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30/08/2007

Memorando político: um Bush polarizante apesar do novo elenco

The New York Times
Robin Toner
Alberto R. Gonzales, o polarizador secretário de Justiça, se foi, e Karl Rove, o polarizador conselheiro político, está de saída.

Agora, supostamente, a temperatura política poderá finalmente esfriar em Washington. Os dois partidos poderão estabelecer um relacionamento mais produtivo e o presidente Bush poderá conseguir mais algumas poucas realizações em seus últimos 16 meses de mandato.

Afinal, Ronald Reagan, que enfrentou o escândalo Irã-Contras em seu segundo mandato, conseguiu escorar sua administração, obter um grande progresso no controle de armas e servir seus últimos meses como um presidente popular.

Bill Clinton se recuperou no segundo mandato após a tentativa de impeachment.

Ambos os presidentes se recuperaram apesar das paixões partidárias que provocavam em muitos de seus oponentes.

Jim Young/Reuters - 27.ago.2007 
Bush, por temperamento, é um presidente polarizador como nenhum outro nos EUA

Mas paralelos históricos e a sabedoria convencional têm seus limites. Bush, por temperamento, estilo de governo e projeto político, é um presidente polarizador como nenhum outro, dizem pesquisadores. E nenhuma reforma de membros do governo ou onda incremental de boas notícias provavelmente mudará isto.

Considere os números. Ao longo do último ano, o índice de aprovação de Bush entre os democratas tem pairado em torno ou abaixo de 10% nas pesquisas "New York Times/CBS News". Ao mesmo tempo, seu índice de aprovação entre os republicanos tem pairado na faixa dos 60% e dos 70%.

Tal diferença entre os pontos de vista de democratas e republicanos teve seu pico em 2004 e permaneceu notável e consistentemente alta.

Em média, ela é substancialmente maior do que a de qualquer outro presidente moderno, disse Gary C. Jacobson, um cientista político da Universidade da Califórnia, em San Diego.

"Os números são muito claros a respeito", disse Jacobson. "Ninguém chega perto dele".

Em comparação, Reagan, em um momento comparável de sua presidência, no segundo semestre de 1987, ainda contava com o apoio de um quarto ou mais dos democratas na maioria das pesquisas "Times/CBS". E Reagan era na época considerado um presidente altamente polarizador.

"Reagan tinha uma fonte muito mais forte de boa vontade do que Bush", disse Jacobson. "Ele contava com um apoio residual entre os não-republicanos com o qual Bush simplesmente não conta. E não vejo uma mudança nisto".

Que diferença isto faz? Muita, se grande parte dos eleitores já tiver definido seu julgamento de sua presidência - e não positivamente - especialmente quando seu partido controla o Congresso.

Nos anos 80, democratas eleitos estavam altamente cientes de que muitos de seus eleitores tinham votado em Reagan e continuavam a admirá-lo. Faz diferença, não apenas no tom da política de Washington, mas também no que um presidente pode produzir e fazer com que o Congresso aprove.

Os aliados de Bush, altamente cientes de seus números nas pesquisas, acusam uma guerra impopular e o que consideram um nível tóxico de oposição dos democratas desde o início de sua presidência.

Rove, em uma entrevista de despedida, disse: "Os divisores nos últimos seis anos foram os democratas, que rotineiramente diziam que ele não foi eleito, que era ilegítimo, um mentiroso, que deliberadamente enganou o país".

Os especialistas notaram que a política americana em geral se tornou recentemente mais partidária, uma tendência que se reflete na postura em relação ao presidente.

Mas é difícil ignorar o efeito das decisões políticas de Bush, que freqüentemente pareciam sob medida para sua base conservadora e, por definição, para provocar a oposição democrata.

Analistas democratas e outros dizem que Bush governou desde o início como se contasse com um amplo mandato conservador.

Um dos exemplos agora lendários foi sua campanha em 2005 para criação de contas privadas no Seguro Social, um dos programas de governo mais populares e uma causa com pouco apoio visível além dos conservadores mais ávidos.

Apenas ocasionalmente Bush buscou um grande acordo bipartidário, como fez no benefício de medicamentos prescritos do Medicare, o seguro médico público para idosos e inválidos, ou a lei de educação "Nenhuma Criança para Trás". E, com menos sucesso, na questão da imigração.

Mesmo após os democratas terem conquistado maioria na Câmara e no Senado em novembro passado, Bush cedeu pouco terreno. Os congressistas democratas disseram ter ficado assombrados quando ele respondeu à eleição, amplamente considerada uma mensagem clara da impopularidade da guerra no Iraque, com o envio de mais tropas.

Mais recentemente, Bush optou por lutar contra uma ampliação de cobertura de saúde para crianças que contava com apoio bipartidário substancial. Ele argumenta com a posição conservadora clássica de que isto acabaria se tornando uma expansão grande demais da cobertura de saúde oferecida pelo governo.

O deputado Rahm Emanuel, de Illinois, presidente da bancada democrata na Câmara e conhecedor das vantagens da adoção de posições altamente partidárias, disse ter considerado a posição do presidente um mistério.

"Eu não faço a menor idéia do que o levou a adotar esta estratégia", disse Emanuel. "No atendimento de saúde às crianças, ele poderia ter obtido uma grande realização".

Tais realizações poderiam, é claro, ajudar na avaliação de Bush entre os eleitores independentes, onde seu índice de aprovação tem pairado na faixa de pouco mais de 20% na pesquisa "Times/CBS News" neste ano.

Mas Bush entra em um mês que deverá ser dominado pelo debate em torno de uma guerra impopular para independentes e democratas, um debate que poderá endurecer as posturas e divisões partidárias em torno de sua presidência. Mesmo com a partida de Gonzales, Rove e, antes deles do secretário de Defesa, Donald H. Rumsfeld, um recomeço parece muito difícil. George El Khouri Andolfato

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