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28/08/2007

Produção de ópio no Afeganistão bate recorde pelo segundo ano seguido

The New York Times
David Rohde
Em Cabul
O cultivo do ópio no Afeganistão aumentou 17% em 2007, batendo recorde pelo segundo ano seguido, de acordo com relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) divulgado na segunda-feira (27/08).

Apesar de uma operação anti-narcóticos norte-americana de US$ 600 milhões e do aumento de seis para 13 do número de províncias nas quais as plantações de papoula foram erradicadas, o relatório revelou que a quantidade de terra no Afeganistão utilizada para a produção do ópio é atualmente maior do que aquela usada para o cultivo da coca em toda a América Latina.

De acordo com o relatório, atualmente o Afeganistão é responsável por 93% da produção mundial de ópio, contra 92% no ano passado.

Tomas Munita/The New York Times 
Policial afegão observa a queima de cerca de 10 toneladas de drogas em Cabul

Antônio Maria Costa, o diretor-executivo do Departamento da ONU de Políticas para Drogas e Crimes, que publicou o relatório, afirmou que os novos números são assustadores. "Hoje em dia o Afeganistão está cultivando mega-plantações para a produção de ópio", disse ele em entrevista coletiva à imprensa. "Sem levar em conta a China no século 19, nenhum outro país produziu tanto narcótico nos últimos cem anos".

Costa descreveu um "Afeganistão dividido", no qual a produção de ópio cai no norte, que está relativamente estável, e aumenta no sul, o centro de uma insurgência irredutível. No sul, os militantes do Taleban controlam várias áreas e têm encorajado os agricultores a produzir ópio. A produção no sul também se tornou mais sofisticada, sendo que o número de laboratórios para a transformação do ópio em heroína aumentou de 30 para 50 na província de Helmand, de acordo com autoridades locais. O relatório provavelmente reavivará o debate a respeito da proposta apoiada pelos norte-americanos no sentido de que se pulverize as culturas de papoula com herbicidas por meio de aviões. Autoridades afegãs e britânicas se opõem às pulverizações aéreas, afirmando que isso faria com que aumentasse o apoio a Taleban em meio aos agricultores que temem que os herbicidas envenenem as suas famílias. Segundo autoridades ocidentais, atualmente está sendo estudada uma proposta de pulverização de herbicidas feita por equipes terrestres de erradicação.

Costa pediu que as tropas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) passem a desempenhar um papel mais ativo no combate ao narcotráfico, apoiando as operações anti-drogas afegãs e fornecendo informações adicionais de inteligência. Ele disse que após um período de dois anos durante o qual autoridades da Otan e dos Estados Unidos reagiram com ceticismo ao seu pedido para que houvesse um maior envolvimento militar nas operações anti-drogas, há agora um consenso cada vez maior de que o comércio de drogas financia a insurgência.

"Desta vez, estou bem mais otimista", disse ele. "A impressão que tenho é que agora passaram a dar atenção às nossas palavras".

Na província de Helmand, que produz sozinha mais ópio do que qualquer país no mundo, há 7.000 soldados britânicos integrantes da Otan, naquela que é a maior concentração de forças estrangeiras no Afeganistão.

Helmand registrou um aumento de 48% na produção de ópio em 2007, de acordo com o relatório. A província, que tem o dobro da área do Estado norte-americano de Maryland (ou cerca de 54 mil quilômetros quadrados), produziu neste ano 53% do ópio do Afeganistão, em relação a cerca de 42% no ano passado.

Em um outro revés, a província de Nangrahar, no nordeste do país, que reduziu a sua área cultivada nos últimos anos, experimentou um aumento de 285% da produção de ópio em 2007, segundo os dados do relatório. A província de Farah, no sudoeste, que é palco de uma atividade cada vez mais intensa do Taleban, acusou um aumento de 93%.

No mesmo dia em que o relatório foi divulgado, autoridades da Otan e dos Estados Unidos anunciaram as mortes de cinco soldados estrangeiros no Afeganistão. Três soldados norte-americanos foram mortos em uma emboscada na província de Kunar, no nordeste do país, na segunda-feira, de acordo com oficiais militares norte-americanos. E as autoridades também anunciaram que um outro soldado da Otan morreu no leste do Afeganistão na segunda-feira, e que um militar holandês foi morto no domingo na província de Oruzgan, no sul do Afeganistão.

As autoridades da ONU rastreiam o cultivo da papoula com uma combinação de pesquisas feitas em terra e imagens de satélite. Esse rastreamento revelou que o número total de hectares cultivados com papoula no Afeganistão cresceu de 165 mil em 2006 para 193 mil em 2007, em um aumento de 17%. O clima favorável gera colheitas superiores à média, sendo que a quantidade estimada de ópio produzido saltou de 6.700 toneladas em 2006 para 9.000 toneladas em 2007, em um aumento de 34%.

O relatório faz observar que não houve um grande crescimento da demanda mundial pelo ópio nos últimos anos e que "a oferta de ópio do Afeganistão atualmente excede a demanda global por uma margem enorme". Segundo o relatório, calcula-se que até 3.300 toneladas desse ópio estejam armazenadas no Afeganistão.

O relatório adverte que grupos terroristas poderiam estar acumulando a droga. "O ópio armazenado, uma conhecida reserva de valor, poderia mais uma vez ser utilizado para financiar o terrorismo internacional", alerta o documento.

Costa criticou o governo afegão, bem como as nações ocidentais, por não terem adicionado nem um só nome à lista do Conselho de Segurança da ONU de grandes traficantes de drogas ligados ao terrorismo. No texto que acompanha a lista, que foi criada oito meses atrás, a instituição pede que os traficantes sejam presos e os seus bens confiscados.

Em uma entrevista anterior, Costa disse que o resultado deste ano sugere que a ganância, e não a pobreza, é o fator que está estimulando o comércio de ópio.

As províncias do norte do país que reduziram a produção de ópio são relativamente pobres, disse ele. Já aquelas do sul, nas quais a produção aumentou, como Helmand, são comparativamente ricas. Segundo Costa, com o tempo o comércio de ópio também distorcerá a economia do sul do Afeganistão.

"Quando mais tempo permitirmos que esse câncer se espalhe, mais profundamente ele se enraizará no sistema econômico", afirmou Costa. "E mais difícil será erradicá-lo". UOL

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