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27/08/2007

Atender à platéia: o segredo de sucesso das continuações de Hollywood

The New York Times
De Jeannette Catsoulis
Eu culpo os filmes da série 'Alien'. Ainda que 'O Poderoso Chefão 2' ('The Godfather: Part II', EUA) tenha demonstrado, em 1974, que uma continuação pode ser um sucesso, tanto do ponto de vista financeiro quanto no que diz respeito à crítica, foram as estimulantes cenas do tipo monstros-enfrentam-as-forças-armadas feitas por James Cameron em 1986, na continuação do elegante pesadelo espacial de Ridley Scott, 'Alien: o Oitavo Passageiro' ('Alien', Reino Unido/Estados Unidos, 1979), que realmente deram dinâmica à essa tendência. Mudando de diretores e acrescentando roteiristas, os filmes da série 'Alien' demonstraram que é possível alterar significativamente o humor, a gramática visual e a sensibilidade média do original, agradar os críticos e ainda assim obter um retorno financeiro que equivale a quase o quíntuplo dos custos de produção. Mais do que qualquer outra continuação anterior, os filmes 'Alien' demonstraram que uma boa idéia cinematográfica - e uma heroína de muita ação usando uma calcinha minúscula - tem fôlego.

Divulgação 
Um filme que ultrapassa os US$ 300 milhões nas bilheterias pode ser desapontador?

Desde então, poucas continuações atenderam a tais expectativas, mas até mesmo as piores conseguiram gerar algum lucro. No mundo incerto de Hollywood, isso se constitui em um sucesso, e com os orçamentos de marketing muitas vezes se equiparando aos custos de produção, é fácil constatar por que os estúdios apegam-se a projetos vinculados a marcas estabelecidas na consciência do público.

Assim, embora 'Shrek Terceiro' ('Shrek the Third', EUA, 2007), comparado ao seu predecessor imediato, possa ser um desapontamento (tanto financeiro quanto artístico), quando esse desapontamento se traduz em um total de vendas nas bilheterias dos cinemas que ultrapassa os US$ 300 milhões, ele praticamente garante que o nosso ogro flácido e a sua princesa Fiona continuarão aparecendo em outras produções no futuro próximo.

O que faz o público voltar?
Algo mais difícil é determinar por que as platéias retornam. Os fãs que toleram a repetitividade e a falência ideológica da série de filmes 'A Hora do Rush', por exemplo, podem ser uma prova do poder da esperança e de uma necessidade de contar com coisas familiares em um momento no qual a Guerra do Iraque continua se desenrolando, as pensões e as calotas polares desaparecem e os vídeos da Al Qaeda têm uma distribuição mais ampla do que a dos filmes premiados no Festival Sundance.

Talvez percebendo isso, Hollywood respondeu neste verão com um número sem precedentes dos chamados 'filmes de franchises', ou continuações - nove ao todo -, a maioria dos quais conquistou com certa dificuldade rendas satisfatórias, apesar de as críticas não terem sido, em geral, boas. Mas somente três filmes tiveram sucesso em ambas as frentes: 'O Ultimato Bourne' ('The Bourne Ultimatum', EUA, 2007), 'Harry Potter e a Ordem da Fênix' ('Harry Potter and the Order of the Phoenix', EUA, 2007) e 'Duro de Matar 4.0' ('Live Free or Die Hard', EUA, 2007). Embora estejam longe de constituir marcos artísticos, e não tenham sequer contado com aprovação unânime, todos os três foram inteligentes, divertidos e - o mais importante - estiveram bastante afinados com as expectativas da platéia.

A identificação de expectativas é uma das maiores dores de cabeça de Hollywood; é algo cujo sucesso só pode ser avaliado após o lançamento. Mas uma avaliação dos pontos fortes desses três filmes revela certos fatores em comum em termos de entendimento, apesar de haver diferenças substanciais quanto à execução.

Apresentando de heróis reconhecíveis dotados de nítidas vulnerabilidades (amnésia, inexperiência e uma filha em perigo), todos os três exibiram um avanço narrativo, apesar de manterem-se fiéis às personalidades previamente definidas dos seus personagens. Este é um desafio essencial para uma continuação cinematográfica: criar um herói que evolua sem renegar a sua natureza. 'Homem-Aranha 3' ('Spider-Man 3', EUA, 2007) tentou - e não conseguiu - abandonar esta linha, substituindo idéias por vilões. E 'Treze Homens e um Novo Segredo' ('Ocean's 13', EUA, 2007) perpetuou a fórmula do herói estagnado associada a crimes, localidades e mulheres bonitas permutáveis.

FÓRMULAS DE SUCESSO
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A franquia 'Alien' mostrou que boas idéias e heroínas com "atrativos" sãoa chave para o sucesso repetido
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Mesmo com a 'desevolução' do herói, a saga de 'Bourne' consegue segurar o espectador
Toshifumi Kitamura/AFP
Os vilões - e o mundo à sua volta - podem mudar, mas o protagonista de 'Duro de Matar' continua o mesmo. E todos gostam
Heróis em (des)evolução
À primeira vista, 'O Ultimato Bourne' - basicamente uma seqüência ampliada de perseguição, intercalada com flashbacks e tramóias burocráticas - parece favorecer a sensação em detrimento da evolução. Um espetáculo de ação, o filme pode deixar o expectador zonzo, mas o diretor, Paul Greengrass (que também dirigiu o segundo filme da série, 'A Supremacia Bourne'/'The Bourne Supremacy', EUA, 2004), não está oferecendo apenas uma série de filmes eletrizantes e vazios. Dando continuidade a um processo iniciado com 'A Identidade Bourne' ('The Bourne Identity', EUA, 2002), de Doug Liman, ele reduz Jason Bourne, interpretado por Matt Damon, a uma massa de terminações nervosas e respostas condicionadas. É o reverso da evolução.

A maioria dos heróis de ação funciona segundo uma receita que consiste em uma mistura de ego e id, mas os filmes 'Bourne' dizem respeito à aniquilação do ego e ao apagamento da identidade. Não dá para conhecer Bourne porque ele não conhece a si mesmo, de forma que o feito desta trilogia - e do desempenho de Damon - consiste na sua capacidade de nos envolver na busca de um herói que, com freqüência, é mais máquina do que homem.

A sua tragédia particular é que o auto-conhecimento não o libertará; apenas o aprisionará ainda mais. Tudo o que ele pode fazer é correr até que, na tomada final e mais pacífica do filme, Greengrass faça com que o ciclo dele e o da trilogia se completem. Mas enquanto Bourne está se tornando menos humano, o oposto ocorre com Harry Potter. Em 'Harry Potter e a Ordem da Fênix' o amadurecimento do bruxo (paralelo a um rápido amadurecimento de Daniel Radcliffe) escureceu as cores e a paisagem emocional. É hora de Harry deixar de lado as coisas infantis, e com exceção das imagens dos gatos amados pela mais nova vilã do filme, Dolores Umbridge (Imelda Staunton), a beleza encantadora é algo que raramente aparece no filme.

O bom pode ser mais do mesmo
No entanto, o que permanece constante é o compromisso da série com a comunidade e a forma como ela atua como contrapeso à fraqueza humana. Ao contrário de Bourne, Harry não é auto-suficiente; e embora a jornada de Bourne tenha arrancado dele todas as emoções desnecessárias, Harry pode ter se tornado um poço de problemas nesta área. Neste universo, informação é poder, e os amigos são indispensáveis. David Yates, o mais recente diretor a embarcar no projeto, entendeu isso. É por isso que a confusão de Harry ao ser desprezado friamente por Dumbledore (Michael Gambon) é uma das passagens mais dolorosas e essenciais do filme.

Para John McClane (Bruce Willis), o relutante herói de 'Duro de Matar 4.0', crescimento pessoal é coisa para maricas. O mundo - e os seus vilões - podem mudar à sua volta, mas McClane continua sendo, segundo as palavras do seu último inimigo, "um relógio Timex em uma era digital". E é exatamente dessa forma que gostamos dele.

Após 12 anos no limbo das continuações, 'Duro de Matar' entrou nas salas de exibição com chances bem mais reduzidas do que os seus concorrentes. Carecendo do pedigree literário e da definição glútea dos seus rivais mais jovens, McClane foi o mais surrado e menos flexível do grupo. Mas o momento é tudo. O quarto "Duro de Matar" mostrou um terrorista de alta tecnologia, um atrapalhado Departamento de Segurança Interna e um vilão tolo o suficiente para se meter com o plano de aposentadoria de McClane. Agora a coisa se tornou pessoal.

Tirando proveito do medo da geração baby-boomer (geração de indivíduos nascidos entre 1946 e 1964, período de grande crescimento demográfico nos Estados Unidos) em relação aos defeitos de computador e ao desastre financeiro, 'Duro de Matar 4.0' conjuga pelo menos duas gerações em um momento de angústia moderna e daquela felicidade do gênero pipoca-com-guaraná. Grande parte do crédito pertence a Willis, que modela-se ao temperamento do seu personagem com a resignação ao longo sofrimento típica de um Brad Pitt quando se defronta com mais um calhamaço de documentos de adoção. Quando surgem problemas, McClane toma fôlego, contrai a barriga, exibe uma expressão resignada e parte para a ação. Assim, quando surgir o próximo filme 'Duro de Matar', nós compareceremos para vê-lo, até porque Bruce Willis sempre comparece às telas para nos entreter. UOL

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