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26/08/2007

Amor moderno: os destroços do meu casamento, escondidos pelos estragos do Katrina

The New York Times
De Ellen Ann Fentress
O furacão Katrina veio numa época estranhamente apropriada para mim. As vidas despedaçadas e os lares perdidos pareciam se encaixar na minha situação de vida naquele momento.

Em pleno divórcio, depois de 23 anos de casamento e dois filhos, e num processo que deixara minha vida em frangalhos e levara a casa de minha família, eu vi o desastre de 230 mil km² como o equivalente em escala pública do meu sofrimento particular. Além disso, o frenesi após a tempestade aqui no Mississipi me permitiu esconder-me em público, o que eu apreciei porque não queria ser alvo da piedade alheia. Eu já tinha autopiedade suficiente.

The New York Times
"Graças ao Katrina, uma única caçarola de frango foi tudo o que chegou quando me mudei para minha casa pós-divórcio"
No rastro da tempestade, o interior do Mississipi ficou um caos: sem eletricidade durante semanas, os abrigos lotados de pessoas desalojadas, telhados arrancados e árvores derrubadas. Minha escola (eu era professora de francês num colégio num subúrbio de Jackson) deveria continuar fechada até a volta da energia, mas então a polícia rodoviária pediu que ela ficasse fechada indefinidamente, para diminuir o tráfego na rodovia US 49, o corredor de 240 km até a costa.

Com a maioria dos residentes do Estado presos em casa, sem trabalho, gás ou eletricidade, senti-me aliviada por não ter de participar da vida normal. E o fato de todo mundo em minha comunidade estar concentrado nos danos do furacão e não na minha devastação pessoal duplicou meu alívio.

É mais fácil aceitar a preocupação dos outros em reveses do destino como a doença ou a morte de seres amados. Mas no divórcio há humilhação, uma sensação inescapável de erro ou inadequação, como se você não tivesse entendido um ponto essencial das regras do jogo muito tempo atrás. E pela minha parte nesse fracasso eu não queria abraços sem jeito, guloseimas ou cartões da Hallmark.

Graças ao Katrina, não os recebi. Uma única caçarola de frango foi tudo o que chegou quando me mudei para minha casa pós-divórcio, um sinal de como as coisas estavam de ponta-cabeça naquelas semanas no Mississipi, um lugar onde as mulheres geralmente estocam frango ao bechamel e suflês de chocolate congelados para distribuir ao menor sinal de dificuldade com alguma amiga.

Um ano depois tive uma operação, e as amigas me sustentaram durante semanas com lombo de porco e bolo de frutas. Mas naquele período anterior, enquanto o Katrina seguia seu caminho e meu ser recém-divorciado vacilava, lembrei de uma cena de 'Terra dos Deuses', quando durante a revolução chinesa de 1911 o personagem de Luise Rainer se espreme contra a parede de um prédio enquanto uma multidão furiosa passa correndo.

A multidão também passou por mim correndo, com seu foco adequadamente ao sul, em vez de vir paparicar a divorciada confusa oferecendo uma carona para isto, um ingresso extra para aquilo. Não houve sequer as funções sociais habituais que poderiam me expor às condolências murmuradas que eu tanto queria evitar; as áreas públicas em toda Jackson estavam cheias de vítimas da tempestade e trabalhadores da Cruz Vermelha, e, no caso do terreno do ginásio estadual, centenas de cães e gatos evacuados.

Minha nova casa também ficou cheia. Um amigo de Nova Orleans me telefonou de sua mercearia no Bairro Francês perguntando se sua mulher e filha poderiam ficar em minha casa. Nós nos apresentamos enquanto descarregávamos suas bagagens. Tillie, seu cão collie, dormia no chão, e seu amigo-surpresa Billy se ajeitou na poltrona marrom.

Conforme passavam os dias, continuei personalizando a tragédia de acordo com minhas necessidades, a ver a tempestade como uma metáfora da minha vida e das circunstâncias atuais, embora não fosse um distanciamento insensível o que alimentava meu narcisismo. A costa do Mississipi tinha sido meu lar em vários momentos da vida, por isso eu achava natural misturar as perdas públicas e as privadas, sincronizando minha tristeza por mim mesma com a tristeza que eu sentia pelos que estavam num lugar que tinha sido meu lar.

Perdas públicas e privadas naquele que foi o meu lar
Passei a maior parte da infância em Pass Christian, onde o furacão passou a cerca de dez metros de altura, arrasando grande parte da cidade. Minha tia Ellen havia tido uma fazenda de noz pecã ao norte da cidade e mais tarde uma casa de fazenda na Second Street.

O litoral foi onde fumei meu primeiro cigarro, conheci Shirley Temple e levei minha primeira surra de jornal. Eu freqüentava a Primeira Igreja Presbiteriana em Gulfport, onde meus contraparentes ocupavam três bancos. Meu marido e eu nos casamos na varanda de madeira de nossa recém-comprada casa perto de Pass Christian.

Para meus sentidos embotados, parecia estranhamente lógico que esses marcos geográficos do meu passado tivessem sido arrasados e obliterados, agora que minhas expectativas na vida também tinham sido eliminadas.

Não que eu passasse o tempo todo atolada nesse tipo de melodrama, em vez de ajudar os outros. Como um ser humano capaz e responsável, eu conseguia me atolar e ajudar. Assim, um ou dois dias depois que a busca por corpos foi encerrada, eu estava numa caminhonete rumo ao litoral com seis colegas de igreja, todos dispostos a estender a mão.

Enquanto nosso carro seguia para o Golfo, o grau de danos ao longo da US 49 piorava a cada 20 minutos. O café que estava em nossas canecas esfriou e nossa conversa emudeceu enquanto absorvíamos o que estava ao redor. Cerca de 90 minutos ao norte do Golfo, os pinheiros junto à estrada estavam em ângulos de 45 graus, inclinados pelas horas de vento furioso. Vinte e cinco quilômetros para o interior, pinheiros arrancados e deitados se estendiam dos dois lados da estrada como pilhas de palitos de pretzel.

Alguns minutos depois, entramos no terreno da Escola Episcopal da Costa em Long Beach, a alguns quilômetros da praia, onde os episcopalianos e luteranos do Estado estavam reunidos em um esforço de ajuda. A eletricidade continuava desligada, e parte do teto do ginásio tinha sido arrancada pelo vento. Mas debaixo dos destroços a escola estava aparentemente bem como centro de suprimentos, clínica e espaço para os voluntários dormirem.

Foi só quando puxamos a lona preta, e eu vi uma fileira de árvores de pecã plantadas em linha reta como num pomar, que percebi onde estávamos: a escola fora construída no lugar da antiga fazenda de minha tia Ellen. O que também significava que a casa cor-de-rosa onde meu marido e eu tínhamos nos casado 23 anos antes estava na próxima saída da estrada. Ou estivera.

No vestíbulo obscuro da escola, ainda decorado com cartazes de boas-vindas do início do ano letivo, duas semanas antes, cerca de dez pastores da região, cujas igrejas tinham sido derrubadas, estavam reunidos. Havia dezenas de episcopalianos locais, todos de bonés de beisebol, camisetas, shorts.

O serviço de comunhão do Livro de Oração Comum sempre me acalmou, inspirando-me a ver a possibilidade de algo maior além de mim, de que eu precisava especialmente naquele momento. As partes separadas - a música, as vozes, um trecho da frase e a madeira macia do gradil do altar - se misturaram numa espécie de transcendência mística que raramente deixa de me comover. Por causa desse momento, eu nunca recuso um serviço de comunhão, e esperava especialmente por aquele.

O furacão danificou também minha bondade
Não me lembro da leitura da Bíblia, a não ser, é claro, que me identifiquei muito com ela. Então o serviço passou às Orações das Pessoas, e quando chegou a vez da atual catástrofe, várias pessoas começaram a choramingar. Uma mulher bem atrás de mim chorava especialmente forte. Enquanto o padre rezava pelos sobreviventes, seus fungos se transformaram numa série de soluços rápidos.

Isso me irritou. Mas por quê? Como eu podia me sentir irritada pelo sofrimento de pessoas que tinham perdido tanto?

Como se eu estivesse fora do meu corpo, minha maldade me intrigou. E percebi que minha bondade estava danificada. Eu tinha me tornado o tipo de mulher que provavelmente para os outros parece "endurecida", alguém que vai pela vida de rosto tenso e boca apertada, acreditando-se sobrecarregada de erros, má sorte e amargura. Todas as mulheres endurecidas tinham uma história de divórcio, pensei.

Eu estava contente por ser uma soldado do Katrina, distribuindo insulina e água e ajudando a limpar o ginásio da escola, e acho que me sentia bem com meus esforços. Mas mais revelador para mim naquele dia foi como me senti ressentida com a dor pública daquela mulher, e como senti ciúme de tanta preocupação por ela.

É verdade que eu havia afirmado que não queria pena ou atenção e estava grata por ter sido poupada desses esforços. Mas então vi que tinha confundido minha própria rejeição à pena com o desprezo pela simpatia ou preocupação em geral, quando na verdade a desejava, ou pelo menos desejava muito alguma coisa.

Não entendi isso naquela igreja improvisada. E não quero afirmar que a encontrei através de algo tão bom e nobre quanto de repente esquecer meus próprios problemas dedicando-me ao serviço dos outros.

Não, onde isso aconteceu foi no meio do estacionamento do shopping-center de Long Beach, onde mais tarde me vi no meio de quilômetros de roupas doadas que se estendiam à minha frente, uma expressão dos bons votos do mundo - milhares de camisetas, camisolas, calças e camisas trazidas de avião para os desalojados. Muitas mais do que se poderia dar ou levar, as doações assavam sem utilidade sobre o asfalto.

Aquela coleção maciça de bens não era dirigida a mim, e eu não precisava de nada daquilo. Mas a bela preocupação do mundo havia criado aquele mar de roupas - havia um excedente de compaixão flutuando, que euabsorvi. Nenhuma palavra de pena ou condolência, nenhum tapinha nas costas ou abraço sem jeito. Apenas o conhecimento de que tantos se importavam e agiram, por mais que fosse desconectado, redundante ou inútil. Foi perfeito.

Parada no estacionamento, senti algo pequeno mas fundamental brilhar em mim, e minha vida de repente voltou a seguir adiante. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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