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29/08/2007

Com aumento salarial na China, preços podem subir nos EUA

The New York Times
Keith Bradsher

Em Shenzhen, China
Na fábrica de bicicletas Dahon aqui, os dedos de Zhang Jingming se movem de forma rápida e metódica - pegando assentos de bicicleta, os envolvendo em papelão e suavemente os fixando no corpo.

Zhang ganha o equivalente a US$ 263 por mês; em fevereiro, ele ganhava apenas US$ 197. Parte de seu salário maior vem de trabalhar mais eficientemente. "Quando eu comecei, eu não era tão rápido", ele disse. Mas uma boa parte reflete um aumento salarial recebido por Zhang: de 1,32 centavo por cada assento de bicicleta para 1,45 centavo. É uma pequena diferença que significa uma grande mudança.

Os salários chineses estão subindo. Não existem números confiáveis para médias salariais; os dados econômicos do governo são notoriamente não confiáveis. Mas relatos por toda a China, assim como de especialistas que monitoram o mercado de trabalho do país, apontam que os donos de fábricas estão tendo dificuldade em encontrar trabalhadores adequados e estão sendo obrigados a pagar mais para os trabalhadores que conseguem encontrar. E os salários mais altos na China provavelmente levarão a aumentos nos preços nos Estados Unidos - nos shopping centers, mercados e até mesmo nos postos de gasolina.

Ariana Lindquist/The New York Times 
Trabalhadores descansam durante intervalo em fábrica de bicicletas Dahon, em Shenzhen

As empresas chinesas já estão repassando parte dos custos mais altos para os clientes estrangeiros. Os preços dos importados chineses, após anos de declínio gradual, saltaram 1,2% desde fevereiro, segundo o Departamento do Trabalho. O aumento de julho foi o maior até o momento: 0,4% em relação a junho. As empresas chinesas também estão repassando o custo da valorização de sua moeda, 8,8% frente ao dólar nos dois últimos anos.

Por décadas, muitos economistas do trabalho disseram que a vasta população da China forneceria uma fonte quase sem fim de trabalhadores. Tantas pessoas procurariam emprego em qualquer momento que os salários do país se manteriam a apenas meio passo acima dos níveis de subsistência. Há apenas quatro anos, alguns especialistas estimaram que grande parte dos até 150 milhões de trabalhadores no interior se deslocariam para as cidades.

Em vez disso, escassez esporádica de mão-de-obra começou a aparecer em fábricas daqui, na região do delta do Rio Pérola, no sudeste da China, em 2003. Agora tal escassez se espalhou para fábricas por toda a costa chinesa, disseram especialistas e empregadores.

Neste ano, Mary Gallagher, uma especialista em trabalho chinês da Universidade de Michigan, visitou cinco fábricas de sportswear perto de Xangai e Guangzhou. Ela descobriu que todas estavam tendo dificuldade para contratar e manter os trabalhadores. Uma fábrica até mesmo desativou uma de suas duas linhas de produção por não ter ninguém para costurar as camisas e outras peças.

"Basicamente metade da fábrica foi desativada e um dormitório foi esvaziado", disse Gallagher.

Nas entrevistas, executivos de fábrica de todo o país se queixavam de serem forçados a dar aumentos de dois dígitos para encontrar e manter jovens trabalhadores. Há três ou quatro anos, disse Zhong Yi, vice-gerente geral de uma fábrica de jaquetas de couro em Hangzhou, na região centro-leste da China, 800 a 1.100 yuans por mês (US$ 105 a US$ 145) "era um bom salário".

"Agora", ele disse, "1.500 é o mínimo" (US$ 198). As autoridades chinesas são rápidas em dizer que não há escassez geral de mão-de-obra -em vez disso, há uma escassez de trabalhadores jovens dispostos a aceitar os baixos salários que predominaram nos anos 90. Fábricas em cidades como Guangzhou anunciam em peso vagas para trabalhadores jovens, enquanto agências de empregos consideram um sucesso quando alguém com mais de 40 anos consegue encontrar emprego em menos de um ano.

"Agora estão pegando trabalhadores na faixa dos 30 e poucos anos, mas qualquer um mais velho que isto eles acham que não conseguirá suportar as condições, as jornadas de 11 horas", assim como o trabalho nos fins de semana e a vida tediosa nos dormitórios de propriedade das fábricas, disse Jonathan Unger, diretor do Centro para a China Contemporânea da Universidade Nacional da Austrália.

A recusa dos donos de fábricas em contratar operários com mais de 35 ou 40 anos entra em choque com a realidade demográfica da política de um só filho da China. O número de trabalhadores na faixa dos 20 aos 24 anos já está encolhendo à medida que mais deles ingressam na universidade em vez de entrarem na força de trabalho após o colégio, e a Organização Internacional do Trabalho projeta que o número de trabalhadores nesta faixa etária declinará constantemente até pelo menos 2020.

Em visitas às aldeias da tropical Gaoyao, no canto sudeste do país, até a empoeirada Houxinqiu, no nordeste, é notável quão poucos jovens adultos restam após tantos já terem partido para as cidades. Um recente levantamento do governo envolvendo 2.749 aldeias em 17 províncias e regiões autônomas revelou que em 74% das aldeias, não havia trabalhadores aptos a viajarem para cidades distantes, segundo a agência de notícias oficial "Xinhua".

Um relatório autônomo da Academia Chinesa de Ciências Sociais alertou sobre a futura escassez de mão-de-obra, mesmo em áreas rurais, já em 2009.

A falta de trabalhadores desejáveis não transformou a China no paraíso do trabalhador. Os salários de fábrica permanecem extremamente baixos segundo os padrões ocidentais: cerca de US$ 1 por hora para os trabalhadores melhor remunerados perto da costa, em comparação ao início desta década, quando os trabalhadores ganhavam apenas 50 centavos.

O salário parece particularmente baixo em dólares, em parte porque a China intervém fortemente no mercado de câmbio para conter a valorização de sua moeda, visando manter suas exportações competitivas. O custo de vida em dólares também é baixo pelo mesmo motivo; os pratos em um restaurante com ar condicionado a três quadras da fábrica de bicicleta apresentavam preços a partir de 50 centavos de dólar, para uma grande porção de arroz frito.

Além disso, a regulamentação trabalhista é fraca na China, como ficou demonstrado neste ano com a descoberta de que fabricantes de tijolos no norte do país tinham seqüestrado e escravizado centenas de crianças e adultos deficientes mentais, os obrigando a trabalharem sob condições brutais com pouco ou nenhum salário.

E os salários estão estagnados na metade do mercado de trabalho -trabalhadores que se consideram instruídos demais para empregos em confecções, mas que carecem de perícia ou experiência para terem um alto salário. "É fácil encontrar um emprego com salário baixo - não é fácil se você quiser um salário alto", disse Chen Zheng, 24 anos, que trabalha no setor automotivo e se formou no ensino médio em Ningbo, na região centro-leste da China.

A variável mais difícil de avaliar no mercado de trabalho mutante da China é o ritmo do aumento da produtividade. Como a China oferece poucas estatísticas confiáveis, a melhor forma de avaliá-las é olhar para fábricas individuais como a operação da Dahon aqui, que produz bicicletas dobráveis para que sejam mais fáceis de serem guardadas.

David T. Hon, executivo-chefe do privado Dahon Group, disse que apesar de aumentar salários em 10% a 15% ao ano, o custo médio do trabalho para cada bicicleta na verdade está em queda. Isto é possível, ele disse, porque as vendas estão crescendo em 30% ao ano e a produção em escala cada vez maior resulta em economia. O custo de projetar uma nova bicicleta, ou da contabilidade e outras operações administrativas, é diluído por mais e mais bicicletas à medida que cresce a produção.

As mudanças de preço na China dificilmente afetarão imediatamente as medições de inflação nos Estados Unidos, apesar de efeitos de longo prazo serem prováveis, disse o presidente do Federal Reserve (o banco central americano), Ben S. Bernanke, em um discurso de 2 de março, quando os preços dos importados da China se encontravam em seu ponto mais baixo. Bernanke sugeriu que as mudanças de preço na China teriam um efeito mínimo nos Estados Unidos porque o total de importações chinesas é pequeno em relação à economia americana.

A pergunta maior, ainda mais difícil de responder, é quanto as importações baratas chinesas forçaram os fabricantes americanos a manterem baixos os seus preços. E tal restrição de preços persistirá caso os produtos chineses se tornem mais caros? Os fabricantes de automóveis americanos, europeus e japoneses têm exercido forte pressão sobre os fornecedores de peças para reduzirem preços, os forçando a disputarem contratos com produtores chineses de baixo custo.

O aumento salarial geral na China também afeta a inflação americana indiretamente. O salário mais alto dos chineses contribui para um aumento da demanda por carros, aparelhos de ar condicionado e outros produtos que consomem energia.

A China atualmente é a segunda maior importadora de petróleo do mundo, atrás dos Estados Unidos. Uma demanda maior ajudará a elevar os preços mundiais de petróleo e a inflação. George El Khouri Andolfato

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