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25/08/2007

Análise: Por que o Iraque está fraturado e poderá continuar assim

The New York Times
Damien Cave
Em Bagdá
A Estimativa de Inteligência Nacional dos Estados Unidos divulgada na última quinta-feira revelou que o Iraque fracassou na tarefa de fomentar a reconciliação política que poderia conduzir à segurança e ao crescimento econômico no longo prazo.

O que o relatório não explicou foi o motivo pelo qual é tão difícil chegar a uma conciliação.

É claro que, em parte, o Iraque continua sendo um lugar marcado pela violência e o medo, o que torna difícil os acordos. Mas o mais importante, segundo analistas políticos e autoridades iraquianos, é que o Iraque tornou-se uma nação celular, dividindo-se e redividindo-se em distritos concorrentes que se interessam mais no caos do que nos acordos.

Na maioria das áreas, para a maioria dos iraquianos, o governo central é ou irrelevante ou invisível. As províncias e até mesmo os bairros transformaram-se em palcos nos quais se desenrolam lutas pelo poder. Como resultado, xiitas, árabes sunitas e curdos - ou elementos de cada uma dessas facções - chegaram à conclusão de que são capazes de realizar um melhor trabalho por conta própria.

"Ninguém pode confiar nos participantes políticos que carecem de uma visão comum a respeito do interesse público", afirma Nabeel Mahmoud, professor de relações internacionais da Universidade de Bagdá. "Tal conceito está completamente ausente do pensamento dos detentores do poder político no governo iraquiano, de forma que cada lado trabalha no sentido de obter as suas próprias fatias de cargos e recursos".

Os curdos talvez estejam mais bem posicionados para se beneficiar dos fracassos do governo. A proteção fornecida pelos Estados Unidos nos últimos anos do governo de Saddam Hussein ajudou a desvincular a região curda do resto do Iraque, atraindo torres comerciais de vidro e trabalhadores estrangeiros para cidades como Erbil.

No início deste mês os curdos deram um outro passo no sentido de se desconectarem do resto do país, aprovando uma lei regional de petróleo que só alcançará o seu potencial pleno caso uma lei nacional de petróleo jamais seja implementada.

No entanto, os xiitas e os sunitas árabes são as facções mais responsáveis pelo impasse político iraquiano, e aquelas mais capazes de colher benefícios de uma situação na qual nada funciona.

Os xiitas, em especial, como maioria, têm conseguido tirar vantagem do fraco governo central de diversas formas.

Os partidos religiosos nas áreas de maioria xiita como Basra atualmente lutam abertamente por posições de poder. Os assassinatos de autoridades xiitas por pistoleiros xiitas no sul do país tornaram-se mais comuns, e com a enorme riqueza petrolífera localizada na região, a interferência de Bagdá continua sendo vista com maus olhos.

Na capital, escritórios controlados por milícias e organizações civis do clérigo populista Muqtada al-Sadr surgiram como se fossem franchises por toda a cidade. A sua milícia, o Exército Mahdi, conhecido como Jaish al-Mahdi, atualmente controla os mais diversos negócios, como a venda de imóveis, gelo, armas e gasolina.

Um comandante Mahdi da zona leste de Bagdá calculou recentemente que a milícia controla 70% dos postos de gasolina da cidade, um número que é difícil de ser verificado, mas que é consistente com aquilo que as autoridades norte-americanas descrevem como sendo uma rede sofisticada que combina brutalidade com negócios.

O embaixador Ryan C. Crocker, por exemplo, recentemente chamou a organização de "Jaish al-Mahdi Incorporation".

Al-Sadr desempenha um papel no governo. O seu partido - encorajado pelos norte-americanos a participar do governo iraquiano - controla diversos ministérios ricos em recursos, incluindo o Ministério da Saúde. Sem o apoio de al-Sadr, Nouri Kamal al-Maliki, também xiita, não teria se tornado primeiro-ministro.

Assim como muitos outros aqui, al-Sadr e os seus seguidores recentemente voltaram-se contra al-Maliki, abandonando repetidas vezes o governo a fim de expressar descontentamento.

No entanto, al-Sadr não pediu a substituição do primeiro-ministro. Muitos analistas em Bagdá dizem que ele não agiu para derrubar o primeiro-ministro porque sabe que um governo forte provavelmente desmantelaria aquilo que a sua organização construiu.

"Os foras-da-lei, as milícias, os terroristas, os líderes tribais - todas essas pessoas se beneficiam", afirma Qasim Dawood, membro xiita do parlamento. "Existe gente vivendo da crise, ganhando poder com a crise".

Novas fontes de poder também se formaram na comunidade sunita. Milhões de dólares em contratos norte-americanos de reconstrução foram dirigidos para os grupos sunitas tribais em Anbar, que trabalham junto aos norte-americanos para combater grupos nativos como a Al Qaeda na Mesopotâmia.

Grupos similares de "guardiães" sunitas, conforme são freqüentemente chamados pelos militares norte-americanos, foram formados na província de Diyala e em áreas sunitas em Bagdá e no entorno da capital.

Líderes desses grupos anunciaram que gostariam de ingressar no governo, mas segundo algumas autoridades norte-americanas que trabalham junto a eles, a demanda mais comum dos seus membros consiste em três coisas: dinheiro, armas e liberdade de movimento. Não se sabe o que eles farão caso não recebam aquilo que consideram uma fatia justa do poder.

A Estimativa de Inteligência Nacional observa que caso o governo iraquiano não se mobilize rapidamente para cooptar as tribos, o apoio norte-americano a elas poderia "deslocar um maior poder para as regiões periféricas, minando as tentativas de impor uma autoridade central e revigorando a oposição armada ao governo em Bagdá".

Resumindo, a estratégia dos Estados Unidos para as áreas sunitas - geralmente descrita como promissora - pode acabar encorajando o sectarismo e minando a democracia que supõem-se que as tropas norte-americanas estejam apoiando.

Os líderes árabes sunitas, grande parte dos quais abandonou o governo iraquiano, dizem que não têm escolha a não ser permanecer na oposição. As suas comunidades vêem o poder xiita como ilegítimo, de forma que assinar uma medida como a nova lei de petróleo é algo impensável.

De fato, para muitos iraquianos, ver o governo de fato trabalhar unido - em um momento no qual muita gente investe em mantê-lo fraco - seria motivo de alarme, e não de comemoração.

Conforme afirma Saleh al-Mutlak, um importante líder árabe sunita: "Temos que satisfazer as frustrações do povo". UOL

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