UOL Notícias Internacional
 

31/08/2007

Autoridades paquistanesas negam acordo com adversária de Musharraf

The New York Times
Carlotta Gall

Em Islamabad, Paquistão
Autoridades do governo paquistanês negaram na quinta-feira que o presidente do país, o general Pervez Musharraf, concordou em renunciar como chefe do Estado-Maior do Exército antes das eleições presidenciais, contradizendo as declarações feitas um dia antes por Benazir Bhutto, a ex-primeira-ministra exilada.

Um porta-voz da presidência, Rashid Qureshi, disse que nenhuma decisão foi tomada nas negociações entre os lados em Londres e que nenhum anúncio presidencial é iminente. "É um diálogo em andamento", ele disse. "Se houver um anúncio, eu serei o primeiro a lhe dizer".

Bhutto, que mantém conversações com assessores de Musharraf há meses para acertar um acordo de divisão de poder, disse na quarta-feira que ele concordou com uma concessão crucial: abrir mão do comando do Estado-Maior do Exército antes de disputar a reeleição. No mesmo dia, o ministro das Ferrovias do Paquistão, Rashid Ahmed, disse que a questão "foi acertada" em um acordo que estava "80% concluído".

Mas na quinta-feira, autoridades do governo recuaram, negando que um acordo foi acertado e acusando Bhutto de exibicionismo.

PODER NO PAQUISTÃO
T. Mugal/EPA
Musharraf, que teria feito acordo com a opositora Benazir Bhutto
ENTENDA O CASO
Qureshi disse que Musharraf tem até 15 de novembro, quando seu atual mandato termina, para decidir se abrirá mão de um de seus postos, o de presidente ou de chefe do Estado-Maior do Exército.

"Ele não deu data", disse Qureshi em uma entrevista por telefone. "Ele quer manter isto para si mesmo". Ele disse que o presidente não será pressionado a tomar qualquer decisão e que o ministro das Ferrovias manifestou uma opinião pessoal, não oficial.

O ministro da Informação, Tariq Azim Khan, disse que o presidente poderá permanecer como chefe do Estado-Maior do Exército até 31 de dezembro, que é quando expira a emenda constitucional que permite que mantenha os dois cargos. E ele citou Musharraf como tendo dito: "Eu cruzarei tal ponte quando chegar a hora".

O acordo de divisão de poder em negociação permitiria a Bhutto retornar de um exílio auto-imposto e concorrer ao cargo de primeiro-ministro, assim como permitiria a Musharraf concorrer a outro mandato como presidente. Os Estados Unidos apóiam o acordo como uma forma de manter um aliado na presidência e fortalecer seu apoio doméstico.

Mas cada lado precisa de sérias concessões do outro.

Bhutto deseja que os casos de corrupção contra ela sejam arquivados e uma proibição a primeiros-ministros concorrerem a um terceiro mandato seja revogada. Ela foi eleita em 1988 e 1993, mas ambos os mandatos foram interrompidos em meio a acusações de corrupção.

Musharraf, severamente enfraquecido por meses de protestos em torno de sua suspensão por quatro meses de um ministro popular da Suprema Corte, enfrenta contestações à constitucionalidade de sua nova candidatura e da manutenção dos cargos de chefe do Estado-Maior e presidente.

Ele espera um novo desafio político do poderoso ex-primeiro-ministro que ele derrubou em um golpe sem sangue em 1999, Nawaz Sharif, que foi autorizado pela Suprema Corte na semana passada a voltar do exílio. De Bhutto, o general precisa de apoio no Parlamento, onde seu Partido do Povo Paquistanês é forte.

Mas há forte oposição dentro do partido do governo, a Liga Muçulmana Paquistanesa, que o apóia, ao acordo com Bhutto, por temores de que, estimulado pelo seu retorno, o partido dela obtenha grandes ganhos nas eleições parlamentares.

Bhutto disse na quarta-feira que grande parte do acordo já foi acertado e que a aceitação de Musharraf de concorrer como civil permitiria ao partido dela aceitar sua reeleição.

Outro elemento chave no acordo seria sua aceitação de retardar o lançamento de sua candidatura presidencial até a eleição de um novo Parlamento mais independente no final do ano. Segundo a Constituição, o Parlamento e as assembléias provinciais elegem o presidente.

Mas na quinta-feira, a imprensa estatal divulgou que Musharraf insistiu que sua eleição será realizada ainda sob o atual Parlamento. "Minha eleição deve ser realizada entre 15 de setembro e 15 de outubro", ele disse em um programa semanal de televisão, segundo a reportagem.

Ao mesmo tempo, Khan, o ministro da Informação, disse que o governo é contrário ao arquivamento dos casos de corrupção contra Bhutto, incluindo duas condenações das quais ela atualmente está apelando. Ele disse que o governo também é contrário à exigência dela de remoção do direito do presidente de dissolver o Parlamento. A medida, ele disse, é necessária no Paquistão, onde a democracia ainda não é plenamente funcional.

Enquanto isso, autoridades do governo expressavam irritação com os comentários de Bhutto, em particular seu alerta para que Musharraf faça o anúncio até o final do mês para a conclusão do acordo.

Khan sugeriu que Bhutto está tentando ganhar pontos políticos com o anúncio exagerado. Musharraf "pode abandonar o uniforme antes ou depois das eleições, a menos que o Parlamento o autorize a mantê-lo", disse Khan. "Mas isto não é graças a Benazir Bhuto. Ela está posando como se o tivesse forçado a isto; não é o caso".

Em uma coletiva de imprensa em Londres na quinta-feira, Sharif, atualmente outro provável candidato a primeiro-ministro, disse que retornará ao Paquistão em 10 de setembro para os preparativos para a eleição. Sharif é contrário à continuidade do governo de Musharraf sob qualquer condição e descreveu os esforços de Bhutto para obter concessões do governante militar como "muito pouco, tarde demais".

Ele disse que retornará com seu irmão à capital, Islamabad, e então realizará uma viagem de carro de quatro horas até sua cidade natal, Lahore. Viagens rodoviárias semelhantes bastante divulgadas realizadas pelo ministro-chefe do Supremo, durante sua suspensão, se tornaram maratonas de apoio, com dezenas de milhares de simpatizantes o saudando ao longo do caminho. George El Khouri Andolfato

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