UOL Notícias Internacional
 

31/08/2007

O apetite da Índia por armas atrai vendedores mundiais

The New York Times
Heather Timmons e Somini Sengupta
Em Nova Déli
A Índia está desenvolvendo um apetite militar que se equipara ao seu poder econômico crescente, e empresas de defesa estão tentando lucrar.

Para reformar seu arsenal militar da era soviética, a Índia pode gastar até US$ 40 bilhões (cerca de R$ 80 bilhões) nos próximos cinco anos comprando de tudo, desde artilharia até submarinos e tanques, estimam os analistas.

As empresas de defesa americanas estão particularmente agressivas em seu interesse de fechar contratos com a Índia, após décadas de Guerra Fria e sanções manterem o país fora dos limites.

Prakash Singh/AFP - 21.jan.2001 
Trabalhadores limpam míssil para desfile militar em Nova Déli, Índia

Em termos de "potencial para crescimento, a Índia é nosso maior mercado", disse Richard Kirkland, presidente da Lockheed Martin para o Sul da Ásia.

Se os vendedores de armas americanos vão conseguir transformar esse potencial em lucros dependerá de como vão superar uma série de desafios, inclusive a competição de fornecedores europeus, particularmente de empresas russas.

A onda de gastos indiana foi acelerada nesta semana, quando o Ministro de Defesa abriu a licitação para um projeto de 126 caças, um contrato de US$ 10,2 bilhões (aproximadamente R$ 20,4 bilhões).

Ansiosa para criar uma indústria de defesa doméstica, a Índia está exigindo dos fornecedores estrangeiros que incluam um compromisso considerável de produzir bens na Índia. No caso dos caças, a proposta vencedora deve prometer produzir componentes na Índia no valor da metade do preço do contrato. Empresas americanas estão correndo para se unirem às locais.

Até agora, a maior parte das parcerias estão nos primeiros estágios, pouco mais do que acordos para colaborar em projetos futuros. A Raytheon e a divisão de eletrônica da gigante indiana Tata Power assinaram um contrato em fevereiro para cooperar em futuros projetos não especificados.

A Boeing fez acordo similar em fevereiro, com a firma de engenharia indiana Larsen & Toubro, para desenvolver novos projetos. E a Northrop Grumman assinou com firmas de Bangalore, Bharat Electronics e Dynamatic Technologies, para investigar oportunidades conjuntas.

O interesse na Índia vai além das armas. A Índia também tem mercados crescentes de aviação civil, transporte e infra-estrutura, fornecendo oportunidades para unidades de logística e segurança das empresas de defesa americanas.

Walter Doran, presidente da Raytheon Ásia e ex-comandante da Frota do Pacífico dos EUA, acredita que a Índia poderá ser "uma das maiores, senão a maior parceira (para os EUA) na próxima década".

O aumento pesado em gastos militares reflete a mudança da opinião da Índia sobre ela mesma. Como "todas s nações em desenvolvimento, (a Índia) está buscando seu lugar no cenário mundial", disse o almirante Sureesh Mehta, comandante da marinha indiana em conferência com oficiais em Déli em julho.

A Índia está se posicionando como polícia das águas próximas, particularmente do Oceano Índico.

"Se você olhar para a costa da Ásia ocidental até o Pacífico, toda essa área tem 70% do tráfego de produtos de petróleo de todo o mundo", disse Sitanshu Kar, porta-voz do Ministério de Defesa. "Temos um papel a fazer para assegurar que essas vias marinhas estejam seguras".

Alguns itens da lista militar indiana assinalam o desejo do país de ter um papel maior além de sua costa. Por exemplo, a marinha indiana comprou o navio de transporte anfíbio Trenton, dos EUA, e batizou-o de Jalashva. Ele opera helicópteros que podem ser usados para evacuar indianos de países estrangeiros, distribuir assistência humanitária ou intervir militarmente em zonas de conflito.

A Índia é território virgem para as empresas de defesa americanas. Décadas de desconfiança da Guerra Fria, quando a Índia alinhou-se com a União Soviética, seguidas de sanções impostas pelo presidente Clinton, após a Índia testar armas nucleares em 1998, restringiram as oportunidades para empresas americanas no país.

Sob o presidente Bush, as sanções foram suspensas e os laços militares aprofundaram-se. Exercícios conjuntos entre os EUA e a Índia atualmente são muito mais freqüentes.

Em julho, os dois governos anunciaram um controverso acordo de energia nuclear civil, no que tem sido amplamente descrito como ponto de virada das relações entre Índia e EUA. O acordo reflete o compromisso do governo Bush, feito há dois anos, de "ajudar a Índia a se tornar uma importante potência mundial".

Apesar dos laços políticos mais próximos entre Washington e Nova Déli, muitos analistas da indústria dizem que será um trabalho árduo para os americanos fechar grandes contratos na Índia.

Em muitos casos, as empresas americanas competirão diretamente contra o fornecedor tradicional da Índia, a Rússia, que já tem contratos firmados no país. A Rússia ainda é a principal fornecedora de armas da Índia e está negociando outros US$ 10 bilhões (cerca de R$ 20 bilhões) em contratos, inclusive um sistema de defesa aéreo para todo o país.
"Os russos vão pegar boa parte dos negócios", prevê Andrew Brooks, analista do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, com base em Londres.

O Congresso americano pode ser outro obstáculo para empresas americanas, pois os congressistas podem proibir a venda dos equipamentos militares mais avançados, disse Brooks.

Empresas de defesa européias também estão fazendo investidas: a BAE Systems, do Reino Unido, assinou um contrato em 2004 para fornecer à Índia 66 aviões de treinamento Hawk, e planeja construir dois terços deles na Índia.

Os EUA, entretanto, estão conseguindo alguns contratos. A Lockheed Martin está em negociações finais para vender à Índia seis aviões de carga C-130J Hercules, por US$ 1 bilhão (em torno de R$ 2 bilhões). Poderia ser a maior venda militar americana para a Índia até hoje.

O contrato de caças de US$ 10 bilhões está atraindo muitas das maiores fabricantes do mundo. O Ministério da Defesa da Índia pediu à Lockheed Martin e à Boeing suas propostas, assim como à Saab, que faz o Gripen Fighter, e à equipe européia que está construindo o novo jato Eurofighter. Todas farão propostas contra a Russian Aircraft Corp., conhecida como RAC, proprietária da firma que desenvolveu os caças MiG, usados hoje pela força aérea indiana.

Enquanto empresas e governos americanos, europeus e israelenses estão abertamente anunciando seu desejo de competir pelos negócios na Índia, os russos têm sido mais discretos. Em recente conferência naval em Déli, empresas ocidentais montaram estandes, patrocinaram refeições e coquetéis e espalharam dezenas de seus funcionários pela multidão. Vários representantes das forças armadas americanas também participaram. A presença russa, entretanto, era difícil de encontrar.

O general Alexander Burov, adido militar da embaixada da Rússia em Nova Déli, disse que não ia comentar acordos comerciais. Burov observou que o chefe das forças de terra russas visitou a Índia recentemente, parando em Agra e Goa. Várias ligações para o número da embaixada que Burov disse que poderia responder as perguntas sobre os contratos de defesa não foram respondidas, nem os chamados para o número da RAC em Nova Déli.

Os oficiais indianos estão divididos por idade entre pró-tecnologia americana e pró-tecnologia russa, de acordo com autoridades americanas que têm contato regular com as autoridades indianas. Os oficiais mais velhos em geral preferem comprar da Rússia e os mais jovens dos EUA, dizem.

Empresas americanas não têm ilusões sobre seus competidores russos. Randy Belote, porta-voz da Northrop Grumman, disse: "É difícil derrubar quem está no cargo". Deborah Weinberg

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