estatal de petróleo chinesa tentou comprar a Unocal, sugerindo que os americanos podem não aceitar um aumento das compras por governos estrangeiros. Em ambos os casos, a preocupação dos políticos americanos era de ativos vitais da segurança nacional estavam em jogo. Mas nos anos 80, a segurança nacional não estava em risco quando os americanos recuaram diante das aquisições por empresas japonesas de propriedades importantes como estúdios de cinema e o Rockefeller Center.

"O governo Bush está certo em analisar este fenômeno, não com alarme mas com alguma atenção", disse Stephen Jen, chefe de pesquisa de moeda do Morgan Stanley. "O que precisa ser mais transparente é a estratégia e governança de tais fundos, para que não haja suspeita de haver alguma estratégia geopolítica obscura em seus investimentos". George El Khouri Andolfato

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