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01/09/2007

Enquanto sua estrela se apaga, Rice busca redimir seu legado

The New York Times
Helene Cooper*

Em Washington
Em 25 de maio, o jornal estudantil da Universidade de Stanford, "The Stanford Daily", dedicou grande parte de sua primeira página à ex-reitora-adjunta da universidade, que está sob licença enquanto cumpre seu mandato como secretária de Estado. "Condi de Olho no Retorno", dizia a manchete, "Mas em Que Papel?"

Em questão de horas, começaram a chegar cartas ao editor. "Condoleezza Rice serve a um governo que jogou no lixo os valores básicos da academia: razão, ciência, perícia e honestidade. Stanford não deve recebê-la de volta", escreveu Don Ornstein, identificado pelo jornal como professor emérito de matemática em uma carta publicada em 31 de maio.

Os comentários online no site do jornal foram ainda mais duros, uma verdadeira enxurrada de acrimônia. Uma das postagens mais brandas veio de Jon Wu, que não forneceu sua afiliação: "Por favor, vá embora, Rice. Não queremos alguém que é responsável pelo massacre de toda uma nação lecionando em nossa escola".

Doug Mills/The New York Times 
Rice está cooperando com vários autores que fizeram fila para escrever livros sobre ela

Houve um tempo em que, talvez mais que Hillary Rodham Clinton ou Barack Obama, Condoleezza Rice parecia a candidata com mais chances de ser a primeira mulher ou a primeira pessoa afro-americana a se tornar presidente. Mas isto foi antes dela soar alarmes públicos baseados em inteligência falsa para justificar a guerra no Iraque, de dizer à "CNN": "Nós não queremos que a arma fumegante seja uma nuvem cogumelo". Foi antes de um ex-colega de governo Bush, David Kay, encarregado de encontrar armas não-convencionais após a invasão ao Iraque, ter se referido a Rice no livro "State of Denial" de Bob Woodward como "provavelmente a pior conselheira de segurança nacional desde que o cargo foi criado".

E foi antes de libaneses furiosos pendurarem uma enorme faixa exibindo o rosto de Rice, com sangue pingando dos lábios, em uma ponte no centro de Beirute.

Hoje, Rice, 52 anos, ainda detém mais apelo do que muitos dos demais altos conselheiros de Bush. No mês passado, a revista "GQ" a classificou como a pessoa mais poderosa em Washington. A "Forbes" a classificou duas vezes como a mulher mais poderosa do mundo e a "Time" a listou quatro vezes como uma das pessoas mais influentes do mundo.

Mas grande parte do seu brilho se perdeu ao longo da série constante de revelações e livros que contam tudo que transcorreu no governo Bush, especificamente sobre sua incapacidade, como conselheira de segurança nacional, de arbitrar de forma eficaz a disputa territorial entre o secretário de Estado, Colin L. Powell, e o secretário de Defesa, Donald H. Rumsfeld, em torno da política para o Iraque, uma batalha que ela e o presidente Bush deixaram que Rumsfeld vencesse.

Rice agora está trabalhando arduamente para mudar seu legado nos 16 meses remanescentes no governo. Ela está cooperando com uma série de autores que fizeram fila para escrever livros sobre ela: "The Confidante: Condoleezza Rice and the Creation of the Bush Legacy" (a confidente: Condoleezza Rice e a criação do legado Bush), de Glenn Kessler, do "The Washington Post", será lançado na próxima semana, enquanto "Condoleezza Rice: An American Life" (Condoleezza Rice: uma vida americana), de Elisabeth Bumiller, do "The New York Times", será lançado em dezembro. "Twice as Good: Condoleezza Rice and Her Path to Power" (duas vezes melhor: Condoleezza Rice e sua caminhada até o poder), de Marcus Mabry, atualmente um editor do "The New York Times", saiu em maio.

Apesar da expectativa dos livros de Kessler e Bumiller criticarem Rice em muitos pontos, funcionários do Departamento de Estado disseram ser incomum um secretário de Estado em exercício cooperar com tantos biógrafos. Mas novamente, poucos de seus antecessores tiveram múltiplos autores duelando para escrever livros sobre eles.

Além de tentar influenciar o registro histórico, Rice está tentando arduamente reescrever seu legado para incluir algo mais que o Iraque. Seus colegas e amigos dizem que ela aceitou que o Iraque é uma mancha que ela provavelmente não conseguirá remover antes de deixar o governo. Então ela se lançou na tentativa de escorar o restante de seu legado, se concentrando nos últimos meses em uma paz entre árabes e israelenses como uma possível fonte de redenção.

Em Washington e ao redor do mundo, muitos agora acreditam que Rice, após dois anos e meio no cargo, é uma secretária de Estado muito melhor do que foi uma conselheira de segurança nacional. Como mais alta diplomata do presidente Bush, ela conseguiu reduzir um pouco as tensões entre os Estados Unidos e seus aliados, após quatro anos de diplomacia unilateral que esfriou as relações transatlânticas. Apesar das críticas de conservadores dentro do governo, ela concedeu ao seu assessor para Coréia do Norte, Christopher R. Hill, liberdade suficiente para negociar uma trégua com os norte-coreanos, o que levou ao fechamento do principal reator nuclear da Coréia do Norte em julho.

Ela conseguiu formar um esforço diplomático de seis países para conter as ambições nucleares de Teerã que, apesar de malsucedido até o momento, conseguiu se manter unido por mais de um ano em uma série de sanções da ONU contra o Irã. E talvez mais importante, ela usou tais sanções, juntamente com uma dura retórica, para conter os falcões de segurança nacional no gabinete do vice-presidente Cheney, que pediam que ataques militares contra o Irã fossem considerados mais seriamente.

Mas nada disto foi suficiente para apagar a visão de que como conselheira de segurança nacional, ela endossou uma série de erros crassos de política externa, durante um período que os críticos dizem que no final será o que mais pesará em seu legado. "Foram quatro anos muito desastrosos no meu ponto de vista", disse Lawrence B. Wilkerson, chefe de gabinete de Powell no Departamento de Estado enquanto Rice era conselheira de segurança nacional.

Richard L. Armitage, o vice-secretário de Estado de Powell, disse que chegou a ficar tão frustrado que certa vez foi até a Casa Branca e se queixou privativamente a Rice de que se sentia como se entrasse em uma "roda de hamster" toda manhã, "sem a solução de nada, partindo à noite, retornando na manhã seguinte e repetindo tudo de novo".

Mas Armitage disse que sua visão de Rice abrandou de lá para cá. "Eu me conscientizei do fato de que o presidente tinha a conselheira de segurança nacional que ele queria", ele disse em uma entrevista nesta semana. "Só não era a conselheira de segurança nacional que eu queria".

Rice é raramente reflexiva. Mas em uma entrevista para o "New York Times" no mês passado, ela reconheceu, mesmo que indiretamente, que seus primeiros quatro anos trabalhando para o governo Bush não foram seus melhores.

"Eu não sei, se esta é a avaliação, eu aceitarei a avaliação das pessoas", ela disse com aspecto resignado. "O cargo de conselheiro de segurança nacional é ótimo, porque você está muito próximo do presidente; você trabalha com ele, mas também é um cargo muito difícil porque tudo é feito por controle remoto. Você não cuida de nenhum dos ativos".

Ela estava sentada na ante-sala de seu gabinete no sétimo andar do Departamento de Estado, na cadeira na qual costuma se sentar para entrevistas para a imprensa, ocasionalmente retornando aos assuntos habituais, exceto desta vez, quando estes foram intercalados com resmungos de que lhe estavam pedindo reflexões pessoais, algo que ela não costuma fazer, preferindo trabalhar ao piano durante períodos de turbulência pessoal, com Brahms.

De fato, seus amigos dizem que ela raramente questiona se está certa ou errada, optando por acreditar em uma verdade particular com absoluta certeza até não acreditar mais, momento em que abandona aquilo e segue em frente. "Você agora está tentando que eu faça uma autopsicanálise", ela se queixou.

Ela olhou ao redor na sala de recepção imponente. Nas paredes estavam pinturas de seus antecessores favoritos como secretários de Estado -Thomas Jefferson, George C. Marshall e Dean Acheson - que ela pendurou quando chegou.

"Eu certa vez disse a Steve Hadley, eu francamente prefiro ser coordenada do que coordenar", ela disse, se referindo ao atual conselheiro de segurança nacional, Stephen J. Hadley. Os conselheiros de segurança nacional, ela disse, acabam passando grande parte de seu tempo pensando: "Vamos ver se consigo com que o secretário X faça Y, o secretário Y faça X, vamos ver se consigo que ambos o façam". Ela reconheceu. "Eu prefiro responsabilidade de linha", ela disse, talvez dando razão à maior queixa sobre seu período no Conselho de Segurança Nacional, a de que era mais seguidora do que líder.

De seu gabinete em Foggy Bottom, Rice agora está mais distante - cerca de 1,5 km - de Bush do que na época em que trabalhava na Casa Branca como parte de uma burocracia que existe apenas para servir ao presidente. Apesar de ainda estar subordinada ao presidente, ela no momento comanda uma burocracia permanente com uma tradição própria, diferente, e um senso de missão.

Em seu mandato no Departamento de Estado, houve um ressurgimento da pensadora mais pragmática, que certa vez escreveu para a revista "Foreign Affairs" que o presidente dos Estados Unidos deve se lembrar que as forças armadas americanas "não são uma força policial civil".

"Elas não são árbitros políticos", ela escreveu. "E certamente não foram projetadas para construção de uma sociedade civil".

Atualmente, sua responsabilidade de linha veio com alguns problemas próprios. Autoridades do Pentágono se queixaram de que Rice não forneceu o número prometido de diplomatas para integrarem as equipes de reconstrução nas províncias iraquianas. Rice também foi atacada por seu abandono de uma antiga paixão: a busca declarada pelo governo da democracia no mundo muçulmano.

Nos territórios palestinos, ela organizou um boicote político ao grupo militante islamita Hamas após a vitória deste nas eleições legislativas, pedidas por ela em 2006. No Paquistão, apesar de continuar expressando apoio às eleições, ela tem lutado para encontrar formas de manter no cargo o general Pervez Musharraf, um ditador militar que tomou o poder em um golpe em 1999. E fez pouca menção à democracia durante uma visita ao Egito e Arábia Saudita em julho, assim como não se encontrou com nenhum dissidente político, citando falta de tempo e agenda lotada.

"Me irrita o fato do pobre Ayman Nour estar apodrecendo na cadeia, e o que ela está fazendo a respeito?" disse Max Boot, um analista de segurança que em geral apóia Bush, se referindo ao dissidente egípcio que concorreu contra o presidente Hosni Mubarak e foi subseqüentemente atirado na prisão. "Nada até onde posso dizer".

"Rice já foi uma das mais passionais defensoras da democracia, mas foi curvada pela agenda deste Departamento de Estado de andar com ditadores", disse Boot, um alto membro do Conselho de Relações Exteriores e autor de "War Made New" (guerra renovada).

Atualmente, a enxurrada de sátiras na Internet de Condi contra Hillary para presidente diminuiu. Seus índices de aprovação, apesar de ainda maiores do que os dos demais membros do governo e do próprio Bush, caíram, de cerca de 54% em abril de 2005 para 47% em julho deste ano. E poucas pessoas falam em "Rice para presidente".

A própria Rice diz não ter interesse em disputar a presidência e diz ser sua intenção retornar para Stanford quando seu mandato terminar. Mas uma volta para Stanford poderá ser problemática.

"Como uma erudita, ela se sairá bem", disse o presidente de Stanford, John L. Hennessy, que sucedeu Rice como reitor-adjunto em 1999. Mas, ele acrescentou: "Claramente, há pessoas descontentes com o que ela fez como secretária de Estado. Algumas diriam que ela não deveria ser autorizada a voltar. Mas esta não é uma posição legítima".

Ela ameaçou escrever seu próprio livro de memórias, apesar de amigos terem dito que duvidam que ela produzirá um manuscrito cheio de apontar de dedos como George J. Tenet e outros ex-funcionários do governo têm apresentado recentemente.

Neste ano ela fez quatro viagens a Israel e aos territórios palestinos e voltará em breve. Ela vai e vem entre Ramallah, Jerusalém e Amã em busca do que chama de "horizonte político" para uma paz entre israelenses e palestinos. Ela organizou seis encontros entre o primeiro-ministro israelense, Ehud Olmert, e o presidente palestino, Mahmoud Abbas, neste ano.

Suas metas agora parecem voltadas a um encontro face a face de alto nível entre autoridades israelenses e seus pares sauditas, no que poderia no final promover o tipo de relações amistosas não vistas desde que o presidente Carter intermediou o acordo de Camp David entre Sadat e Begin, em 1978.

"Eu acho que se pudermos chegar a um local onde haja uma chance real, razoável, de reconciliação entre árabes e israelenses, assim como de israelenses e palestinos, seria um imenso passo à frente", disse Rice. "Eu acho que é possível".

Mas muitos de seus antecessores no passado também consideravam possível, apenas para deixarem o cargo frustrados.

"A estratégia dela é continuar batendo à porta, sem uma estratégia, improvisando à medida que avança em um esforço de obter algo", disse Aaron David Miller, um estudioso de política pública do Centro Woodrow Wilson que foi alto conselheiro de relações entre árabes e israelenses no Departamento de Estado sob os últimos três presidentes. "Esta determinação agora está associada não apenas à percepção do interesse nacional, mas também do interesse pessoal dela".

Larry Diamond, um alto membro da Instituição Hoover de Stanford e que prestou consultoria à autoridade de ocupação americana em Bagdá, em 2004, disse que é possível, apesar de improvável, que Rice possa mudar o retrospecto histórico em seu tempo restante no cargo. "Se ela conseguir tirar um coelho da cartola na questão israelense-palestina, e algum acordo político no Iraque, isto poderia salvar parcialmente seu legado", disse Diamond. Mas, ele acrescentou, "se continuarmos na trajetória que está evidente no momento, eu acho que mesmo seu mandato como secretária de Estado também será, francamente, um fracasso".

Rice disse não estar concentrada em seu legado. Na manhã da entrevista para o "New York Times", ela tinha acabado de chegar ao Departamento de Estado após uma visita particular aos Arquivos Nacionais, que ela disse que sempre quis ver. Uma manhã com a Proclamação da Emancipação, a Declaração de Independência e a Constituição, ela disse, lhe deu uma perspectiva diferente de legado.

"As pessoas ainda estão tentando resolver estes legados", ela disse. "Eu não vou me preocupar com o meu legado".

Ela disse que a recente visita do presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, a Camp David lhe deu algum consolo, como um lembrete de que as políticas americanas ajudaram a espalhar a democracia e a moderação em lugares improváveis. "Eu assisti ao presidente em pé diante de uma bandeira americana e afegã e pensei, o presidente americano agora pode ficar em pé diante de uma bandeira americana e iraquiana, uma bandeira americana e libanesa, uma bandeira americana e palestina", ela disse. "Eu acho que os seis anos ajudaram a promover tais mudanças, mesmo que estejam incompletas, mesmo que sejam duras, mesmo que ainda reste trabalho a ser feito - pense a respeito destas imagens".

"São mudanças dramáticas", segundo ela.

Ela disse que aguarda ansiosamente retornar à sala de aula em Stanford, onde espera interagir com os estudantes, desafiá-los, ouvi-los e talvez ensiná-los uma coisa ou outra sobre como é estar no assento do motorista quando estoura uma crise de segurança nacional.

"Eu faria uma simulação com os estudantes, onde lhes seria proposto um problema, algum local em crise no mundo", ela disse. "E ao longo de uma semana eles teriam que ser o conselheiro de segurança nacional resolvendo estes problemas".

"De repente não parece tão fácil", ela disse.

*Eric Schmitt contribuiu com reportagem. George El Khouri Andolfato

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