UOL Notícias Internacional
 

01/09/2007

Destruindo armas, EUA e Rússia celebram rara área de acordo

The New York Times
C.J. Chivers

Em Krasnoarmeysk, Rússia
Às 17h34 de quarta-feira, em uma instalação militar a nordeste de Moscou, três homens estavam sentados em uma sala diante de pequenas caixas de metal adornadas com botões vermelhos de plástico. Cada botão era conectado a um cabo que serpenteava por um buraco na parede até a floresta do lado de fora.

Ao comando de Sergei Shevchenko, o alto funcionário do diretório de tecnologia de mísseis da agência espacial russa, os homens apertaram os botões. Do lado de fora, a poucas centenas de metros de distância, um estrondo encheu o ar. O chão começou a sacudir.

Os botões ativaram a ignição do combustível sólido de um motor de foguete que foi removido de um míssil balístico intercontinental SS-25.

Em pouco mais de dois minutos, a queima do componente do míssil se esgotou, a última peça de um equipamento nuclear da era soviética a ser destruída sob um esforço financiado pelos contribuintes americanos conhecido como programa Nunn-Lugar de Redução Cooperativa de Ameaça.

De autoria do senador Richard G. Lugar, republicano de Indiana, e do ex-senador Sam Nunn, democrata da Geórgia, o esforço se tornou uma das principais áreas de colaboração duradoura entre Rússia e Estados Unidos. Os dois países celebraram o 15º aniversário do esforço nesta semana.

Os programas sob sua cobertura ajudaram a Rússia e outros ex-Estados soviéticos a se responsabilizarem, protegerem e destruírem materiais nucleares, químicos e biológicos e o equipamento relacionado para seu uso como armas. Isto aconteceu apesar de alguns atrasos e da resistência burocrática, assim como um clima renovado de segredo na Rússia tornou as negociações e o acesso difícil a alguns dos locais de armazenamento de armas ou material.

Ainda assim, ao todo, quase 7 mil ogivas nucleares foram desativadas e silos, lançadores móveis, submarinos e bombardeiros estratégicos que antes eram parte integral de sua disposição e uso potencial foram destruídos. Além disso, o esforço ajudou a proteger urânio altamente enriquecido dos reatores de pesquisa e usinas nucleares e misturá-lo até um estado de baixo enriquecimento - ainda útil para geração de eletricidade, mas não como material para artefato nuclear.

Em um momento de novas disputas diplomáticas entre o Kremlin e a Casa Branca, o trabalho de não-proliferação é uma área remanescente onde Rússia e Estados Unidos ainda concordam.

"Este é um dos melhores pontos no relacionamento", disse William Tobey, um vice-diretor da Administração Nacional de Segurança Nuclear, uma agência semi-autônoma que coordena os programas de não-proliferação do Departamento de Energia.

Durante os segundo mandatos do presidente Bush e do presidente Vladimir Putin, cada país acumulou uma longa lista de queixas envolvendo o outro.

O Kremlin tem criticado os Estados Unidos pelo que chama de abordagem unipolar às relações exteriores. Ele se queixa do que caracteriza como uma guerra imprudente no Iraque, esforços para expandir a Otan, apoio a movimentos de oposição em ex-países soviéticos e do plano de instalar um sistema antimísseis na Polônia e na República Tcheca.

Washington, por sua vez, critica a Rússia pela consolidação do poder político e controle de recursos no Kremlin, pela repressão aos dissidentes e por seu controle da mídia do país, assim como pela manipulação de suas exportações de energia para pressionar os países vizinhos. Washington também teme a política externa russa, desde seu apoio aos separatistas na Geórgia e Moldova às vendas de armas para Venezuela e Irã.

As posições públicas endureceram a ponto dos Estados Unidos questionarem publicamente o compromisso da Rússia com a democracia e com o pluralismo político. Putin sugeriu que os Estados Unidos poderiam ser comparados ao Terceiro Reich.

Mas uma postura diferente estava evidente enquanto os dois países celebravam seu trabalho juntos nesta semana.

Os três homens que apertaram os botões na quarta-feira eram Lugar, Nunn e William J. Burns, o embaixador americano na Rússia. Shevchenko notou que foi a primeira vez que os americanos foram autorizados a estarem tão envolvidos.

Ele disse que a colaboração foi um exemplo do que os dois países podem realizar juntos e sugeriu que o modelo poderia ser estendido, por exemplo, à pesquisa e programas para combate a doenças infecciosas.

"Este problema importante e muitos outros problemas importantes podem ser solucionados quando trabalhamos juntos", ele disse.

Lugar notou as "circunstâncias extraordinárias da história que nos uniram" com o colapso da União Soviética e elogiou a Rússia por seu trabalho até aqui.

Nunn, em um sinal de discordância dentro dos círculos de política externa em torno de algumas das decisões tomadas por Bush, expressou profundo ceticismo em relação às propostas da Casa Branca para uma rede de defesa antimísseis na Europa. Ele pediu cooperação com a Rússia no desenvolvimento de qualquer escudo, como sugeriu o Kremlin.

"Eu penso fortemente que devemos levar muito a sério as propostas de Putin", ele disse.

Nunn é atualmente co-presidente da Iniciativa de Ameaça Nuclear, uma organização privada que aumenta os esforços de não-proliferação do governo apoiando programas complementares.

Vários participantes disseram que os programas Nunn-Lugar provavelmente seriam renegociados e prosseguiriam no futuro, mas sugeriram que a Rússia, um Estado antes pobre que pagou suas dívidas e formou grandes reservas de moeda à medida que os preços do gás e do petróleo subiram durante os mandatos de Putin, será convidada a arcar com uma parte maior das despesas.

Os participantes também notaram que casos de contrabando nuclear continuam, como no ano passado, quando um cidadão russo atravessou para a Geórgia com uma pequena quantidade de urânio 235 altamente enriquecido - contrabando radioativo que aparentemente saiu de instalações nucleares na Rússia que as autoridades americanas esperavam estar seguras. George El Khouri Andolfato

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