UOL Notícias Internacional
 

31/08/2007

Relatório sobre atividade nuclear do Irã expõe divisão entre Estados Unidos e ONU

The New York Times
Elaine Sciolino e William J. Broad
Em Viena
Um relatório divulgado na quinta-feira (30/08), revelando uma lenta, mas contínua, expansão da tecnologia nuclear do Irã, expôs uma nova divisão entre os inspetores de armas da Organização das Nações Unidas (ONU) e os Estados Unidos e os seus aliados, no que diz respeito à maneira de conter o programa atômico de Teerã.

A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) afirmou em seu relatório que Teerã tem cooperado de forma pouco comum ao concordar em responder a questões relativas a uma gama de atividades nucleares suspeitas que levaram diversas nações a acreditar que o Irã estaria ocultando os seus esforços para a fabricação de armas nucleares. O relatório acrescentou que, embora a iniciativa de Teerã para o enriquecimento de urânio esteja aumentando, o resultado é bem menor do que aquilo que os especialistas esperavam encontrar.

"Esta é a primeira vez em que o Irã está pronto para discutir todas as questões importantes que desencadearam esta crise de confiança", afirmou em uma entrevista Mohamed ElBaradei, o diretor da AIEA. "Trata-se de um passo significativo".

Mas o governo Bush e os seus aliados, que conseguiram a aprovação de sanções contra o Irã no Conselho de Segurança da ONU, em uma tentativa de interromper o enriquecimento de urânio, viram o novo relatório como mais uma prova de desafio, e não de cooperação.

"Não existe crédito parcial neste processo", afirmou na quinta-feira o porta-voz do Departamento de Estado, Tom Casey. "O Irã recusou-se a cumprir as suas obrigações internacionais e, como resultado disso, a comunidade internacional continuará intensificando a pressão".

Em Paris, Pascale Andreani, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da França, disse que enquanto o Irã não anunciar uma decisão clara de suspender as suas atividades de enriquecimento de urânio, a França atuará em conjunto com outros países para intensificar as sanções.

Na sua entrevista, ElBaradei não chegou a pedir um adiamento da estratégia liderada pelos Estados Unidos de impor novas sanções, mas afirmou: "Tenho certeza de que neste estágio é necessário dar ao Irã uma oportunidade de provar que o país está de fato demonstrando boa vontade. Não há dúvida de que as sanções, sozinhas, não levarão a uma solução duradoura".

O relatório divulgado na quinta-feira, uma atualização trimestral sobre a atividade nuclear do Irã, disse que o país está operando quase 2.000 centrífugas, as máquinas que enriquecem o urânio, na sua grande instalação subterrânea em Natanz, o que representa um aumento de várias centenas de máquinas em relação a três meses atrás. Segundo a agência, mais de 650 centrífugas adicionais estão sendo testadas ou construídas.

O número é bem inferior àquela projeção segundo a qual a esta altura o Irã estaria operando 3.000 centrífugas. A AIEA também anunciou que o urânio que está sendo processado pelas centrífugas em operação em Natanz está "bem abaixo da quantidade esperada para uma instalação daquele tipo". Além do mais, a agência divulgou que o urânio foi enriquecido até um nível de pureza inferior ao alegado pelos iranianos.

Esses resultados fizeram com que especialistas particulares e funcionários da agência de energia atômica desconfiassem que o Irã está enfrentando dificuldades técnicas, ou que tomou uma decisão política no sentido de reduzir as suas operações nucleares. O urânio de baixo grau de enriquecimento serve para alimentar reatores nucleares, e aquele altamente enriquecido pode ser usado para fazer bombas atômicas.

David Albright, presidente do Instituto para Ciência e Segurança Internacional, um grupo privado em Washington que investiga a proliferação nuclear, diz que os seus próprios cálculos, baseados nos dados do relatório, sugerem que o Irã está operando as suas centrífugas com apenas 10% do potencial. "É um nível muito baixo, e não sabemos qual é o motivo disso", afirma Albright.

ElBaradei disse acreditar que a liderança iraniana decidiu operar Natanz abaixo da capacidade total. "Eles poderiam ter expandido as operações de maneira bem mais rápida", afirmou ele. "Alguns dizem que isso se deve a questões técnicas. Mas tenho a impressão de que os principais motivos são políticos".

ElBaradei enfatizou que "de forma alguma aprovou" a decisão do Irã de continuar enriquecendo urânio, um programa que as resoluções do Conselho de Segurança da ONU exigem que seja interrompido. Mas ele assumiu aquilo que define como uma visão realista, segundo a qual o mundo terá que aceitar que o Irã jamais interromperá o programa e que o objetivo atual deve ser impedir que tal programa seja expandido até um nível de produção industrial.

"Trata-se de uma tecnologia difícil, mas não é nenhuma ciência astronáutica", disse ele. "Por meio de um processo de tentativas e erros, obtém-se o conhecimento nesta área".

Alguns integrantes do governo Bush acusaram ElBaradei, cuja agência faz parte da ONU, de ter extrapolado as suas funções ao firmar um novo acordo com Teerã. Mas ele defendeu a sua iniciativa, afirmando: "A minha responsabilidade é olhar para o quadro maior. Se eu perceber uma situação se deteriorando, e isso pode levar a uma guerra, tenho que fazer soar o alarme ou dar o meu conselho".

A cisão em andamento coloca ElBaradei em conflito com o presidente Bush, e não é a primeira vez que isso ocorre. A Casa Branca enfureceu-se em 2003 quando ElBaradei anunciou que não havia evidências que sustentassem as alegações de que o Iraque estaria retomando o seu programa nuclear. Mais tarde o governo norte-americano tentou retirar ElBaradei do seu cargo. Mas agora o governo dos Estados Unidos necessita do diplomata egípcio porque as descobertas feitas pela sua agência se constituíram no cerne da campanha de Washington contra o Irã.

O conflito entre a agência de energia atômica e os Estados Unidos e os seus aliados gira em torno da questão de decidir se deve-se dar ao Irã um voto de confiança após anos de enganos e mentiras a respeito do programa nuclear de Teerã.

No seu relatório, a AIEA disse que o Irã recentemente forneceu novas informações aos inspetores, que responderam diversas questões relativas a uma parte do seu programa nuclear que lida com o plutônio, um elemento que também pode ser usado para a fabricação de bombas atômicas. Após o Irã ter resistido às tentativas de fiscalização por parte da agência durante dois anos, os funcionários da AIEA disseram que Teerã subitamente franqueou o acesso a um especialista-chave, além de ter fornecido documentos e outros dados que permitiram que os funcionários da agência declarassem que as questões relativas ao plutônio foram satisfatoriamente resolvidas.

ElBaradei defendeu o seu novo plano para obter mais respostas do Irã, afirmando que "existem prazos nítidos, de forma que isto não é - como muita gente anda dizendo - um convite sem prazos estabelecidos para conversar com a agência, e tampouco uma artimanha para prolongar as negociações e evitar sanções".

Teerã, por sua vez, elogiou a agência, afirmando que ela inocentou o Irã.

"O relatório fulminou todas as acusações infundadas dos Estados Unidos contra o Irã", afirmou Mohammad Saeedi, vice-diretor da Organização de Energia Atômica do Irã. "Mais uma vez a agência confirmou a validade das posições do Irã".

O acordo entre a AIEA e o Irã, anunciado na segunda-feira, estabeleceu um cronograma de cooperação com a meta de resolver até dezembro questões nucleares que estão sob investigação há quatro anos. Segundo ElBaradei, até lá a agência saberá se o Irã "está falando sério" ou "tentando nos ludibriar". O plano reflete uma alteração no foco da agência no sentido de tratar o Irã com menos suspeição, uma abordagem que já vem sendo criticada por autoridades governamentais dos Estados Unidos, da França e do Reino Unido.

Enquanto isso, o Irã parece ter adotado uma nova estratégia para dar a impressão de estar cooperando integralmente para resolver questões antigas e deslocando o atual foco voltado para as atividades de enriquecimento, solapando, desta forma, um dos principais argumentos da comunidade internacional para impor novas sanções contra o país.

Segundo novo plano, a AIEA espera responder uma série de questões.

Uma delas envolve aquilo que oficiais de inteligência ocidentais afirmam ser um programa iraniano secreto, denominado Projeto Sal Verde, que envolveria processamento de urânio, explosivos de alta potência e a criação de ogivas para mísseis. Eles suspeitam que existem vínculos entre o Projeto Sal Verde e o teoricamente pacífico programa nuclear iraniano. Se tal hipótese for comprovada, ela enfraqueceria as alegações do Irã de que o seu programa nuclear tem como único objetivo a geração de energia elétrica.

Embora afirme que a acusação da existência de tal programa carece de fundamentos, o Irã concordou em examinar documentos que os Estados Unidos descobriram em um laptop roubado, que segundo os norte-americanos pertenceria ao Projeto Sal Verde. No entanto, o Irã quer ter a posse dos documentos, algo com o qual os Estados Unidos não concordam - o que é uma potencial limitação para o acordo. O Irã pode alegar que está sendo vítima de uma fraude, a menos que os Estados Unidos entreguem os documentos. A agência nuclear acredita que os iranianos têm o direito de receber essa documentação.

ElBaradei, que é advogado, disse com toda a franqueza: "Precisamos deixar que eles tenham acesso aos documentos".

Uma outra questão sensível que a agência deseja explorar com Teerã diz respeito à forma como o Irã adquiriu o know-how para construir dois tipos de centrífugas que podem ser usadas para o enriquecimento de urânio.

Segundo o acordo, o Irã também concordou em explicar um documento que recebeu de Abdul Qadeer Khan, o engenheiro nuclear paquistanês, demonstrando como moldar urânio em hemisférios para formar o núcleo de uma bomba atômica.

Essas são algumas das questões centrais que oficiais de inteligência ocidentais e a agência de energia nuclear formulam há muito tempo a respeito do programa nuclear e das ambições do Irã. ElBaradei disse ter afirmado aos iranianos que, para ele, este é um momento crítico de sinceridade.

"Deixei bem claro para eles que, se não estiverem sendo sérios, o tiro sairá pela culatra", afirmou ElBaradei. "E sairá pela culatra com toda a intensidade porque ninguém será capaz de defendê-los ou auxiliá-los". UOL

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