UOL Notícias Internacional
 

24/08/2007

Aumento de tropas americanas faz com que iraquianos deixem em massa as suas casas

The New York Times
James Glanz e Stephen Farrell
Em Bagdá
O número de iraquianos que abandonou as suas casas disparou desde que teve início o aumento das tropas norte-americanas em fevereiro, de acordo com dados de grupos humanitários. Este fato acelerou a divisão do país em encraves sectários.

Apesar de certas indicações de que o aumento do número de soldados melhorou a segurança em certas áreas, a violência sectarista continua e as operações militares lideradas pelos norte-americanos provocaram novos combates, fazendo com que iraquianos atemorizados deixassem as suas casas em uma quantidade bem maior do que antes da chegada dos milhares de soldados adicionais, revelam os estudos.

Christophe Simon/AFP - 13.abr.2003 
Iraquianos retornam a Bagdá após ataque dos EUA em 2003

Os dados dizem respeito àqueles que são conhecidos como iraquianos deslocados internamente: aqueles que foram expulsos dos seus bairros e buscaram refúgio em uma outra parte do país, em vez de cruzarem a fronteira. O efeito dessa vasta migração interna é a drenagem de áreas religiosamente mistas no centro do país, enviando refugiados xiitas para as áreas predominantemente xiitas no sul do país e os sunitas para as regiões de maioria sunita no oeste e norte.

Embora a maioria dos iraquianos deslocados diga que gostaria de retornar, existem poucas perspectivas de que eles venham a fazer tal coisa. Uma árabe sunita que foi expulsa do bairro de Dora, no sul de Bagdá, por franco-atiradores xiitas, diz que duvida que a sua família algum dia retorne ao seu lar, com ou sem o aumento de tropas norte-americanas.

"Não há como retornarmos", lamenta a mulher de 26 anos, que disse se chamar apenas Aswaidi. "Aquilo é uma cidade de fantasmas. As únicas pessoas que permaneceram lá são terroristas".

As estatísticas coletadas por um dos dois grupos humanitários, a Organização Crescente Vermelho Iraquiano, indica que o número total de iraquianos internamente deslocados mais do que dobrou, passando de 499 mil para 1,1 milhão, desde o início do aumento do número de soldados norte-americanos em fevereiro.

Esses números são consistentes com dados compilados independentemente por um departamento da Organização das Nações Unidas (ONU) especializado em identificar deslocamentos humanos em grande escala. O departamento, chamado Organização Internacional para a Migração, descobriu que nos últimos meses o índice de deslocamento em Bagdá, onde se concentrou o aumento de tropas norte-americanas, aumentou 20 vezes, embora parte desse aumento possa se dever à melhoria do monitoramento dos iraquianos deslocados das suas casas, um trabalho realizado pelo governo na capital.

As novas descobertas sugerem que embora os ataques sectaristas tenham diminuído em alguns bairros, o fluxo de tropas norte-americanas e os combates intensos provocados por essa movimentação militar são parcialmente responsáveis por aquilo que o departamento de migração da ONU classifica como o pior deslocamento em massa de seres humanos na história moderna do Iraque.

Os dados também indicam que a tensão sectarista que as tropas norte-americanas deveriam aliviar ainda é intensa em várias partes do país: dentre os iraquianos entrevistados pela ONU, 63% afirmaram que fugiram dos seus bairros devido às ameaças diretas às suas vidas, e mais de 25% disseram ter sido removido à força de suas residências.

As alterações demográficas poderão favorecer aqueles que gostariam de ver o Iraque dividido em três regiões semi-autônomas: um sul xiita e um norte curdo ensanduichando um território sunita central.

De forma geral, a magnitude dessa migração tem sobrecarregado de tal maneira o governo iraquiano e as organizações de auxílio humanitário que algumas províncias deixaram de registrar mais cidadãos deslocados de suas residências, ou passaram a só aceitar aqueles cujas famílias pertencem originalmente à área em que atuam essas instituições. Mas Rafiq Tschannen, chefe da missão iraquiana do departamento de migração da ONU, diz que em muitos casos a capacidade dos familiares de absorver os parentes deslocados chegou ao limite.

Ele também advertiu que os relatos sobre pessoas que retornam às suas casas são exagerados. Quando teve início o aumento das tropas norte-americanas, o governo iraquiano anunciou que tomaria medidas para expulsar invasores de casas que não lhes pertenciam e que se empenharia em trazer de volta os legítimos donos.

"Eles anunciaram que as pessoas estavam voltando, mas não informaram que elas fugiram novamente", afirma Tschannen. "Os iraquianos ouvem falar que as coisas estão melhores, voltam para receber a sua remuneração e pegar uma mala adicional, e partem novamente. Na maioria dos casos não se trata de um retorno permanente".

Autoridades norte-americanas em Bagdá não responderam aos pedidos para que fizessem comentários sobre o assunto, mas a estimativa de inteligência nacional divulgada na quinta-feira (23/08) confirmou que os iraquianos continuam a se segregar por meio da migração interna. "O deslocamento populacional motivado pela violência sectarista continua impondo uma sobrecarga sobre os governos das províncias e alguns países vizinhos".

O médico Said Hakki, diretor da Organização Crescente Vermelho Iraquiano, disse ter ficado surpreso quando os seus dados revelaram que cerca de 100 mil pessoas por mês estavam deixando as suas casas durante o aumento do número de soldados norte-americanos. Hakki afirmou não saber por que esse índice é tão alto, mas acrescentou que alguns fatores são óbvios.

"É o medo. A falta de serviços. Se uma pessoa enfrenta um problema de segurança, não é preciso muita coisa para que ela fique apavorada", disse Hakki.

Segundo Dana Graber Ladek, especialista em deslocamento da população iraquiana que trabalha no escritório do departamento de migração da ONU no Iraque, é evidente que as operações militares, tanto aquelas conduzidas por tropas norte-americanas quanto pelas iraquianas, que atuaram conjuntamente durante o aumento do número de soldados, têm algo a ver com o aumento dos deslocamentos populacionais.

"Se o aumento do número de tropas significa que os soldados estão nas ruas patrulhando para garantir que não haja violência, temos um quadro potencialmente positivo", disse Ladek. "Mas se tal aumento significa operações militares durante as quais são realizados ataques e bombardeios, então isso obviamente gerará deslocamentos populacionais".

Mas Ladek acrescentou que ao contrário do que ocorria nos primeiros anos do conflito, quando as grandes ofensivas norte-americanas eram a principal causa de deslocamentos, o fator primário para este fenômeno mudou.

"A violência sectarista é o principal fator que provoca este problema - milícias penetrando em bairros e expulsando os sunitas, ou insurgentes mandando embora todos os xiitas", disse Ladek.

A conclusão dela é consistente com as experiências de iraquianos que abandonaram as suas casas em Bagdá e outras cidades.

Aswaidi e a sua família foram expulsas do bairro Dora, em Bagdá, cinco meses atrás, quando franco-atiradores xiitas abriram fogo contra a sua região sunita a partir de torres vizinhas, atirando contra as janelas das casas dia e noite.

Ao retornar secretamente para avaliar como se encontrava a sua propriedade em meados de agosto, ela descobriu insurgentes sunitas ocupando o prédio e casas vizinhas, caminhando tranqüilamente pelas ruas desertas. Aswaidi conta que, perto dali, os mesmos insurgentes capturaram um dos franco-atiradores xiitas que expulsaram os moradores, e alegaram que o atirador era um iraniano de 16 anos de idade.

Ela teme agora que todo o bairro seja ocupado por milícias xiitas como o Exército Mahdi, que é leal ao clérigo radical xiita Muqtada al-Sadr.

"Não quero que eles se apossem do meu bairro, mas creio que é isso o que eles farão", diz Aswaidi. "Ele deixará de ser sunita e tornar-se-á xiita. Os norte-americanos não são capazes de impedir tal coisa".

Os xiitas enfrentam problemas semelhantes. Em Shualah, na zona norte de Bagdá, 400 famílias xiitas moram atualmente em um campo de refugiados improvisado em um terreno baldio confiscado pelos seguidores de al-Sadr.

Em um amontoado de casebres de blocos de concreto e telhados de zinco e bambu, as famílias contam histórias sobre como foram expulsas das suas casas por insurgentes sunitas.

Ali Edan fugiu de Yusifiya, um reduto da resistência sunita na zona sul de Bagdá, quando o seu tio foi assassinado. Ele não pretende retornar, mesmo que os comandantes norte-americanos aleguem que os xeques sunitas passaram a colaborar.

"Aquela área ainda é insegura", garante um desconfiado Edan.

Ambos os grupos humanitários basearam as suas conclusões em informações coletadas de iraquianos deslocados dentro do país. O Crescente Vermelho contou apenas os iraquianos deslocados que receberam suprimentos de organizações de auxílio humanitário, e a ONU baseou-se em dados de um ministério iraquiano que registra cuidadosamente os iraquianos que deixam as suas casas e se inscrevem para receber serviços do governo em outras áreas.

Antes do início do aumento do número de tropas norte-americanas, o fato que era de longe o mais significante para o deslocamento dos iraquianos foi o atentado a bomba contra uma mesquita xiita reverenciada em Samarra, em fevereiro de 2006. O atentado gerou uma onda de assassinatos sectaristas, mas o índice de abandono das residências estabilizou-se ao final do ano passado, antes de subir novamente após o início do envio de mais tropas norte-americanas ao Iraque.

Os dados da ONU também incluem pouco mais de um milhão de pessoas que dizem ter sido deslocadas dos seus lares nas décadas anteriores ao atentado a bomba em Samarra, por fatores que incluem a guerra Irã-Iraque da década de 1980. Os números do Crescente Vermelho não incluem essas pessoas.

Em Bagdá, a mais recente migração envolve uma área extremamente complexa na qual algumas pessoas abandonam um distrito ao mesmo tempo em que outras retornam para ele. UOL

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