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26/08/2007

A doce vida na Riviera Sueca

The New York Times
Andrew Ferren
Um país nórdico com uma fatia considerável de seu território acima do Círculo Ártico pode até não sugerir muito a imagem de quilômetros de praias de areia branca, mas é exatamente isso o que Skane, a província mais ao sul da Suécia, proporciona. Foi o primeiro lugar a degelar da Suécia ao final da última era glacial. E Skane (pronuncia-se SKOH-nah) - com suas temperaturas por volta dos 25 graus - vem atraindo os suecos desde que tomar banho de mar virou moda, há mais de um século.

Atualmente, é só perguntar a um sueco por sua praia favorita que ele vai lhe dizer o nome de várias - e sempre com uma alcunha para caracterizá-las: pode ser a Riviera Sueca, por exemplo, ou então os Hamptons da Suécia, ou Provence, Ibiza e quem sabe até a Phuket da Escandinávia. As praias sempre ficam a cerca de uma hora de carro de Malmo e um pouco mais longe do centro de Copenhague pela estrada Oresund, rodo-ferrovia que liga a Suécia a Dinamarca. E há vôos econômicos ligando Malmo a outras cidades da Europa facilitando a vida quando as praias do Mediterrâneo ficam lotadas no verão.

Dean C.K. Cox/The New York Times 
Asa delta parte para vôo em Hamar, região propícia para a prática do esporte

Entre todas as praias, o balneário de Bastad recentemente ganhou personalidade o bastante para dispensar as comparações internacionais e ser apenas Suécia para os suecos. Sede do torneio de tênis Aberto da Suécia a cada mês de julho, a pequena Bastad tem uma enorme reputação de cidade festeira e de destino obrigatório para a elite sueca, há mais de um século

Com suas casas em tábua de madeira vermelha e branca abrigadas na curva norte da montanhosa península de Bjare, a cerca de 100 quilômetros ao norte de Malmo, Bastad a primeira vista pode parecer uma cópia da baía de Cabot habitada pela detetive Jessica Fletcher na série de mistério "Murder She Wrote" (com Angela Lansbury). Mas é só sentar numa das mesas comunais da animada Bodega do Pepe para sentir que a onda por lá tem mais a ver com o programa "Spring Break" da MTV gravado em Cancun.

Centro da vida social de Bastad, a Bodega do Pepe serve refeições (pizza de lagosta por U$ 70, alguém se habilita?) e bebidas, mas também serve de passagem para uma disco que fica no andar de cima, a Loft, que fica lotada até as 3 da manhã. As quadras de tênis, a praia e a marina ficam só a uns 10 passos dali.

"Outras praias mais distantes podem ser mais bonitas, mas esta aqui com certeza é a mais divertida", diz Filippa Jernbeck, vinda de Estocolmo como a maioria da turma de belos, bronzeados e certamente bem de vida que lotam as mesas por aqui no começo de julho. Da mesa, o amigo de Filippa agia como socialite enquanto ela falava ao celular.

Meu companheiro, Roger, e eu tivemos que acreditar no que Filippa disse sobre a praia, só nos restou acreditar, até porque a chuva que havia inundado o norte da Inglaterra acabou chegando a Bastad, arruinando nosso dia na praia. Mas o Pepe estava meio cheio que nunca.

Fomos para Torekov, seguindo mais quase uns quinze quilômetros a oeste passando por pitorescos batatais e campos de golfe - naquela faixa estreita há um total de 117 buracos nos campos. O Torekov Hotel, onde funciona um spa, acabou de passar por uma expansão, e lá fomos nós, atraídos pela possibilidade de ter bons equipamentos de academia para poder suar e gastar a pizza tão sofisticada.

Torekov - que é ainda menor que Bastad - parece à vontade, distante o bastante da riqueza um tanto rude do balneário vizinho, se bem que os táxis locais faturam bem fazendo corridas entre o Pepe e o Swensen's Krog, um restaurante em Torekov. Balsas também partem em outra direção, para a pequena ilha de Hallands Vadero, tranqüila reserva natural em mar aberto.

Mesmo sem ter um episódio como o que ocorreu nos Estados Unidos com a milionária Lizzie Grubman para chamar atenção sobre os conflitos de classe que podem acontecer em balneários assim tão exclusivos, parece que a igualitária Escandinávia tem os seus próprios rituais de verão e códigos de conduta específicos. Nadar diariamente no mar é uma prática socialmente indicada em cidades como Torekov, e tacitamente se entende que os que chegam para nadar todas as manhãs em seus roupões são aqueles ricos o bastante para ter uma casa na cidade.

Osterlen é uma região na costa sudeste de Skane, ao leste de Ystad, onde a paisagem agrária é freqüentemente comparada a da Toscana. Acres de trigo bem dourado se estendem até algumas das melhores praias, que têm areia rala "suave como fécula de batata", como diz um morador.
As dunas onduladas e a vasta praia em Sandhammaren proporcionam amplo espaço para as famílias saltitantes que vêm nadar, tomar banho de sol ou construir castelos na areia. Um farol de aço vermelho do século 19 paira sobre o pinheiral onde algumas lanchonetes e banheiros públicos foram convenientemente instalados.

Vale a pena visitar a vizinha Kaseberga, para ver o Ales Stenar, o "Stonehenge Sueco". Há um milênio, 59 enormes pedras foram dispostas bem no alto de um penhasco em forma de navio gigante - com mais de setenta metros de extensão - no que poderia ser um túmulo de viking ou talvez um relógio solar. Os visitantes costumar tocar nas rochas mais próximas, posando para fotografias e dali partindo para se maravilharem com a região costeira intacta que fica lá embaixo. Flutuando ao vento sul que domina por lá, a turma da asa delta e do parasail tem uma vista ainda melhor enquanto circundam e manobram lá por cima.

CENAS SUECAS
Dean C.K. Cox/The New York Times
Casal descansa no cais de Bastad
Dean C.K. Cox/The New York Times
Salva-vidas e banhistas em Skane
Dean C.K. Cox/The New York Times
Banhistas vão à praia em Torekov
Após nossos dias contemplando o mar, chegou a hora de conferir a paisagem interior de Osterlen, pontilhada com fazendas, castelos e casas de campo - todas protegidas por árvores taias elevadas feito torres e deslumbrantes demais para serem ignoradas. Assim nos decidimos a conferir como é o Borregarden, uma pousada bed&breakfast em estilo rural redecorada com elegância logo na saída de Borrby, a alguns quilômetros do mar. Os proprietários, Egon Palmgren e Simon Ruud, tinham várias dicas sobre tudo, de praias secretas às galerias de arte e restaurantes locais.

Para o jantar, eles nos indicaram o Ingelstorp, um lugar popular na cidade que tem esse nome. E se uma cidade deve ter somente um restaurante, que seja como o Ingelstorp: naturalmente chique e simples com cardápio de verão atraente, com macios bolos de peixe servidos com camarões grandes, batatas assadas e ervilhas frescas, tudo com uma delicada infusão de manteiga.

No dia seguinte, nós fomos para o oeste ao longo da costa sul, parando em um curioso porto pesqueiro aqui ou em uma reserva natural intocada acolá, mas sem realmente molhar nossos pés. Após os encantos CAIC e rústicos de Bjare e de Osterlen, nós nem estávamos muito a fim de experimentar o lado mais badalado da costa sueca, que parece estar na costa ao sul, mais rochosa, e nos grandes portos para balsas em Ystad e Trelleborg.

Esta excursão abreviada nos levou à península de Falsterbo, no canto sudoeste de Suécia, a tempo para pegar um pouco do sol de final de tarde (tudo bem, era oito da noite, só que o pôr do sol do verão ainda iria levar umas duas horas para acontecer). Talvez os mais fortes candidatos ao título de "Hamptons da Suécia", Falsterbo e a vizinha Skanor são basicamente aquilo que deveriam ser as praias e cidades de praia.

Os quilômetros de amplas praias brancas por lá são pontilhados com cabanas de praia pintadas em tom pastel, remanescentes dos dias em que trocar de roupa em público era uma ofensa digna de punição. A generosa faixa de areia em declive indica que você pode andar "quase até Copenhague sem molhar seu cabelo", como disse uma moradora de lá, acrescentando que preferia rápidos mergulhos dados a partir dos piers de madeira que se estendem sobre o mar e suas ondas gentis.

Pela areia, as ruas sombreadas de árvores têm a mistura ideal de cafés animados, galerias de arte e sorveterias. Com seus telhados íngremes e águas-furtadas, as despretensiosas casas do século 18 parecem descendentes das tradicionais habitações vikings. Miniaturas de escunas e veleiros aparecem em várias vitrines.

Por cerca de 700 anos até meados do século 17, os dinamarqueses dominaram Skane, pequena península em forma de rabo de peixe que já foi importante entreposto de arenques. Atualmente as idílicas cidades de lá vendem a subestimada elegância sueca aos visitantes de verão.

"Quando acaba a temporada de tênis em Bastad, todas as celebridades e socialites de Estocolmo descem para cá, para a Feira Eqüestre de Falsterbo", diz Catherine Ljungh da galeria Palm, numa movimentada esquina onde fica o Kust Cafe de Falsterbo. "Mas depois vão todos para Saint-Tropez ou para outro lugar, e aí aqui vira o perfeito balneário de verão: com praia, churrascos, golfe e famílias reunidas".

Um freqüentador da região concorda com essa opinião e diz:

"Acertou em cheio quem no começo do século 20 apostou na transição da comunidade pesqueira para balneário de verão", diz Pierre Pelham, americano de Mobile, Alabama, que com sua mulher Eva, cuja família é de Skane, passa a melhor parte do verão por lá. "Se você vai para o leste ao longo da costa, só tem congestionamento".

Os que buscam formas mais felizes de confusão devem procurar a pista de dança em Badhytten, badalado ponto de jovem exuberância na marina de Skanor, a uma distância segura das tranqüilas ruas da aldeia. Esse clube de dois andares proporciona vários ambientes, desde a cena cocktail civilizada até a mais fervilhante balada da brodagem. No terraço, um agitado mar de cabelos louros compridos, drinks derramados e jovens mulheres sendo amassadas (literalmente).

Os homens vestiam pequenas camisas pólo que pareciam ter sido costuradas sobre seus torsos malhados. Já as mulheres usavam vestidos esvoaçantes de linho que não pareciam ter costura nenhuma. Parecia um catálogo vivo da Abercrombie & Fitch, turbinado pela vodka Absolut.

A tranqüilidade se recompôs na caminhada de volta à cidade por volta das duas da manhã, enquanto a noite sueca de verão exercia sua magia. Uma lua cheia nascia no horizonte ao sul, enquanto ao norte o céu em cores de chamas mostrava que o sol não estava a fim de dizer boa noite. Marcelo Godoy

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