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23/08/2007

Uma adorável sobriedade

The New York Times
Cathy Horyn
Os estilistas de moda geralmente detestam as coisas que as mulheres podem realmente usar. Ou, de qualquer modo, eles ficam furiosos quando alguém diz que é possível vestir as roupas que fazem. Os estilistas sentem-se profundamente diminuídos pela mácula da utilidade. Por esse motivo, muitas peças de moda nos últimos anos deram a impressão de serem não só radicais, mas também estranhas às vidas das mulheres.

Será que tais peças são, para mim, massas amorfas abreviadas? O que eles estavam pensando?

Dan Martensen/The New York Times 
Modelo usa vestido Givenchy, sapatos Christian Louboutin e chapéu da Kelly Christy

"O perigo é estarmos perdendo de vista aquilo que as mulheres realmente desejam vestir", afirmou recentemente Azzedine Alaia. Alaia, um dos maiores inovadores da nossa época, está dizendo que para que a moda progrida ela precisa se relacionar mais diretamente com as vidas e os corpos das mulheres. Ela precisa se constituir em algo que as mulheres sejam capazes de vestir.

Com relação à temporada do próximo outono vários estilistas parecem concordar com esta opinião. No turbilhão de palavras da nova estação - "chique", "personalizado", "sofisticado" - existe a simetria agradável, a lógica saudável da "suficiência elegante". As roupas são ao mesmo tempo elegantes e práticas, mas, mais do que isso, elas projetam uma atitude que está acima das querelas do mundo da moda: não se trata de uma satisfação, mas certamente de uma racionalidade.

Na vanguarda dessa tendência mais elegante está John Galliano, com a sua mistura de paletós precisos, cores frescas e acessórios românticos como meias e luvas coloridas. Calvin Klein e Donna Karan focaram-se nas vestimentas do cotidiano, com saias justas até os joelhos e casacos. Gucci traz uma aparência inspirada nos anos 40, e isso significa roupas mais femininas e que cobrem mais o corpo. Jil Sander e Versace enfatizam a personalização.

Os casacos e saias esguios de Marc Jacob refletem uma sensibilidade mais madura. E com roupas tão conceituais como a Prada nesta estação, com os seus novos tecidos e texturas, é mais provável que as peças possam ser de fato usadas.

Essa mudança de direção ocorre em boa hora, proporcionando às mulheres mais opções em modelos e estilos. Mas ocorre também em um mau momento. As preocupações relativas aos mercados de crédito e hipotecas provavelmente farão com que os consumidores reduzam os seus gastos. Desde 1° de junho, o Índice de Varejo Morgan Stanley, que mede o desempenho de 34 companhias varejistas, caiu 21%.

"Creio que isso é uma indicação de que as pessoas estão preocupadas", afirma Julie Macklowe, que acompanha o mercado varejista para o Sigma Capital Management, um fundo de hedge de Nova York.

Evelyn Gorman, o proprietário da Mix, uma butique de Houston, concorda: "As pessoas estão sendo muito cuidadosas. Faz tempo que não as ouço falar sobre o que está acontecendo no mercado de ações".
MODA PARA O COTIDIANO
Dan Martensen/The New York Times
Vestido da Sonia Rykiel, sobretudo Camilla and Marc, chapéu Lola, luvas LaCrasia
Dan Martensen/The New York Times
Modelo veste conjunto da Marc Jacobs com bolsa de couro da Temperley
Dan Martensen/The New York Times
Blusa da Lanvin, calças Alexander Wang, cinto da Karen Walker, luvas LaCrasia; Patricia Von Musulin hand-carved ebony ring, $825 at Takashimaya, chapéu Kelly Christy; mochila da Chloe
ÁLBUNS DE FOTOS DE MODA


Mesmo assim, é difícil negar que a moda deu uma guinada para a feminilidade, e que isso poderá atrair consumidoras: "Não creio que ficarei quadrada usando um terno", afirma Linda Fargo, diretora de modas da Bergdorf Goodman. "Agora os ternos ficaram mais bonitos".

Assim como diversas mulheres, Natasha Elkon, que trabalha com a mãe na Galeria Elkon em Nova York, diz que o seu gosto tende a ser clássico. "Neste ano há realmente peças que dá para vestir", afirma Elkon, que encontrou uma jaqueta de mangas largas e calças na Chloé. "Adoro coisa que realmente posso vestir".

Citando como ficaram as roupas de adultos após uma ou duas temporadas de jalecos de adolescentes e plataformas tremulantes, Julianne Quay, editora-executiva das revistas "V" e "V Man", diz: "É por isso que não vejo a hora de retornar à escola, ao trabalho. É realmente possível vestir as roupas. Creio que vários estilistas acordaram neste momento Britney, e aumentaram em cinco centímetros as bainhas das calças".

Recentemente, Quay comprou um vestido de lã cinzenta Saint Laurent com um capuz, que ela descreve como "um modelo bem Dolly Parton para usar das nove da manhã às cinco da tarde". Na verdade, para Quay, o visual para o outono é "bastante 'garota trabalhadora'".

Isso está longe de ser um vexame. Muitas mulheres têm lutado para encontrar roupas que se encaixem nos diversos compartimentos das suas vidas: trabalho, família, compromissos cívicos e sociais. Marsha Cross, que gerencia os investimentos imobiliários da sua família em Houston, gosta dos ternos mínimos e dos vestidos lisonjeiros que Raf Simons desenha para Jil Sander, porque, segundo ela, "é possível ir com eles a mais lugares, e muitas de nós gostam de circular".

O amor pelas plataformas e pelos vestidos baby-doll se transformou em ódio. Embora não se possa culpar Lindsay Lohan e Paris Hilton por tudo, elas passaram a simbolizar um estilo baseado no surgimento infindável de roupas turbinadas por um bom relógio e bolsas devoradoras. Há algo de memorável em tal aparência, além do estilo de cartuns?

Quay recorda o efeito de uma peça Saint Laurent: "Fiquei parecendo a Minnie Mouse".

Há muitas explicações para o que teria causado esse choque com a realidade. Gorman diz que as mulheres cansaram-se de tentar fazer com que as roupas de adolescentes funcionassem para elas. Samantha Gregory, diretora de publicidade da Tory Burch, onde as saias-lápis vendem bastante, sugere que as mulheres querem roupas que revelem as suas formas. E Julie Gilhart, diretora de modas da Barneys New York, diz que as consumidoras em geral estão fazendo escolhas mais ponderadas a respeito daquilo que vestem, comem e dirigem.

Os vestidos ainda são populares. Para Amanda Goldberg, que mora em Los Angeles e que escreveu um romance chamado "Celebutantes" com Ruthanna Hopper, filha de Dennis Hopper, sobre Hollywood durante a semana do Oscar, os vestidos se constituem em uma maneira fácil de transmitir uma aparência polida, mas mesmo assim casual - uma exigência em Los Angeles.

"Pode-se usar um vestido com sapato de salto baixo ou sandálias de dedos, em vez de se recorrer aos sapatos de salto alto", afirma Goldberg, 33.

Mas Macklowe do Sigma Capital questiona se silhuetas mais elegantes são um antídoto para os vestidos casuais e genéricos. Ela observa que a consumidora obtém mais arte em jaquetas e ternos do que em vestidinhos casuais. Para o seu próprio guarda-roupa, ela compra peças Prada e Fendi.

Em uma estação na qual os sapatos podem ser um acessório mais importante de compra do que uma bolsa, existe uma sensação satisfatória de que a moda retornou às suas proporções humanas. Até os cortes de cabelo parecem estar normais. Conforme diz Quay com uma risada: "Não se trata do cabelo de Jennifer Aniston".

Se as mulheres estão empolgadas com o outono, isso pode estar acontecendo porque elas estão obtendo aquilo que desejam. UOL

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