UOL Notícias Internacional
 

22/08/2007

Relatório da CIA detalha erros antes dos ataques de 11/09

The New York Times
Mark Mazzetti*

Em Washington
Um relatório divulgado na terça-feira pela Agência Central de Inteligência (CIA) inclui novos detalhes sobre os erros da agência antes dos ataques do 11 de Setembro, descrevendo o que o relatório diz ter sido falhas na avaliação do papel exercido pelo mentor do ataques, Khalid Sheikh Mohammed, e das ameaças detectadas pela agência de espionagem em meados de 2001.

O relatório de 19 páginas, preparado pelo inspetor-geral da agência, também diz que entre 50 e 60 autoridades da CIA tinham conhecimento dos relatórios de inteligência em 2000, o que apontavam que dois dos seqüestradores do 11 de Setembro, Nawaf al-Hamzi e Khalid al-Mihdhar, podiam estar nos Estados Unidos. Mas nenhuma destas autoridades buscou notificar o FBI sobre a ameaça doméstica potencial, diz o relatório -evidência do que chama de falha sistêmica.

O inspetor-geral recomendou que vários altos funcionários da agência, incluindo o ex-diretor George J. Tenet, sejam responsabilizados por seu fracasso em implementar uma estratégia para desmantelar a Al Qaeda nos anos que antecederam os ataques de 11 de Setembro. O general Michael V. Hayden, o atual diretor da CIA, e seu antecessor, Porter J. Goss, se recusaram a adotar uma medida disciplinar contra Tenet e os outros citados no relatório.

As linhas gerais do relatório eram conhecidas desde logo após ter sido concluído em 2005, mas nunca foram divulgadas. Sua divulgação reacendeu o debate sobre se a CIA devia ter feito mais antes dos ataques e se Tenet e outros funcionários deviam ser responsabilizados.

Tenet chamou muitas das conclusões do relatório de "totalmente erradas" e Hayden notou que muitos dos criticados na revisão da sindicância do inspetor-geral da agência criticaram o "foco, metodologia e conclusões" do relatório.

Até terça-feira, o relatório foi mantido sob sigilo pela agência de espionagem, que era contrária à exposição pública de seus fracassos antes dos ataques do 11 de Setembro. O resumo do relatório foi divulgado por insistência do Congresso, passando por cima das objeções de Hayden, segundo os termos de uma lei aprovada há poucos meses.

A disputa amarga em torno da divulgação do relatório sugere quão profunda permanece a revolta, quase seis anos após o fato, em torno de quem culpar pelos fracassos de inteligência relativos ao 11 de Setembro. Entre os legisladores que expressaram revolta renovada com a decisão da CIA de não disciplinar ninguém estava o deputado Rush D. Holt, democrata de Nova Jersey, um membro do comitê de inteligência da Câmara.

"A responsabilização é um conceito que o povo americano entende", disse Holt em uma declaração, acrescentando: "Eu estou surpreso pelo fato do general Hayden ainda não ter entendido tal mensagem".

Muitas das conclusões do relatório sobre as falhas burocráticas que permitiram que 19 seqüestradores escapassem das autoridades e executassem os ataques foram documentadas em outros lugares, principalmente pela Comissão do 11 de Setembro, mas o relatório de John Helgerson, o inspetor da CIA, foi o primeiro a recomendar uma ação disciplinar contra as autoridades da agência de espionagem.

O relatório integral do inspetor-geral, totalizando várias centenas de páginas, permanece confidencial. Como exposto no sumário executivo que foi divulgado na terça-feira, o relatório não encontrou nenhuma "falha específica" nem uma "bala de prata" que teria permitido à CIA impedir os ataques do 11 de Setembro. Ele apontou que nenhum funcionário da CIA violou a lei e que nenhum dos erros representa má conduta.

Mas o relatório concluiu que os recursos da CIA dedicados a contraterrorismo foram mal geridos e que parte deles foi redirecionado do combate à Al Qaeda para outras partes do serviço secreto da agência. Ele citou "fracassos na implementação e administração de processos importantes, em dar continuidade às operações e compartilhar e analisar apropriadamente dados críticos".

O relatório não cita os nomes das autoridades, mas diz não exonerar suas responsabilidades de forma satisfatória, mas identifica alguns deles por seus títulos. Além de Tenet, a sindicância critica James L. Pavitt, o ex-vice-diretor de operações da CIA; J. Cofer Black, o ex-diretor do Centro de Contraterrorismo da agência; e outros altos funcionários da época dos ataques.

Tenet deixou a agência em junho de 2004.

A recomendação para que a agência estabeleça um "conselho de responsabilização" para determinar possíveis medidas disciplinares foi rejeitada em outubro de 2005 por Goss, que era o diretor da CIA na época e que argumentou que a punição de autoridades por falhas na inteligência "enviaria a mensagem errada para os demais funcionários sobre assumir riscos".

O relatório citou o fracasso da CIA em repassar a inteligência sobre Al-Mihdhar e Al-Hamzi para as outras agências como algo potencialmente significativo. A CIA identificou os dois homens em janeiro de 2000 quando visitaram a Malásia, mas nunca notificou o Departamento de Estado a colocá-los em uma lista de vigilância de terroristas.

O inspetor-geral relatou que cerca de 50 a 60 autoridades da CIA tinham conhecimento da inteligência sobre os dois homens, um número maior do que anteriormente divulgado, e que uma vigilância persistente deles "teria o potencial de produzir informação sobre treinamento de vôo, financiamento e ligação com os demais cúmplices dos ataques do 11 de Setembro".

Em um livro de memórias publicado neste ano, Tenet citou os esforços da CIA contra a Al Qaeda como um dos maiores sucessos de seu mandato, além de retratar a CIA como tendo sido ousada em soar os alarmes em meados de 2001 sobre a ameaça representada pela Al Qaeda. Em sua declaração na terça-feira, Tenet reforçou sua defesa, a de que os esforços de contraterrorismo da CIA estavam representados em "um plano robusto, marcado por esforço e dedicação extraordinários", muito antes do 11 de Setembro de 2001.

"Sem tal esforço, nós não seríamos capazes de dar ao presidente um plano em 15 de setembro de 2001, que levou à derrubada do Taleban, à expulsão da Al Qaeda de seu santuário afegão e ao combate aos terroristas em 92 países", disse Tenet na declaração.

Mas o relatório divulgado na terça-feira incluiu novos detalhes sobre o que chama de relação estremecida entre a CIA, sob Tenet, e a Agência de Segurança Nacional, que era liderada na época por Hayden. Ele disse que a disputa impediu os funcionários da CIA de terem acesso às transcrições de comunicações interceptadas entre suspeitos de terrorismo e criticou Tenet por não interceder para solucionar estas disputas territoriais.

Ao descrever o período anterior aos ataques do 11 de Setembro, o relatório disse que a CIA "não realizou uma análise abrangente que colocasse em contexto as ameaças detectadas na primavera e verão (do Hemisfério Norte) de 2001". Ele disse que a principal responsabilidade por Mohammed, que se tornou o planejador dos ataques, foi designada a uma divisão responsável por levar os suspeitos de terrorismo à Justiça, não à responsável pela avaliação das ameaças.

Em conseqüência, ele disse, pouca atenção foi dada às alegações de que Mohammed estava "enviando terroristas aos Estados Unidos para realizarem atividades em prol de Bin Laden".

Em uma nota aos funcionários da agência na terça-feira, Hayden deixou claro que continua contrário à divulgação do relatório.

"No mínimo, isto consumirá tempo e atenção revisitando um terreno já batido", ele disse. Mas Philip Zelikow, diretor executivo da comissão do 11 de Setembro, elogiou o relatório da CIA e disse ser amplamente consistente com as conclusões de sua comissão.

"Eu fiquei impressionado em quão brutais e inclementes eles foram em relação ao alto comando, o que acho que mostra muito bem o valor da instituição", disse Zelikow.

Tanto o senador Jay Rockefeller, democrata de Virgínia Ocidental, quanto o deputado Silvestre Reyes, democrata do Texas, presidentes dos comitês de inteligência do Senado e da Câmara, disseram na terça-feira que acreditam que a CIA corrigiu muitos dos problemas detalhados no relatório.

*David Stout contribuiu com reportagem. George El Khouri Andolfato

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