UOL Notícias Internacional
 

28/08/2007

Dez são presos pela morte de jornalista russa

The New York Times
C.J. Chivers*

Em Moscou
O procurador-geral da Rússia disse na segunda-feira que 10 pessoas foram presas pelo assassinato por encomenda de Anna Politkovskaya, a proeminente jornalista e crítica do Kremlin. Entre os presos estão um chefão do crime tchetcheno e oficiais de carreira da polícia e serviços de inteligência do país, ele disse.

O anúncio, ao mesmo tempo instigante e obscuro, apontou para um possível papel oficial em um crime que provocou condenação internacional. Mas levantou mais dúvidas do que respondeu e foi denunciado pelo ex-editor de Politkovskaya como um disfarce para desviar a culpa daqueles que de fato ordenaram a morte da jornalista.

A controvérsia surgiu porque o promotor, Yuri Y. Chaika, sugeriu que o motivo para o assassinato não era silenciar Politkovskaya, cujos esforços para expor a corrupção e brutalidade sob o presidente Vladimir Putin lhe valeram aclamação internacional mas o desprezo das autoridades daqui.

Natalia Kolesnikova/AFP 
Promotor Yuri Chaika deixa sala após entrevista sobre o caso Politkovskaya

Em vez disso, disse o promotor, a morte visava desacreditar o Kremlin, ao levantar a suspeita de seu envolvimento, e no final desestabilizar o Estado russo. Tal teoria agora oficial é notadamente diferente da amplamente aceita por seus pares, que disseram que ela foi morta em retaliação por seu trabalho ou para impedir que artigos adicionais fossem publicados.

Entre os presos, disseram os promotores, estava um major da polícia e três ex-policiais, que trabalhavam para uma gangue criminosa liderada por um tchetcheno. Também foi preso, segundo ele, uma ex-oficial do FSB, o principal sucessor da KGB.

Chaika acrescentou que a morte foi ordenada do exterior, apesar de ter se recusado a citar o suspeito de ser o mandante ou revelar seu paradeiro, assim como não forneceu evidência para apoiar a alegação. O promotor não revelou os nomes dos suspeitos.

Sua descrição da motivação segue de perto as primeiras declarações públicas de Putin sobre o assassinato no ano passado e o padrão de alegações do governo de que estrangeiros estavam tentando minar a Rússia e o Kremlin, assim como manchar suas reputações.

Ela foi rapidamente criticada como um ato de conveniência política por Dmitri A. Muratov, editor-chefe do "Novaya Gazeta", o jornal independente onde Politkovskaya trabalhava.

Muratov disse achar que os 10 suspeitos estiveram envolvidos no assassinato, mas que a descrição de Chaika da motivação foi fabricada sob encomenda pelo Kremlin. Ele rotulou a versão oficial como "um pesadelo".

"A interferência política está atrapalhando a investigação", ele disse por telefone. "O procurador-geral não está agindo como procurador-geral, mas como um político que trabalha sob instruções do presidente".

Ele acrescentou que cooperou com os investigadores do governo no caso e ajudou a levantar evidências, mas que nunca encontrou nada que apoiasse a alegação de Chaika de envolvimento estrangeiro. "Nós não conseguimos nenhuma informação deste tipo", ele disse.
MORTE MISTERIOSA
AFP
Jornalista Politkovskaya era uma das principais críticas de Vladimir Putin


Politkovskaya, 48 anos, era especializada em questões de direitos humanos e na exposição de crimes relacionados à guerra na Tchetchênia, um assunto ao qual poucos jornalistas russos ainda se dedicam.

Ela também era escritora e uma crítica de Putin pelo que descrevia como crueldade, arrogância e corrupção explícita de seu governo.

Os alvos de suas fortes críticas eram muitos e variados. Eles iam do próprio Putin a Ramzan A. Kadyrov, o senhor da guerra transformado em presidente tchetcheno que se tornou o principal representante do Kremlin na república saturada da guerra, a autoridades de baixo escalão que acusava de corrupção, assassinato, tortura e mais.

Ela recebeu vários tiros de pistola enquanto entrava em seu prédio em Moscou, em 7 de outubro de 2006. O assassino deixou a pistola no chão ao lado dela - uma prática comum entre assassinos de aluguel na Rússia.

O assassinato, que ocorreu no aniversário de Putin, manchou a reputação da Rússia e provocou pedidos internacionais de investigação ampla e honesta.

Por meses a investigação foi conduzida com discrição e havia indícios de que estava fazendo progressos. Os editores do "Novaya Gazeta", freqüentemente em atrito com as autoridades, disseram neste ano que estavam cooperando estreitamente com os promotores ao mesmo tempo em que realizavam sua própria investigação paralela.

Os ex-colegas de Politkovskaya também disseram que no interesse de não interferirem no trabalho das agências de manutenção da lei, eles se contiveram de publicar o que descobriram até que os promotores anunciassem os resultados oficiais. Eles expressaram esperança de uma conclusão honesta, mas também preocupação de que ordens do Kremlin pudessem minar a investigação oficial.

Muratov disse que o "Novaya Gazeta" conta com amplas evidências de que "todos os recursos dos serviços especiais foram usados no cometimento do crime". Ele acrescentou que o jornal publicará seus próprios resultados, provavelmente antes do aniversário da morte.

Chaika, falando em uma coletiva de imprensa, disse que os investigadores prenderam 10 homens que trabalhavam em dois grupos para organizar a vigilância de Politkovskaya e então matá-la. Ele disse que o grupo responsável cometeu "vários assassinatos por encomenda não apenas na Rússia, mas também nos territórios da Ucrânia e Letônia".

Ele acrescentou que alguns dos assassinos de Politkovskaya estiveram envolvidos no assassinato por encomenda de Paul Klebnikov, o editor da edição russa da revista "Forbes", em julho de 2004, e talvez na morte de Andrei A. Kozlov, um alto regulador bancário russo, em setembro passado. Tal alegação parece não se enquadrar com antigas declarações oficiais sobre estes casos, que já levaram a prisões separadas. Chaika não elaborou.

O código criminal da Rússia permite que os suspeitos permaneçam detidos por períodos prolongados antes de serem indiciados. Chaika disse que as prisões foram aprovadas pela Justiça e que os suspeitos serão indiciados e levados a julgamento após a conclusão da investigação.

Muratov disse que o oficial preso do FSB era o tenente-coronel Pavel A. Ryaguzov, que ele disse que trabalhava na unidade de corregedoria em Moscou especializada na investigação de crimes cometidos por membros do FSB. O FSB confirmou posteriormente em televisão nacional que Ryaguzov trabalhava para o serviço no distrito administrativo central em Moscou.

* Michael Schwirtz contribuiu com reportagem. George El Khouri Andolfato

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