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24/08/2007

Cientistas induzem sensação de estar fora do corpo em pessoas saudáveis

The New York Times
Sandra Blakeslee
Usando óculos de realidade virtual, uma câmera e uma vara, cientistas induziram experiências de estar fora do corpo - a sensação de viajar para fora do próprio corpo - em pessoas saudáveis, de acordo com experimentos sendo publicados pela revista Science.

Quando as pessoas vêem uma imagem ilusória de si mesmas pelos óculos e são tocadas com uma vara, elas sentem como se tivessem deixado seus corpos.

A pesquisa revela que "a sensação de ter um corpo, de ser um ente corpóreo" é de fato construída por correntes sensórias múltiplas, disse Matthew Botvinick, professor de neurociências da Universidade de Princeton, especialista em corpo e mente que não participou dos experimentos.

Em geral, essas correntes sensórias, que incluem visão, tato, equilíbrio e sensação da posição do corpo no espaço, trabalham juntas imperceptivelmente, disse Botvinick. Mas quando as informações das fontes sensoriais não se encaixam e saem de sincronia, a sensação de estar no corpo como um todo se desmonta.

O cérebro, que detesta ambigüidades, então força uma decisão que pode envolver a sensação de estar em um corpo diferente, mostram os novos experimentos.

A pesquisa fornece explicação física para fenômenos geralmente atribuídos a influências de outros mundos, disse Peter Brugger, neurologista do Hospital Universitário de Zurique, na Suíça. Depois de ferimentos súbitos e severos, freqüentemente as pessoas contam ter tido a sensação de flutuar para fora de seu corpo, olhar para baixo, ouvir o que é dito e então, igualmente subitamente, encontrarem-se novamente dentro do corpo.

A nova pesquisa é o primeiro passo para se entender exatamente como o cérebro cria essa sensação, disse ele.

Os experimentos fora do corpo foram conduzidos por dois grupos de pesquisa, usando métodos ligeiramente diferentes, com a intenção de expandir a chamada ilusão da mão de borracha.

Nessa ilusão, as pessoas escondem uma mão no colo e olham para uma mão de borracha em cima da mesa na frente delas. Quando o pesquisador toca na mão verdadeira e na mão de borracha simultaneamente com uma vara, as pessoas têm a sensação vívida de que a mão de borracha é a sua.

Quando a mão de borracha é atingida com uma machadinha, as pessoas contraem-se e às vezes gritam.

A ilusão mostra que as partes do corpo podem ser separadas do todo quando se provoca um desencontro entre tato e visão. Isto é, quando o cérebro vê a mão falsa sendo tocada e sente a mesma sensação, esta é erroneamente atribuída à falsa mão.

Os novos experimentos foram desenhados para criar, com manipulações similares, uma ilusão do corpo inteiro.

Na Suíça, Olaf Blanke, neurocientista da Escola Politécnica Federal em Lausanne, pediu aos participantes para vestirem óculos de realidade virtual em uma sala vazia. Uma câmera projetou a imagem de cada pessoa tomada das costas e mostrada a 1,8 m de distância. Então, elas viam uma imagem ilusória de si mesmas a uma certa distância.

Então Blanke tocava as costas de cada pessoa por um minuto com uma vara, enquanto projetava simultaneamente a imagem da vara na imagem ilusória do corpo da pessoa.

Quando os toques eram sincronizados, as pessoas tinham a sensação de estar momentaneamente dentro do corpo ilusório. Quando os toques não eram sincronizados, a ilusão não ocorria.

Em outra variação, Blanke projetou um "corpo de borracha" - um manequim barato comprado no eBay, vestindo as mesmas roupas do voluntário - nos óculos de realidade virtual. Com toques sincronizados, a sensação de ser das pessoas passou para o manequim.

Um conjunto de experimentos separado foi desenvolvido por Henrik Ehrsson, professor assistente de neurociências do Instituto Karolinska, em Helsinque.

No ano passado, quando Ehrsson era "um aluno de medicina entediado no Colégio Universitário em Londres", ele se perguntou: "O que aconteceria com uma pessoa se 'tirasse' seus olhos e os colocasse em um ponto diferente de uma sala? Ela se veria onde seus olhos estavam? Ou onde seu corpo estava?"

Para descobrir, Ehrsson pediu às pessoas para sentarem em uma cadeira e usarem óculos conectados com duas câmeras de vídeo colocadas 1,8 m atrás delas. A câmera da esquerda projetava para o olho esquerdo. A câmera da direita projetava para o olho direito. Como resultado, as pessoas viram suas próprias costas da perspectiva de uma pessoa virtual sentada atrás delas.

Usando duas varas, Ehrsson tocou no peito de cada pessoa por dois minutos com uma vara enquanto movia a segunda sob as lentes da câmera, como se estivesse tocando o corpo virtual.

Novamente, quando os toques eram sincronizados, as pessoas tinham a sensação de estar fora de seus corpos - nesse caso, vendo a si mesmas de uma distância, onde seus "olhos" estavam.

Depois Ehrsson pegou um martelo. Enquanto as pessoas estavam vivenciando a ilusão, ele fingiu esmagar o corpo virtual acenando com o martelo logo abaixo das câmeras. Imediatamente, os participantes registraram uma resposta à ameaça medida por sensores em sua pele. Eles suaram e os pulsos se aceleraram.

Eles também reagiram emocionalmente, como se estivessem vendo a si mesmos se machucarem, disse Ehrsson.

As pessoas que participaram dos experimentos disseram que tiveram a sensação de sair de seus corpos, mas não uma forte sensação de flutuar ou rodar, como é comum nas experiências extracorpóreas, disseram os pesquisadores.

O próximo conjunto de experimentos vai envolver desconectar não só o toque e a visão, mas outros aspectos do corpo sensorial, inclusive a sensação da posição do corpo no espaço e o equilíbrio, disseram.

É provável que tais desencontros ocorram naturalmente quando regiões multi-sensoriais do cérebro são privadas de oxigênio após um ferimento ou choque. Ou elas podem ser induzidas durante o sono, esportes extremos ou práticas intensas de meditação que alteram o fluxo sangüíneo para partes específicas do cérebro. Deborah Weinberg

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