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24/08/2007

Crédulos: preparem-se para ficar espantados!

The New York Times
Edward Rothstein
Em Nova York
Antes de você deixar até mesmo a primeira galeria do "Believe It or Not! Odditorium", do Ripley's na Times Square, inaugurado em junho na Rua 42 Oeste, você já viu uma vaca de seis patas, um acrobata sem pernas, um carro feito de madeira, a mulher mais feia do mundo e uma girafa albina. Olhe para cima: uma réplica de um homem de 635 kg fica acima do piso principal, presumivelmente erguida da mesma forma que o próprio homem foi retirado de sua casa por um trator quando morreu em 1991.

Se você ficar tentado em dizer "Agora já vi de tudo", acredite ou não, não viu, porque você ainda tem que ver uma escultura em miniatura de Babe Ruth feita com chiclete usado; cabeças encolhidas por uma tribo equatoriana de um bebê, uma criança e um garoto executados; uma galinha de quatro patas criada por um fazendeiro romeno e um pênis fossilizado de uma morsa usado em guerras tribais.

Nicole Bengiveno/The New York Times 
Entrada da galeria do "Believe It or Not! Odditorium" do Ripley's

Depois de atravessar todos os 1.600 metros quadrados dessa atração -museu seria uma palavra solene demais - você ainda não poderá dizer "agora já vi tudo" porque (como um personagem no filme "Team America" ressalta) você não terá visto um homem comendo sua própria cabeça. Mas terá ficado impressionado com muitas coisas e talvez até grite algumas vezes. A sensação é particularmente intensa quando você está olhando para alguma coisa real, em vez de uma réplica - uma cabeça encolhida, em vez da mulher mais feia, um instrumento de tortura medieval, em vez da fotografia de um mutante.

E sim, junto com o fascínio que vem junto com o desconforto, uma sensação de estar observando perversamente um mundo natural imodestamente desnudado de seu decoro, ou olhando funebremente a seus habitantes humanos mais estranhos. Dá arrepios lembrar que os circos costumavam fazer apresentações de aberrações, nos quais a humanidade malformada, grotesca e exótica era apresentada para as multidões pagantes.

A aberração rompe todas as regras; é difícil de acreditar nela, porque não faz sentido; incomoda as noções de conforto. A aberração é o máximo da avant-garde, uma provocação à visão pequeno burguesa da vida ordenada, como uma casa de tatuagens no meio de um spa holístico.

A sensação voyeurística de poder entrar em um ambiente proibido, exótico e às vezes desconcertante é algo que o Ripley's compartilha com uma atração vizinha na rua 42: o Madame Tussauds. As imagens em cera, desde sua origem no século 18, oferecem uma janela similar para o mundo de exceções, violações e rupturas. Realeza, celebridade e criminalidade foram os maiores assuntos para os museus de cera. A madame Tussauds até fazia modelos de cera de cabeças guilhotinadas durante o período do Terror. Os museus de cera tradicionalmente incluem uma câmera de horrores, mesmo o de Nova York, que é mais assombrado pelas personas de J.Lo e Britney do que com alguém parecido com Jack, o estuprador. Mais sobre Madame e sua instituição mais tarde.

Apesar de algumas falhas (e alguns erros de edição nas descrições), o novo Ripley's é tão divertido e provocativo que vale a pena. O Ripley's ficou fora de Nova York desde que deixou a Times Square, em 1972, quando o bairro começou a ficar parecido demais com o mundo sombrio do desejo extravagante e das aberrações retratadas em seu interior. Agora, o Odditorium pode ser mais confortavelmente a exceção do bairro, em vez de uma extensão dele.

O museu ainda tenta usar o estilo do cartunista, colunista e antropólogo amador Robert LeRoy Ripley, cujos leitores em 1936 chamaram de o homem mais popular dos EUA. Sua vida poderia ser contada no estilo que aperfeiçoou para o "Acredite se Puder!":

- Ripley, que veio para Nova York de San Francisco, tentou entrar para os Giants em 1914 e foi aceito! Mas ele quebrou o braço logo no primeiro jogo.
- Ripley começou sua carreira de cartunista descrevendo estatísticas esportivas, mas ele atraiu mais atenção observando conquistas bizarras! Citou, por exemplo, um homem de Toronto que correu 90 metros de costas em 14 segundos.
- O programa de Ripley tornou-se tão bem sucedido que viajou em torno do mundo colecionando locais exóticos. Mas ele morria de medo de telefone!
- Apesar de toda sua energia incansável, em 1949, aos 55 anos de idade, Ripley sofreu um ataque cardíaco fatal durante uma apresentação ao vivo de seu programa de televisão, sobre homenagens em funerais militares!
ESQUISITICES E MUITO MAIS
Nicole Bengiveno/The New York Times
Fachada do Ripley's Believe It or Not! Odditorium, em Manhattan
Nicole Bengiveno/The New York Times
Cabeça reduzida é uma das atrações do museu
Nicole Bengiveno/The New York Times
No Madame Tussauds, Hillary Clinton nunca foge das fotos


Ripley pode ser visto usando capacete e meias quadriculadas em vídeos do Odditorium, alegremente dançando com tribos africanas ou carregando camelos com lembranças. Sua coleção pessoal de canecas de cerveja, cabeças encolhidas, máscaras tribais e "logros da natureza" como o bezerro de duas cabeças, aparece aqui. Ela também forma a fundação de outros Odditoriums atualmente administrados pela Ripley's Entertainment, que continua a acrescentar itens à coleção de estranhezas. O estilo das descrições dos objetos continua sendo um cruzamento entre anúncio de feirante e antropólogo cultural. Por exemplo, somos informados de que não falar a verdade era uma ofensa capital na China antiga e que violadores eram amarrados a uma chaminé de fogão quente. O texto do Ripley's diz: "Mentiroso, mentiroso, calças pegando fogo".

Você nunca sabe como entender os fatos e objetos apresentados. Eles são tão removidos de seus contextos que só o que fazem é impressionar: a história se torna domínio de turistas aventureiros, preparados para sensações e emoções. Essa distância - o isolamento do estranho para torná-lo ainda mais estranho - é uma das marcas do lugar. O Ripley's adora o cataclismo. Uma das pistolas de John Wilkes Booth está aqui (era uma reserva caso seu primeiro tiro contra Lincoln fracassasse). Capacidades bizarras são combinadas com incapacidades bizarras. O homem que, sem braços, faz tudo com os pés; o homem cujo cérebro é furado por uma furadeira vive para contar a história. Perversidades culturais abundam: aqui se encontra os pés amarrados das mulheres chinesas, junto com os instrumentos de tortura da Europa medieval, inclusive um "iron maiden" da Áustria do século 16, espécie de armadura de ferro que usava espinhos de forma particularmente perturbadora.

Pode parecer, a princípio, que Ripley era condescendente, explorando o mundo enquanto seus impérios estavam começando a se desintegrar e acumulando relíquias das culturas pré-modernas, zombando delas com seus pontos de exclamação. Mas há algo refrescante na recusa entusiasmada de Ripley de homogeneizar os extremos da humanidade. E seu olhar também se voltou às peculiaridades da própria cultura, tratando-as com o mesmo espanto. Talvez como forma de defesa, deixa o ponto bem explícito: o público ocidental não pode se sentir muito superior, ao menos aqui. Enquanto as mulheres africanas da tribo Sara esticavam seus lábios usando discos de argila, a mulher americana moderna aplica Botox com uma agulha hipodérmica. Enquanto as mulheres Padung de Burma esticam seus pescoços com anéis de ferro, mulheres ocidentais expandem seus seios com silicone.

De qualquer forma, o mundo é de fato um lugar estranho, mesmo que a maior parte de nós não monte uma réplica da armada espanhola com 250.000 palitos de fósforo ou encontre 20.179 trevos de quatro folhas, como dois colaboradores do Ripley´s.

Se você precisar de maior convencimento, simplesmente dê alguns passos a leste, para o Madame Tussauds. A princípio, nada parece estranho. O museu de cera, que desde a morte da fundadora, em 1850, até 1970 era uma instituição puramente britânica, entrou para o mercado das massas. Tussauds agora faz parte do Merlin Entertainments Group, com atrações em Amsterdã, Londres, Nova York, Las Vegas, Hong Kong e Xangai; em outubro, outra filial será aberta em Washington. Na versão nova-iorquina, que diz receber 850.000 visitantes por ano, um enorme modelo de Hulk recebe os visitantes, há um mini-teatro de "American Idol", Johnny Depp promove "Piratas no Caribe", e uma imagem exagerada de Superman aponta a loja de presentes. Mostras como essa são parcerias promocionais com outras empresas de entretenimento.

Então será apenas uma oportunidade de ver versões em tamanho real de imagens que já estão conosco o tempo todo (e algumas também antigas demais)? Será por isso que US$ 125.000 (em torno de R$ 250.000) e seis meses de trabalho são gastos em uma reprodução em cera, às vezes vagamente semelhante às imagens que conhecemos tão bem? Mas há algo a mais aqui também. Mesmo em sua atual versão, tudo no museu parece um pouco desnaturado.

Até recentemente, as figuras de cera do Madame Tussauds eram, na maior parte, mostradas como retratos, posados em dioramas históricos, separados do público. Quando visitei o museu em Londres, há décadas, figuras da história reuniam-se para eventos importantes. Quando madame Tussauds treinou em Paris, no século 18, as obras em cera serviam como uma espécie de registro, suas cenas retratavam os cataclismos da Revolução Francesa.

Nesta última geração, entretanto, as cordas foram retiradas. As figuras sentam-se junto aos visitantes. São tocadas, abraçadas, aparecem nas fotos. Tornam-se parte dos ambientes: uma festa de estréia em Broadway, uma boate. Uma galeria grande é reservada para celebridades sérias: Abe Lincoln, Gandhi, F. Scott Fitzgerald, Leonard Bernstein, Bill Clinton e Albert Einstein literalmente ficam lado a lado com crianças das escolas e turistas e suas câmeras digitais.

Como no Ripley's, a história se dissolve na sensação; aqui a emoção é a celebridade. O contato íntimo faz essas figuras parecerem familiares. São colocadas no mesmo nível que seus visitantes, que são até superiores a elas em sua vivacidade. Mas algumas vezes uma escultura em cera tem uma intensidade incomum naqueles olhos de vidro, ou é suficientemente semelhante ao modelo para lembrar ao público de algo mais misterioso nessas figuras curiosas, de algo que existe além da cera.

A celebridade sempre envolve uma dupla medida: uma superioridade irritante sentida na intimidade da fofoca vulgar. Aqui no Madame Tussauds, as figuras não são nem irritantes nem vulgares; não podem nem ser colocadas em pedestais nem menosprezadas. Em vez disso, nos vemos olhando naqueles espelhos de distorção, naquelas lentes estranhas que, acredite ou não, perturbam a postura inatingível da celebridade e deixam tudo ainda mais estranho do que já foi. Deborah Weinberg

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