UOL Notícias Internacional
 

29/08/2007

Após tropeço, Mattel adota linha dura na China

The New York Times
Louise Story
Em El Segundo, Califórnia
O sinal de alarme soou para a Mattel no momento em que a companhia se preparava para anunciar que recolheria 1,5 milhão de brinquedos chineses contaminados com tinta à base de chumbo.

Rodeado por caixas de bonecas Barbie, carrinhos Hot Wheels e outras amostras de brinquedos, Tom Debrowski, vice-presidente-executivo de operações mundiais da Mattel, liderava uma tensa conferência matinal por telefone com a sua equipe em Hong Kong, onde eram 21h. Debrowski recorda-se de que naquele momento a Mattel acreditava estar lidando, na pior das hipóteses, "com um fiasco isolado, vinculado a um único vendedor que cometeu um grande erro".

Mas no meio da reunião, em 30 de julho último, a Mattel descobriu que a situação era pior do que se pensava.

Todd Heisler/The New York Times 
Brinquedos passam por teste de durabilidade em fábrica da Mattel em Tijuana, México

"Tenho más notícias", interrompeu David Lewis, vice-presidente de operações asiáticas, que acabara de receber um telefonema do laboratório da companhia para testes de segurança de produtos, em Shenzhen, na China, onde os brinquedos feitos por empresas externas são testados. "Tivemos mais um problema. Foi com um dos brinquedos da série de carrinhos Pixar".

Foi naquele momento que se instalou a confusão na Mattel, obrigando a companhia - há muito considerada uma das mais bem-sucedidas corporações ocidentais na China - a admitir que o que enfrentava estava mais para um problema sistêmico do que para um caso isolado envolvendo um mau fornecedor de tintas.

Agora a Mattel, que parece ter tropeçado em parte porque confiou demais na sua capacidade de operar na China sem grandes problemas, está vivendo uma crise. Os brinquedos para a temporada de compras de feriados já estão sendo transportados através do Oceano Pacífico, e a Mattel deseja detectar quaisquer outros problemas que tenham passado despercebidos - antes que esses brinquedos sejam colocados nas prateleiras das lojas e causem danos ainda maiores à sua reputação.

Um grande problema é o fato de alguns dos mais confiáveis fornecedores da Mattel terem recorrido a empresas menores que forneciam tinta mais barata e que não constavam da lista aprovada pela companhia. A Mattel agora está se movimentando rapidamente no sentido de aumentar a sua oferta e intensificar os testes dos produtos, não mais concedendo às empreiteiras chinesas vários meses para realizarem elas próprias os testes.

Os executivos da Mattel têm afirmado abertamente que poderá haver mais recalls, caso a companhia encontre mais problemas no decorrer da investigação. E a Mattel está discretamente enviando grandes carregamentos de brinquedos e bonecas para as suas próprias fábricas no México, para submeter a novos testes o material que chegou nas últimas semanas, enviado pelas empreiteiras chinesas.

"Tivemos recalls todos os anos desde que eu cheguei aqui", disse em uma entrevista na sede da empresa o diretor-executivo da Mattel, Robert A. Eckert. "Mas o segundo recall foi diferente; ele envolveu um nível diferente de escrutínio".

Com os seus recalls sucessivos, a Mattel - a maior fabricante de brinquedos do mundo e dona, entre outros, dos brinquedos Fisher-Price, das bonecas American Girls, dos carrinhos Matchbox e, é claro, da Barbie - se viu colocada no centro de uma polêmica candente a respeito da segurança dos seus produtos feitos na China.

O número cada vez maior de produtos recolhidos do mercado neste ano fez com que os consumidores vasculhassem as despensas e os baús de brinquedos em busca de produtos como os trenzinhos da série Thomas e Seus Amigos, bijuterias infantis, creme dental, rações para cães e, mais recentemente, cadernos e agendas do Bob Esponja. A Wal-Mart revelou recentemente que uma das maiores preocupações dos seus clientes é com a segurança dos brinquedos feitos na China.

Uma mãe ficou tão furiosa com os recalls que levou os seus filhos em agosto à sede da Mattel com um carro cheio de brinquedos com a marca da empresa, exigindo que a companhia examinasse um por um e lhe dissesse quais deles eram seguros (a Mattel concluiu que nenhum dos brinquedos trazidos pela mulher apresentava problemas).

"No curto prazo a Mattel está bastante vulnerável", afirma Allen Adamson, diretor-gerente da Landor Associates, uma firma de gerenciamento de marcas. "Isso porque os holofotes estão voltados para ela e a questão da China é extremamente polêmica".

A Mattel fabrica produtos na Ásia há bem mais tempo do que muitas companhias (a primeira Barbie foi feita lá em 1959). Isso gerou relacionamentos de longo prazo com certas firmas chinesas contratadas, muitos deles iniciados há várias décadas. Paradoxalmente, isso parece ter contribuído para os problemas da Mattel: quanto mais tempo ela terceirizou a sua produção para fábricas chinesas, mais frouxo tornou-se o controle sobre as companhias terceirizadas.

Durante a direção de Eckert, a companhia reduziu o número de empreiteiras às quais recorre, bem como a fração de brinquedos Mattel feitos por elas, mas isso possibilitou que os seus fornecedores mais confiáveis conduzissem os testes de qualidade e segurança - sendo que a Mattel só fazia os seus próprios testes uma vez a cada três meses.

As duas empreiteiras que provocaram os recalls de agosto estavam entre as mais confiáveis. A Lee Der, a fornecedora envolvida no primeiro recall, trabalhava com a Mattel havia 15 anos. A Early Light Industrial, a fábrica que fez os carrinhos Sarge que foram alvo do segundo recall, fornece brinquedos à companhia há 20 anos.

A Mattel percebeu o primeiro indício do seu problema na China no início de julho, quando uma rede européia de lojas descobriu tinta contaminada com chumbo em um brinquedo, o que levou a Mattel a recolher 1,5 milhão de brinquedos em todo o mundo em 2 de agosto. A Mattel cancelou a sua produção na Lee Der, que fazia 83 brinquedos diferentes, todos eles alvos do recall.

O recall de 14 de agosto não foi tão amplo, tendo afetado 436 mil carrinhos Pixar, mas, conjugado a um outro recall de milhões de brinquedos dotados de pequenos ímãs que causaram problemas de saúde em crianças que os engoliram, o golpe sobre a reputação pública da Mattel foi substancial. Os brinquedos Pixar eram fabricados por uma outra empresa terceirizada, a Early Light, que repassou o contrato de produção dos tetos e pneus dos carros para uma companhia chamada Hong Li Da.

Em ambos os casos, as companhias chinesas violaram as regras da Mattel no que diz respeito às tintas que são permitidas. A Mattel certificou apenas oito fornecedoras de tintas. A Lee Der comprou tinta contaminada com chumbo de uma companhia não certificada. A subcontratada Hong Li Da resolveu usar a tinta não certificada quando acabou um estoque fornecido pela Early Light.

"Creio que foi uma falha do fornecedor primário, que não seguiu os procedimentos com os quais convivemos durante tanto tempo", afirmou Debrowski.

Ele reconhece que as companhias na China estão enfrentando um aumento dos custos.

"Nos últimos três ou cinco anos, vimos os preços da mão-de-obra mais do que dobrar, e os custos das matérias-primas dobrarem ou triplicarem", disse ele. "E creio que existe muita pressão sobre aquelas pessoas, que estão trabalhando no limite para tentar economizar dinheiro".

Mas será que a Mattel não está fazendo pressão sobre os seus fornecedores para ela própria economizar dinheiro?

"Não, de forma alguma", respondeu ele. "Nós insistimos que eles continuem usando tinta certificada de fornecedores certificados, e pagamos por isso. Estamos perfeitamente dispostos a pagar por isso".

No dia do segundo recall, a Mattel anunciou um plano composto de três medidas: a intensificação do seu controle sobre a produção, a abolição do uso não autorizado de sub-empreiteiras e a transferência do teste dos produtos para a própria Mattel, rompendo com a tradicional confiança nas suas contratadas. O plano também inclui testes de todos os lotes de tinta.

"Percebemos a necessidade de aumentar a vigilância", disse no dia do anúncio Jim Walter, que informa Debrowski a respeito da garantia de qualidade.

A Mattel produz os seus brinquedos mais conhecidos, como as bonecas Barbie, nas suas 12 fábricas. Mas ainda que a companhia tenha aumentado a fração dos brinquedos fabricados por ela própria para cerca de metade da produção total, ela ainda depende de algo entre 30 e 40 vendedores para a fabricação da outra metade. Atualmente a Mattel percebe que não estava observando aquelas companhias com suficiente atenção, segundo dizem os executivos daqui.

A Mattel vetou as empreiteiras, mas ela não entendeu completamente até que ponto estas subcontrataram outras companhias - que por sua vez terceirizaram ainda mais. A Mattel exige que as suas fornecedoras apresentem uma lista das empresas terceirizadas, de forma que a companhia possa visitá-las, mas a Mattel está investigando se tal procedimento foi seguido. Várias companhias cujas fábricas a Mattel jamais visitou podem ter tido uma participação na fabricação de brinquedos que foram enviados para todo o mundo.

Longe dos olhos do público, a Mattel está agora limpando a casa. A companhia cancelou o contrato com quatro empreiteiras e está analisando os contratos firmados com outras. A companhia também se mobilizou no sentido de fazer valer a regra segundo a qual as subcontratadas não podem terceirizar o trabalho para fornecedores dois ou três patamares abaixo no processo de produção.

Os executivos da Mattel em Hong Kong estão procurando entender como tantas empresas terceirizadas tornaram-se parte da sua estrutura de produção. O escritório da Mattel em Hong Kong também dá continuidade a uma investigação que procura encontrar um padrão comum nos principais recalls de produtos fabricados na China. A Mattel conta com 200 funcionários dedicados à supervisão e ao treinamento das contratadas chinesas - mas os funcionários da companhia não ficam permanentemente nessas fábricas.

Como parte dos esforços para reconstruir a sua imagem, a Mattel está enfatizando que é menos dependente das empreiteiras chinesas do que a maioria das fabricantes de brinquedos. Ela divulgou propagandas por todo o mundo com a promessa de Eckert de fazer um trabalho melhor.

"Não existem muitas companhias que sejam donas das suas próprias fábricas", disse Eckert na entrevista. "E tampouco há muitas companhias que fabriquem fora da China".

A Mattel fechou a sua última fábrica norte-americana, originalmente parte da divisão Fisher-Price, em 2002. O grosso dos seus produtos é há muito tempo feito na Ásia. Na década de 1980, a Mattel decidiu assumir mais controles sobre os seus principais produtos, como a Barbie e os carrinhos Hot Wheels, e construiu e comprou diversas fábricas. Atualmente cerca de 65% dos produtos Mattel são feitos na China. Ou, conforme expressou de outra maneira um executivo da Mattel, mais de um terço dos brinquedos da companhia é feito fora da China. Muitas bonecas Barbie, por exemplo, são produzidas na Indonésia.

Os executivos da Mattel exibiram uma fábrica em Tijuana, no México, acompanhando um repórter até lá para demonstrar um laboratório de segurança dotado de máquinas de impacto, dispositivos para medição de temperatura e material para testes de verificação da presença de chumbo na tinta. As casas Little People da Fisher-Price, bem como as casinhas de boneca da Barbie são feitas lá, principalmente porque os custos de transporte de produtos maiores a partir da Ásia fazem aumentar bastante o custo final de produção.

A Mattel pretende comprar diversos detectores portáteis de chumbo que podem ser utilizados em todas as suas fábricas, bem como nas das suas empreiteiras. Nas últimas semanas, o laboratório de segurança em Tijuana foi utilizado para fazer uma dupla checagem do material entregue pelos fornecedores chineses.

"Isso é para nos assegurarmos totalmente de que esta questão é uma página virada", disse Eckert no seu escritório, rodeado de retratos da Barbie feitos por artistas como Andy Warhol e Peter Max.

Eckert melhorou o desempenho econômico da companhia, mas, fazendo uma retrospectiva, ele está feliz por ter resistido às solicitações de analistas, no início do seu mandato, para que vendesse as 12 fábricas da Mattel e terceirizasse toda a produção.

Quando dá palestras em faculdades de negócios, Eckert cita com freqüência o recall do Tylenol pela Johnson & Johnson em 1982 como um exemplo de como fazer as coisas de maneira certa e recuperar-se de um desastre inicial. "O episódio foi um grande exemplo de promoção de confiança", afirmou ele. "Aquela se tornou uma espécie de missão pessoal do diretor-executivo da época, que afirmou: 'Aqui está o problema, e aqui está o que estamos fazendo a esse respeito'. E ficou evidente que a iniciativa de fato não dizia respeito ao dinheiro".

Ele admite que os custos de produção da Mattel subirão, devido aos testes adicionais que agora são feitos. Mas, segundo Eckert, o preço vale a pena - para as crianças que usam os brinquedos Mattel.

"Esta é Allison, de 16 anos", disse ele, apontando para um retrato da sua filha. Depois, pegando um jipe verde-oliva que a Mattel retirou do mercado no ano passado, ele disse: "E este é o Sarge".

Debrowski, o diretor de produção da Mattel, também mantém o Sarge na sua mesa de trabalho. "Sabe como é, apenas para lembrar", afirma. UOL

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h58

    -0,53
    3,128
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    -0,28
    75.389,75
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host