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21/08/2007

Um truísmo inconveniente: tempo quente, banho de água fria

The New York Times
Clifford J. Levy

Em Moscou
A melancólica Moscou dos filmes da Guerra Fria não existe mais e esta cidade cada vez mais próspera se vê caminhando de peito aberto para o futuro. Mas todo verão, as pessoas daqui sentem um gosto de uma privação à moda antiga, como se fossem arremessadas a um tempo em que tinham que entrar na fila ao amanhecer para comprar um pouco de lingüiça pálida.

Em bairros ricos e pobres, por até um mês, a maioria dos prédios fica sem uma gota de água quente.

Apesar de sua nova riqueza e aspirações, estimuladas por um boom no petróleo e outros recursos naturais, Moscou ainda possui uma infra-estrutura freqüentemente decrépita. No momento, um símbolo de tal condição é o sistema de água quente da cidade, talvez um dos vestígios mais irritantes do planejamento centralizado soviético.

Sergei Kivrin/The New York Times 
Trabalhadores fazem reparos na tubulação que distribui água em Moscou

Os prédios em Moscou geralmente recebem água quente de uma série de usinas espalhadas pela cidade, não de caldeiras no porão, como nos Estados Unidos. No verão, as usinas e a rede de canos que transporta a água quente precisam de manutenção. Lá se vai a água quente. E em lares por toda a cidade, surgem as baldes, esponjas e resmungos.

A suspensão da água quente no verão é da tal forma parte da vida que já ingressou em poemas e canções, já que os russos são talentosos na transformação da privação em arte. (Também não há escassez de piadas lamentando o ataque ao olfato das massas sem banho nos trens de metrô quando as temperaturas às vezes chegam aos 27ºC.)

Na verdade, a forma como as pessoas lidam com a interrupção do fornecimento parece refletir a evolução das posturas russas. Os moscovitas mais jovens, que estão menos familiarizados com as dificuldades do passado e estão tão habituados com Nokia e Pizza Hut quanto seus pares na suburbana Nova Jersey, parecem perdoar menos.

A geração mais velha certamente se queixa, mas parece mais disposta a dar de ombros. Afinal, o que são algumas poucas semanas sem água quente, dado tudo mais que suportaram ao longo de décadas? Este ponto de vista pode ser particularmente predominante em Moscou, a maior cidade na Europa, cuja população aumentou com a afluxo de pessoas das regiões mais pobres.

"Nós somos basicamente um país rural", disse Lidiya Artyomova, uma faxineira de 52 anos. "Nós estamos acostumados a este tipo de coisa, então não há nada que possa ser feito".

Artyomova trabalhava outro dia em um apartamento sem água quente na Rua Sadovaya-Karetnaya, em um dos melhores bairros da cidade. Logo após ela ter falado, chegou de carro um morador, Roman Berezin, um estudante de 25 anos com um cachorro no banco de trás e uma opinião mais dura.

"É muito desagradável", disse Berezin. "Eu gosto de tomar dois banhos por dia, e sem água quente você acaba indo e vindo, indo e vindo, indo e vindo, trazendo água da cozinha para o banheiro".

É claro, da mesma forma que sob o comunismo, são desenvolvidas formas de contornar a miséria comum. Alguns prédios, incluindo hotéis, instalaram caldeiras, e algumas pessoas instalaram pequenos aquecedores de água nos banheiros -ambos são legais. Mas para muitos são soluções caras demais ou moram em residências cujo encanamento e eletricidade não suportam o equipamento.

Moscou não está sozinha nos apuros de água do verão. São Petersburgo e outras cidades russas possuem sistemas semelhantes. Mas incomoda alguns moscovitas o fato de uma cidade com tamanho poder e dinheiro ser incapaz de fornecer uma necessidade básica o ano todo.

"Nós sempre pensamos no motivo da cidade não poder consertar todos os canos", disse Aleksandr Savin, 38 anos, outro morador do prédio na Rua Sadovaya-Karetnaya, que dirige uma empresa de entrega de pacotes. "Por que precisam fazer isto todo ano? E também há os acidentes, de forma que também interrompem o fornecimento de água fria."

As autoridades de Moscou reconhecem as falhas do sistema, mas notam que investiram centenas de milhões de dólares nos últimos anos na substituição de canos, sendo que alguns deles não funcionavam bem nem mesmo quando foram instalados durante o governo de Stalin.

Irina Negazina, uma autoridade do órgão municipal que supervisiona o sistema, disse esperar que a substituição dos canos esteja concluída em cinco anos. Áquela altura, as suspensões do fornecimento, que ocorrem por toda Moscou enquanto as equipes se deslocam de um local a outro, deverão ser mais breves, ela disse. Elas poderão durar apenas poucos dias, ela disse, porque apenas as usinas precisarão de reparos.

Ainda assim, o sentimento de frustração quando as torneiras ficam secas é grande, como foi registrado por uma poetisa proeminente, Tatyana Shcherbina.

"Eles desligaram toda a água quente, meu líquido do amor, minha corrente de palavras. Assim, sem a umidade da vida, eu secarei, juntamente com meus pratos sujos, eu juntarei musgo, uma pedra não virada, ou talvez seja esquecida, perdida na relva".

Por ora, com um alivio ainda distante, os russos, como sempre, encontram formas de se virar.

"Nós fingimos que estamos furiosos, nos queixamos de forma zombeteira e às vezes visitamos os amigos que possuem água quente em seus apartamentos", disse Dmitri Kuper, 39 anos, um designer de moda com apreço por tatuagens e piercings que vive no prédio na Rua Sadovaya-Karetnaya. "Eu simplesmente telefono para meus amigos e digo: 'Estou indo visitar vocês e vou levar minha toalha!'" George El Khouri Andolfato

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