UOL Notícias Internacional
 

30/08/2007

Al-Sadr ordena que sua milícia suspenda ações por seis meses

The New York Times
Stephen Farrell*
Bagdá
O clérigo radical xiita Muqtada Al-Sadr ordenou que sua milícia suspendesse as atividades por seis meses, em um anúncio emitido um dia após dezenas de mortes em combates entre seus guerrilheiros e um grupo xiita rival, durante um festival religioso em Karbala.

Até 52 pessoas podem ter morrido e 279 ficaram feridas, quando homens com metralhadoras e granadas lutaram nas ruas em meio a multidões de peregrinos na terça-feira (28/9), disseram as autoridades locais na quarta-feira.

A declaração de Al Sadr foi emitida em seu escritório em Najaf e lida por um assistente. Além de instruir seus homens a suspenderem as atividades por seis meses, também determinou um período formal de luto pelos eventos em Karbala e instou o governo a iniciar investigações.

Qassem Zein/EFE 
Sadrista segura retrato do clérigo xiita Muqtada Al-Sadr durante protesto no Iraque

Testemunhas disseram na terça-feira que membros do Exército Mahdi, milícia de Al-Sadr, trocaram fogo com forças de segurança leais ao governo do primeiro-ministro Nouri Kamal Al-Maliki.

Ahmad Al-Shaibani, diretor de mídia do escritório de Al-Sadr em Najaf, acusou as forças de segurança de abrirem fogo sobre peregrinos e sadristas.

"Essa decisão terá grande vantagem: distinguirá e isolará os que alegam estar trabalhando para o JAM, mas de fato não fazem parte do grupo", disse aos repórteres em Najaf, usando as iniciais em árabe para o Exército Mahdi, Jaish Al-Mahdi. "O JAM é um corpo enorme e ativo no Iraque, mas há alguns intrusos que querem criar rachas. Não temos homens mascarados trabalhando conosco. Há pessoas até das forças de ocupação que dizem ser do JAM".

"Anunciamos nossa disposição de cooperar com o Estado para acabar com esses intrusos, que são considerados membros do JAM", disse.

Ele disse que haveria uma suspensão de operações militares, inclusive de ações dirigidas contras as forças de ocupação.

"Se houver ações provocadoras por parte deles, consideraremos isso depois", disse. "As pessoas não devem entender que estamos recorrendo à resistência pacífica. Não é essa nossa estratégia. Seguimos isso no passado e não funcionou. Nossa participação no processo político não significa terminar a resistência à ocupação, mas vamos parar por seis meses".

As forças do governo em Karbala e em outras cidades no sul do Iraque são dominadas pelo Conselho Iraquiano Islâmico Supremo e seu braço armado, a Organização Badr. Muitos combatentes dessa organização são veteranos treinados no Irã, onde moraram como exilados do governo de Saddam Hussein.

As tensões entre o exército Mahdi e a Organização Badr vinham cozinhando há meses. Os dois estão competindo pelo controle das regiões de maioria xiita do centro e do sul do Iraque. Dois governadores de províncias pertencentes ao Conselho Iraquiano Islâmico Supremo foram assassinados no sul do Iraque neste mês, apesar dos sadristas negarem envolvimento nos atentados.

O duelo vai se provar embaraçoso para Al-Maliki se suas forças de segurança não conseguirem controlar o Exército Mahdi e restaurar a ordem em uma cidade sagrada em seu próprio território xiita.

A violência pareceu espalhar-se para outras cidades, apesar de ataques a mesquitas e escritórios ligados à Organização Badr serem em uma escala bem menor. Em Bagdá, cinco pessoas morreram e 20 ficaram feridas em confrontos entre milícias no bairro de Cidade Sadr, reduto xiita, disse a polícia.

Al-Maliki, que foi para Karbala na quarta-feira, ordenou uma investigação e a demissão do antigo comandante das operações militares em Karbala, general Saleh Khazaal.

Um capitão do exército iraquiano em Karbala, que se recusou a dar seu nome, disse na quarta-feira que o combate começou entre o Exército Mahdi e os guardas do templo. "Subitamente, vimos os atiradores do JAM nos telhados dos hotéis próximos, e armas nas mãos dos peregrinos", disse o capitão. "Parecia que tinham começado a atirar deliberadamente para atacar as forças de segurança, porque essa reação imediata não faz sentido".

Centenas de milhares de peregrinos xiitas tinham chegado a Karbala nos poucos últimos dias para celebrar o nascimento de Muhammad Al-Mahdi, santo do século nove e último dos 12 imames reverenciados pelos xiitas.

As tensões em Karbala começaram na segunda-feira, com confrontos entre os partidários de Sadr e as forças de segurança dominadas por Badr, em torno dos templos. Essas forças estão em constante estado de alerta por causa dos ataques suicidas de insurgentes sunitas em festivais religiosos xiitas nos anos anteriores.

Testemunhas disseram na terça-feira que, enquanto peregrinos reuniam-se na praça entre os dois templos gêmeos de domo dourado, os combatentes do Exército Mahdi assumiram posições em torno dos templos e trocaram fogo com a polícia. Os peregrinos receberam ordens da polícia de deixar a cidade e fugiram em pânico, mas não conseguiram transporte para fora da área, enquanto a polícia montava barricadas para impedir o Exército Mahdi de entrar.

Sadristas disseram que os policiais dos postos de revista e detecção de metais provocaram seus seguidores batendo nos peregrinos que cantavam lemas pró-Sadr. Outros disseram que seguidores do Exército Mahdi que alegavam proteger os peregrinos foram proibidos de levar armas aos templos.

Autoridades iraquianas disseram que esses combates iniciais na noite de segunda-feira, cresceram quando a polícia atacou a mesquita Al-Mukhayam, um reduto do Exército de Mahdi em Karbala, e prendeu cerca de 20 combatentes. O Exército Mahdi rebateu na terça-feira de manhã, atacando as posições das forças de segurança, disse a polícia.
Atiradores também atacaram os escritórios do Conselho Iraquiano Islâmico Supremo e mesquitas na Cidade Sadr, Shuala, Jadriya, Husseiniya, Khadimiya e Diwaniya.

Na terça-feira, Haydar Abbas, palestrante de direito na Universidade de Babil, no Centro do Iraque, disse que era significativo o fato do confronto ocorrer quando sadristas pareciam se sentir cada vez mais marginalizados. Os seguidores de Al-Sadr deixaram o governo neste ano por discordarem de Maliki sobre a presença continuada das forças americanas no Iraque. O Conselho Iraquiano Islâmico Supremo é o maior partido xiita no governo.

Abbas disse que a influência do Conselho estava crescendo. "Eles têm muito poder sobre Maliki", disse ele. "O que está acontecendo é uma mensagem dos sadristas, que diz: 'Estamos aqui e não vamos nos retirar facilmente'".

"Lendo a história dos dois movimentos, os badristas e o Exército Mahdi, vemos que ambos eram facções militares que se tornaram poderes políticos", disse Abbas. "Isso significa que podem reverter para sua natureza militar a qualquer momento".

Na noite de terça-feira, cada lado culpava o outro pelo combate. O escritório de Sadr em Najaf emitiu uma declaração de Al-Sadr pedindo calma.

"Queremos esclarecer o desentendimento que aconteceu em Karbala", disse. "Essa crise não está conectada com o Exército Mahdi ou o movimento Sadr. Os incidentes que aconteceram foram entre os peregrinos e as forças do governo".

O escritório de Al Maliki emitiu declaração chamando seus oponentes de "criminosos armados e seguidores do antigo regime" e dizendo que a ordem das ruas tinha sido restaurada.

* Ali Adeeb contribuiu de Bagdá e funcionários iraquianos do New York Times de Karbala e Najaf. Christine Hauser colaborou de Nova York. Deborah Weinberg

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