UOL Notícias Internacional
 

23/08/2007

Um solavanco nas relações entre Índia e Estados Unidos: definindo o conceito de "aliado"

The New York Times
Somini Sengupta
Em Nova Déli
A apreciação pelo que é norte-americano pode ser constatada no que diz respeito a muitas coisas, como o uso de tênis, os sotaques e os locais para onde a elite indiana manda os seus filhos para que estes cursem a universidade.

E, no entanto, o aprofundamento das relações entre Nova Déli e Washington, simbolizado pelo histórico acordo nuclear, cujos detalhes tornaram-se públicos no início deste mês, geraram tamanha ansiedade política aqui que, atualmente, isso se constitui no maior desafio para o governo de coalizão do primeiro-ministro Manmohan Singh.

Os aliados comunistas do governo, bem como a oposição, o conservador partido hindu Bharatiya Janata, têm criticado o governo, alegando que com o acordo ele cultiva vínculos estratégicos e econômicos mais amplos com os Estados Unidos.

Jorge Araújo/Folha Imagem - 26.jan.2004 
Mísseis usados no transporte de ogivas nucleares são exibidos durante parada em Nova Déli

A Aliança Progressista Unida de Shingh, conhecida como UPA, que é liderada pelo Partido do Congresso, depende do apoio de quatro partidos de esquerda para contar com a maioria no parlamento. A discórdia entre eles chegou a tal ponto que a capital indiana tem estado repleta de especulações sobre a perspectiva de eleições antecipadas, antes do término do mandato do governo no primeiro semestre de 2009.

O parlamento não tem que aprovar o acordo nuclear, mas protestos estridentes contra o tratado vêm debilitando a legislatura durante os últimos dez dias. O cerne das reclamações é que o acordo restringiria a capacidade da Índia de testar armar nucleares e colocaria em perigo a sua independência no campo da política externa.

"Os partidos de esquerda têm observado com inquietação a forma como o governo da UPA vem forjando vínculos estratégicos e militares estreitos com os Estados Unidos", escreveu nesta semana Prakash Karat, secretário-geral do Partido Comunista da Índia, no jornal do partido "Democracia Popular". O seu partido advertiu o governo para que este não dê continuidade ao acordo.

Não se sabe se as suas ameaças, ou aquelas feitas por Singh, que desafiou os comunistas a retirarem o seu apoio, resultarão em alguma ruptura grave no governo.

Mas o atrito expôs uma profunda e, talvez, inevitável, divisão entre o congresso e os seus aliados de esquerda. Até agora as diferenças quanto a políticas econômicas e externas vinham atrasando vários programas, sem, no entanto descambarem para um confronto de tais proporções.

"Este é uma fissura grave na arquitetura da relação estratégica entre Índia e Estados Unidos e nas especificidades do acordo nuclear entre os dois países", afirma Mahesh Rangarajan, um analista político.

Na semana passada Singh defendeu o acordo no parlamento, afirmando que o tratado proporcionaria a uma Índia carente de energia acesso a combustível e tecnologia nucleares. A Índia não tem sido capaz de adquirir tecnologia nuclear dos Estados Unidos nem de mais ninguém há 30 anos, já que o país, que não é signatário do Tratado de Não Proliferação Nuclear, testou um artefato atômico. A Índia precisa ainda obter aprovação da Agência Internacional de Energia Atômica e do Grupo de Fornecedores Nucleares.

Não se sabe ao certo quantos oponentes de Singh o ouviram no parlamento. Eles interromperam várias vezes o discurso do primeiro-ministro.

Até mesmo o nacionalista Partido Bharatiya Janata, que é tradicionalmente pró-americano, e que negociou uma aliança com o governo Bush no início de 2004, afirma que o acordo nuclear sacrifica a soberania nacional.

"Uma parceria estratégica não é sinônimo de subserviência estratégica, e é por isso que somos contrários ao acordo", afirmou em uma entrevista por telefone, na quarta-feira (22/08), o ministro das Relações Exteriores, Jaswant Singh.

Ele criticou a tentativa do primeiro-ministro de "fechar o acordo na marra", sem a aprovação do parlamento.

"Agora o texto está entalhado em pedra e nem uma vírgula pode ser modificada", reclamou ele. "E se não dá para mudar nada, o que o parlamento poderá fazer - lavar pratos?".

O tumulto aqui contrasta bastante com as críticas que o presidente Bush enfrentou nos Estados Unidos por parte dos membros do congresso norte-americano, que o acusam de ceder demais às demandas indianas, particularmente no que diz respeito ao direito da Índia de testar armas atômicas. Segundo os críticos, uma exceção tão ampla contribuirá para enfraquecer as normas internacionais de não proliferação.

O governo indiano e outros grupos que apóiam o acordo argumentam que os indianos não deveriam se preocupar com a dominação norte-americana. "O nosso relacionamento com os Estados Unidos já é completo", afirma Sunil Bharti Mittal, cuja companhia, a Bharti Enterprises, entrou em uma parceria que permite que a Wal-Mart opere no mercado indiano. "A Wal-Mart está aqui. E as companhias indianas estão fazendo aquisições nos Estados Unidos".

Mittal, que é também presidente da Confederação da Indústria Indiana, disse que o acordo nuclear será a pedra fundamental de uma cooperação de magnitude bem maior entre os dois países, que abrangerá todos os setores, dos produtos farmacêuticos à agricultura. "Se os Estados Unidos e a Índia forem realmente percebidos como aliados, como grandes parceiros para o progresso, veremos o comércio se multiplicar", afirmou Mittal.

Além de certo compartilhamento de valores e da boa vontade para com os norte-americanos e a sua cultura, até mesmo o governo dos Estados Unidos é admirado por muitos indianos. Os indianos compõem o maior grupo de estudantes estrangeiros nos Estados Unidos, e são os indianos os que recebem o maior número de vistos de trabalho para aquele país, segundo a Embaixada dos Estados Unidos na Índia. No ano passado, o Projeto de Atitudes Globais Pew revelou que 56% dos indianos entrevistados têm uma visão positiva dos Estados Unidos, que só perdeu na pesquisa para o Japão.

Prem Shankar Jha, colunista de uma revista indiana que escreveu em defesa do acordo nuclear, afirma: "Parte da boa vontade deve-se ao fato de, pela graça de Deus, nunca termos sido aliados no passado, de forma que nunca tivemos uma chance para desapontamento".

Mas os sentimentos continuam sendo mistos. Jha também escreveu contra as políticas do governo Bush aplicadas em outras regiões. Tais políticas não são nem um pouco populares na Índia. "Qualquer país com tamanho poderio militar e que não respeita as normas internacionais inspira necessariamente cautela", acrescentou ele, indicando os sentimentos paradoxais dos indianos em relação aos Estados Unidos. UOL

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