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25/08/2007

Beleza e os brasileiros, com uma base amazônica

The New York Times
Andrew Downie
Em São Paulo
A devoção antiga dos brasileiros ao corpo - seja gastando fortunas com perfumes e cosméticos, emagrecendo para caber em biquínis minúsculos ou fazendo depilações reveladoras - está dando resultados.

As exportações de produtos de beleza do país vêm crescendo rapidamente nos últimos anos. Em 2006, as empresas brasileiras exportaram US$ 484 milhões (em torno de R$ 968 milhões) em cosméticos, produtos de higiene pessoal e fragrâncias, disse João Carlos Basílio da Silva, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos. Isso significou um aumento de 152% desde 2001, disse ele.

Em um mercado que gosta da palavra "natural", a abundância no país de óleos naturais, frutas e extratos de plantas também teve um papel crucial no aumento de vendas.

Adriana Zehbrauskas/The New York Times 
Fator "brasilidade" dos produtos ajuda a vender cosméticos "made in Brazil"

A Amazônia brasileira tem em torno de 13.000 espécies de plantas, de acordo com a agência de pesquisa agrícola Embrapa. Apenas uma minúscula fração dessas espécies foi analisada detalhadamente, e menos de 1% atualmente provê ingredientes ativos para cosméticos, de acordo com os especialistas.

Por anos, os povos indígenas da Amazônia celebraram as frutas por suas qualidades especiais. O grão do guaraná, por exemplo, é um estimulante famoso. A fruta do cupuaçu é fonte de óleo celebrado por suas qualidades hidratantes. O açaí tem alto índice de antioxidantes e é rico em energia. E o maracujá é usado em todo o Brasil como calmante. Todos são usados atualmente na produção de cosméticos.

Os fabricantes brasileiros não alegam que esses ingredientes sejam melhores ou mais saudáveis do que os encontrados em espécies de outros lugares ou que seus ingredientes sejam superiores aos componentes tradicionais como gordura animal. Eles acreditam, no entanto, que sua "brasilidade" é um fator importante no aumento das vendas.

Executivos da indústria no Brasil dizem que os produtos brasileiros são considerados, de alguma forma, mais puros do que os de outras partes do mundo.

"Se você pegar uma rosa da Amazônia e uma rosa do meio da França, a brasileira será muito menos poluída", disse Eduardo Rauen, diretor comercial da Amazônia Natural, empresa cujas exportações devem crescer entre 35% e 50% neste ano. "A Amazônia é mais natural, e esse é o nosso ponto de venda".

Os executivos também dizem que as vendas foram ajudadas pela imagem dos brasileiros como povo saudável e atraente, que faz de tudo para ter boa aparência.

"Aqui no Brasil, associamos beleza com sensualidade, tempero", disse Artur Grynbaum, vice-presidente executivo do Boticário, a maior operação de franquias de beleza do mundo, com vendas no exterior crescendo em média 20% ao ano.

Outro fator igualmente importante é a história do Brasil, rica em miscigenação. A mistura de sangue europeu, indígena, africano e japonês criou uma nação com todos os tons de pele, tipos de cabelo e modelos de corpo concebíveis. Os fabricantes de produtos de beleza precisam servir a todos, ou seja, não importa qual seja o mercado exterior, eles têm o produto adequado.

O óleo de palmeira murumuru, "é um hidratante poderoso, bom para pessoas com cabelo mais cacheado, quer vivam no Brasil, China ou EUA", disse Alessandro Carlucci, diretor executivo da Natura, empresa de vendas diretas que é a maior do Brasil, com 23% do mercado nacional. "A China tem poucas pessoas de cabelo cacheado, então o murumuru não vai vender bem lá", disse Carlucci. "Mas, no Brasil e nos EUA, uma porção importante das pessoas precisa hidratar o cabelo. Com a diversidade de nossos ingredientes ativos, podemos oferecer benefícios para diferentes países e diferentes etnias".

O principal destino dos produtos de beleza do Brasil ainda é a América do Sul, responsável por 61% das exportações brasileiras. Com um mercado interno de 188 milhões de pessoas, a economia de escala permite que o país fabrique produtos de beleza por custos significativamente inferiores aos seus vizinhos. Isso levou algumas empresas a fecharem suas operações em lugares como Chile, Uruguai e Bolívia e moverem sua produção para o Brasil, disse Basílio da Silva.

Sob o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, entretanto, o país expandiu seus horizontes de exportação. Rússia, Cuba e Angola surgiram como clientes importantes.

Esse esforço foi ajudado pela Agência de Promoção de Investimento e Comércio (chamada Apex), um corpo governamental dedicado a criar e diversificar mercados exteriores para produtos brasileiros desde 2003. Em conjunto com a Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos, a Apex pagou para dezenas de pequenas e médias empresas brasileiras se apresentarem em feiras em torno do globo, particularmente em regiões como Oriente Médio, Europa Oriental e África.

Essa assistência ajudou pessoas como Veronika Rezzani, que promoveu sua linha de produtos baseada na caipirinha, o coquetel feito de cachaça e limão. "A ajuda da Apex foi crítica para mim", disse Rezzani. "Eles me ajudaram a pagar para participar de minha primeira feira internacional em Bologna; se não fosse por eles eu não poderia ter ido. Eles ajudam pequenas empresas a participarem de eventos internacionais por custos reduzidos".

Há ainda grandes obstáculos para a exportação de pequenos produtores. Apenas um ano após montar uma linha de brilho labial, hidratante, gel de banho, sabonete e creme esfoliante baseada na caipirinha, Rezzani disse que tinha fechado contratos ou estava negociando com vendedores na Dinamarca, Finlândia, França, Noruega, Portugal, Suécia e reino Unido.

Ela não pode pegar mais pedidos por causa do sistema burocrático chamado de Radar.

Sob a lei brasileira, pequenos produtores só podem exportar até US$ 20.000 (em torno de R$ 40.000) por ano pelo correio e uma quantidade limitada via canais de exportação normais. A solicitação de aumento dessa quantidade envolve o que Basílio da Silva chamou de processo burocrático "estúpido e sem sentido". Empresários como Rezzani dizem que poderiam exportar ainda mais, se o governo simplesmente cortasse a burocracia.

"Temos todas essas pessoas interessadas, mas não podemos exportar, por causa do Radar", disse ela. "Fico louca".

As grandes empresas não são afetadas pelo Radar e esperam manter o crescimento, apoiado pelo real brasileiro, que está mais forte contra o dólar do que em qualquer momento desde 2000.

As aparências podem enganar, mas o futuro parece promissor. Deborah Weinberg

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