UOL Notícias Internacional
 

24/08/2007

Para colher os benefícios da psicoterapia é necessário ajuste pessoal

The New York Times
Richard A. Friedman*
Os norte-americanos parecem gostar de psicoterapia. Seja para enfrentar os conflitos mundanos do cotidiano ou doenças potencialmente letais, como a depressão grave, a psicoterapia é vista por muitos como uma atividade saudável, ou pelo menos inofensiva.

Mas ao contrário de muitos outros tratamentos médicos, a psicoterapia pode se estender por um tempo considerável. É possível curar uma infecção em dias, mas a remissão de uma depressão ou de uma desordem de ansiedade graves pode demorar semanas ou meses, e uma desordem de personalidade exige tipicamente anos de psicoterapia intensa.

Assim sendo, se o resultado pode demorar meses ou anos, como é que uma pessoa pode afirmar se a psicoterapia faz algum bem?

Determinar tal eficácia é mais difícil do que se pensa. Um dos motivos para isso é o fato de as pessoas geralmente acharem que sentir-se melhor é sinônimo de estar recebendo um bom tratamento. Mas, considerando que as desordens psiquiátricas flutuam espontaneamente com o passar do tempo, assim como a maioria das doenças, muitos pacientes melhorariam mesmo que não recebessem tratamento algum. Um paciente que passa por uma má psicoterapia pode melhorar, enquanto um outro que recebe um tratamento exemplar pode sofrer terrivelmente.

A julgar por uma das maiores pesquisas já feitas sobre a psicoterapia, a maioria dos norte-americanos que experimentam a psicoterapia acredita que ela seja benéfica. No seu questionário anual de 1994, a revista "Consumer Reports" perguntou aos seus leitores a respeito das suas experiências com a psicoterapia. Dos 7.000 assinantes que responderam às questões sobre saúde mental, 4.100 tiveram consultas com profissionais da área. A maioria disse ter se sentido melhor com a terapia, não importando se foram tratados por um psicólogo, um psiquiatra ou um assistente social. E aqueles que faziam terapias de longo prazo relataram uma melhora maior do que os que se submeteram a tratamentos de curto prazo.

É claro que nem toda terapia é útil, a algumas podem ser até prejudiciais. Muitos pacientes já começam tendo problemas de relacionamento; eles podem achar difícil se desvincular de uma terapia ruim ou ineficaz.

Lembro-me de um escritor de sucesso que atendi em uma consulta. Com 44 anos de idade, ele fazia terapia havia vários anos, e sentia que, embora tivesse obtido bastante auto-entendimento, o seu estado de espírito cronicamente deprimido não mudara.

Após ver a sua parceira deprimida responder intensamente a um antidepressivo, ele achou que poderia também se beneficiar de uma droga similar, mas o seu terapeuta se opôs.

"Ele me disse que eu estaria mascarando os sintomas com a medicação, e que tais sintomas retornariam anos mais tarde, quando eu suspendesse o tratamento medicamentoso", disse o escritor. O paciente persistiu e obteve uma segunda opinião.

"Desconfie bastante de um terapeuta que desencoraje uma consulta com um outro profissional", disse um colega meu, Robert Michels, professor universitário de psiquiatria na Faculdade de Medicina Weill Cornell. "Se um paciente sente-se desconfortável no início do tratamento, ele deve abandonar a terapia. Mas se passa a não gostar da terapia mais tarde, ele deve discutir isso com o terapeuta e, caso os dois não cheguem a um acordo, então é chegado o momento para uma consulta com um outro profissional. Um terapeuta competente deve aceitar bem isso".

Não é de se surpreender que muitos pacientes relutem em buscar uma segunda opinião; eles podem sentir-se rejeitados pelos seus terapeutas, ou achar que feriram os sentimentos destes. E os terapeutas, tendo egos como qualquer pessoa, podem se opor a uma consulta independente por verem nela um sinal do seu fracasso, isso para não mencionar o incentivo financeiro óbvio para não perder o paciente.

E não são só os pacientes que têm dificuldade de determinar se os tratamentos os estão ajudando; às vezes os próprios terapeutas são incapazes de dizer se o processo está apresentando resultados.

Em um estudo publicado no mês passado no periódico "Psychoterapy Research", Michael J. Lambert e Cory Harmon, psicólogos da Universidade Brigham Young, forneceram a pacientes de psicoterapia um questionário com perguntas a respeito de como estavam se sentindo e funcionando. Eles forneceram de forma aleatória as respostas às perguntas do questionário à metade dos terapeutas dos pacientes; a outra metade recebeu um feedback mais completo, incluindo uma auto-avaliação do paciente e informações específicas sobre como os pacientes viam os seus terapeutas e a forma como estes forneciam apoio social. Os dois grupos foram comparados com um grupo de controle composto de pacientes cujos terapeutas não receberam nenhum feedback.

Os pesquisadores descobriram que o fato de fornecer feedback aos terapeutas melhorou nitidamente o resultado do tratamento: quando os terapeutas não receberam feedback, o estado de 21% dos seus pacientes deteriorou-se. No caso dos terapeutas que receberam feedbacks normais, 13% dos pacientes pioraram. Já no grupo que recebeu o feedback mais completo, apenas 7% dos pacientes pioraram.

A conclusão clara é que os terapeutas nem sempre são as melhores pessoas para julgar como estão se saindo os seus pacientes, talvez porque fiquem cegos pelos seu próprio otimismo e determinação de ter sucesso.

Alguns terapeutas podem até interpretar a piora durante o tratamento como um sinal de progresso - uma visão equivocada do "no pain, no gain" (algo como, "sem dor, não há ganhos") na psicoterapia.

Provavelmente é mais fácil identificar uma má psicoterapia do que uma boa, mas existem boas qualidades que são comuns a todas as boas terapias. O paciente deve sentir que está sendo compreendido como um indivíduo, e que o terapeuta é compassivo e não o julga. Os bons terapeutas devem ser capazes de explicar a natureza do problema do paciente, e qual, dentre vários tratamentos, pode ajudá-lo.

O paciente deve se perguntar não apenas se está melhorando, mas também se está recebendo o melhor tratamento possível. Informações sobre desordens psiquiátricas e tratamentos recomendados podem ser encontrados em vários websites de boa reputação, incluindo o da Associação Psiquiátrica Americana (www.psych.org) e do Instituto Nacional de Saúde Mental (www.nimh.nih.gov).

As diretrizes de tratamento da associação psiquiátrica descrevem aquilo que pode ser considerado o tratamento mais moderno para várias desordens e a base empírica para as recomendações. Tais informações podem ser obtidas no site www.psych.org/psych(USCORE)pract.

Embora isso não seja garantia de uma boa terapia, consultar-se com um profissional autorizado da área de saúde mental confere alguma segurança no que diz respeito a habilidade e competência.

É claro que sentir-se bem é importante, mas é possível sentir-se bem e ficar encalhado no tratamento, presenciando pouca mudança significativa. Se você está fazendo terapia, não confie apenas nos seus próprios sentimentos para julgar o tratamento. Converse com bons amigos e familiares e veja o que eles pensam a respeito do seu estado.

No fim das contas, a psicoterapia é uma atividade bastante pessoal. Se alguém tem que se submeter a uma cirurgia de cérebro, realmente não importa se gosta ou não do seu cirurgião, contanto que este seja habilidoso e competente. Mas em terapia, habilidade e competência são necessárias, mas não suficientes; o ajuste pessoal, mais do que qualquer outra coisa, pode determinar o sucesso ou o fracasso da terapia.

Richard A. Friedman é professor de psiquiatria da Faculdade de Medicina Weill Cornell. UOL

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