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02/09/2007

Com a proximidade de 11/09, cresce o debate: quanta homenagem é suficiente?

The New York Times
N.R. Kleinfield
Aí vem ele novamente, pela sexta vez agora -2.191 dias após aquela terrível manhã- caindo pela primeira vez em uma terça-feira, o mesmo dia da semana.

Novamente haverá tributos públicos, eventos memoriais rigidamente roteirizados, cobertura da imprensa, vendedores de souvenires.

Tudo isto ainda é necessário, na mesma intensidade?

A cada ano, surgem os comentários sobre fadiga do 11 de Setembro, um cansaço de reviver um dia que todos desejam que nunca tivesse acontecido. Começou antes do primeiro aniversário do ataque terrorista. Mas a esta altura, muitas pessoas sentem que os eventos coletivos, a encenação pública, são vazios e excessivos, até mesmo incômodos.

SEIS ANOS DO 11 DE SETEMBRO
AFP
O choque aconteceu na manhã do dia 11 de setembro de 2001, em Nova York
EFE
Americanos prestam homenagem no aniversário de cinco anos, em 2006
Reuters
No ano passado, "Tributo em Luz" iluminou o céu de NY no lugar das torres gêmeas
"Eu posso parecer insensível, mas o pesar não tem um período limitado?"
disse Charlene Correia, 57 anos, uma supervisora de enfermagem de Acushnet, Massachusetts. "Nós lamentamos as pessoas que morreram, mas há pessoas vivas. Vamos reduzir a intensidade."

Algumas pessoas preferem ver as coisas resumidas a talvez um minuto de
silêncio naquela manhã e o fim dos rituais, como a longa recitação dos
nomes dos mortos no ponto zero.

Mas muitos se irritam com tal conversa, especialmente aqueles que perderam parentes naquele dia.

"A idéia de reduzir a cerimônia parece tão ofensiva quando penso na natureza monumental da tragédia", disse Anita LaFond Korsonsky, cuja irmã, Jeanette LaFond-Menichino, morreu no World Trade Center. "Se você está cansado dela, não vá, desligue sua TV ou saia da cidade. Dizer que seis anos é suficiente, não é. Eu não sei quanto é suficiente."

Outras lembranças

Assim como a natureza imperfeita da vida prossegue, é natural que a fixação nacional em um evento sinistro seja rompida e seu aniversário comece a se desgastar. Datas antes indeléveis não mais incitam curiosidade. Em 15 de fevereiro, quantos olham para trás para o naufrágio do encouraçado Maine, em 1898?

Poucos americanos dedicam atenção em 7 de dezembro ao ataque a Pearl Harbor em 1941 (uma data que viverá na infâmia). Atenção igualmente reduzida é dada a outras tragédias marcantes: o assassinato de Kennedy (22 de novembro de 1963), Universidade Estadual de Kent (4 de maio de 1970), o atentado de Oklahoma City (19 de abril de 1995).

Gerações passam, é claro. Restam poucas pessoas vivas que se lembram de 15 de junho de 1904, quando 1.021 pessoas morreram no incêndio do barco a vapor General Slocum, o desastre com maior número de vítimas fatais em Nova York até 11 de setembro de 2001. Além disso, o peso de novos eventos pesarosos lota a memória nacional. Depois do 11 de Setembro já ocorreram o Katrina e o massacre da Virginia Tech. E as pessoas têm suas próprias agonias pessoais.

"A solenidade visa simplificar, mas a vida como é vivida e os sentimentos como são sentidos nunca são simples", disse John Bodnar, professor de História da Universidade de Indiana.

O ataque do 11 de Setembro pode ter um ressonância incomumente longa. Ele foi um momento divisor de águas na história da nação. E é uma tragédia que foi batizada com sua data. Mas a forma como é lembrada certamente sofrerá alguma edição.

Pela primeira vez neste ano no ponto zero, a cerimônia principal não será no local do trade center. Por causa da construção, as famílias serão autorizadas a passar pelo local apenas brevemente, mas a cerimônia foi transferida para o vizinho Zuccotti Park, na Broadway com Liberty Street -sua transferência algo como uma metáfora para os sentimentos daqueles que defendem mudanças.

Crescente fadiga

O 11 de Setembro, é claro, permanece complicado por seus contornos
inacabados -a contínua preocupação com o terrorismo, a guerra no Iraque, uma corrida presidencial na qual os candidatos repetidamente invocam o dia e suas conseqüências. Livros que tratam do ataque continuam sendo lançados.

Algumas pessoas se incomodam com o que julgam ser outros tirando proveito do evento. "Seis anos depois, é possível ver que muita gente usou o 11 de Setembro para algum ganho", disse Matt Brosseau, 27 anos, de Westfield, Nova Jersey. Ele vê os tributos públicos como "explicitamente corporativizados e explorados por falsos patriotas".

"Pessoalmente, eu não me envolveria em uma solenidade pública", ele disse. "Eu não vejo a necessidade de uma recordação oficial por parte da cidade ou de qualquer pessoa. Em seis anos, Minneapolis pagará algo para as pessoas que morreram no desabamento da ponte?"

David Hendrickson, 56 anos, um instrutor de software de computador que vive em Manhattan, disse que começou a se irritar com a atenção dedicada ao aniversário no terceiro ano. "Me parece um pouco de exagero ainda estarmos falando nisto seis anos depois", ele disse. "Eu entendo que é triste. Eu entendo que é uma tragédia. Eu já tive minha própria parcela de tragédias -meu tio morreu em um tornado. Mas você segue em frente. Eu sinto que algumas pessoas vivem de sua vitimização, o que acho um pouco cansativo."

Especialistas em saúde mental vêem um certo valor na crescente fadiga. "É um bom sinal quando as pessoas não precisam marcar um aniversário", disse Charles R. Figley, diretor do Instituto de Traumatologia da Universidade Estadual da Flórida. "E não é desrespeitoso para com aqueles que morreram."

Laurie Pearlman, uma psicóloga clínica de Massachusetts, disse: "Nossa
sociedade tem pouca tolerância para o pesar -é exaustivo, implacável e não queremos ouvir a respeito".

Alguns dos parentes dos que morreram naquele dia se agarram ao aniversário e são os mais insistentes para que não seja desmontado.

"Eu não diria aos sobreviventes do Holocausto como lamentar ou como marcar aquela atrocidade, então por que outros sentem que têm qualquer direito de ditar como os parentes devem sentir ou lembrar nossos entes queridos no 11 de Setembro ou qualquer dia?" disse Nancy Nee, cujo irmão, George Cain, morreu no ataque. "Seis anos parecem um piscar de olhos. Tal número não significa nada para mim."

Korsonsky não foi a nenhuma das cerimônias no ponto zero, mas ela as
assistiu pela televisão. "Eu tenho muitos amigos que assistem e então me telefonam para dizer que escutaram o nome da minha irmã. Eu não tenho como dizer quanto isto significa para mim. Ela é lembrada naquele instante. Eu tenho medo de que ela será esquecida."

Diferentes pensamentos e atitudes

Mas mesmo os parentes divergem sobre o que deve ou não acontecer neste aniversário das mortes.

Lesli Rice, 26 anos, que trabalha na área de seguros e perdeu sua mãe,
Eileen Rice, nos ataques do 11 de Setembro, acha que algo respeitoso deve ocorrer no aniversário -um dobrar de sinos de igreja ou um momento de silêncio- mas que fora isto o evento deve ser reduzido. "O lado do pesar deve ser mais pessoal", ela disse. "A cidade inteira não foi afetada pela morte da minha mãe."

A pergunta de uma cabeleireira expôs algo sobre as próprias sensibilidades de Nikki Stern. Ela perdeu seu marido, James Potorti, no colapso das torres. Há dois anos, sua cabeleireira mencionou que planejava se casar em 11 de setembro. Era um domingo, um dia que servia melhor a todos os envolvidos. Ela procurava orientação: aquilo era apropriado?

Stern sugeriu que se fosse o dia mais conveniente, tudo bem, mas talvez uma parte dos presentes de casamento poderia ser destinada a alguma caridade.

"Eu achei aquilo bastante legal", ela disse. "A última coisa que meu marido iria querer era que todos deitassem e morressem."

"Eu ainda recebo tantas cartas de pessoas que até eu já sofro de certa
fadiga do 11 de Setembro", ela disse. "Pessoas que não querem fazer nada no 11 de Setembro não devem ser forçadas. Eu nunca pensei que diria isto."

Parte do problema como solenidades memoriais é que as pessoas não sabem o que se espera delas, disse Rachel Yehuda, professora de psiquiatria da Escola de Medicina Mount Sinai.

"As pessoas se perguntam: 'Quão triste devo me sentir? O que você espera que eu faça, porque eu já superei isto'", ela disse. "Nós temos que descobrir como marcar o pesar dos outros. É uma pergunta genérica que não respondemos e que vai além do 11 de Setembro."
Uma organização chamada myGoodDeed.org começou no ano passado a pedir às pessoas que façam algo simpático no 11 de Setembro, se quiserem, para postar no site. "Nós perguntamos como o 11 de Setembro deveria ser daqui 20 ou 30 anos, e a grande preocupação é que as pessoas se cansarão de cerimônias convencionais", disse David Paine, presidente da organização.

Cerca de 150 mil atos foram postados no ano passado, com mais de 40 mil intenções registradas até o momento neste ano. Uma pessoa optou por colocar moedas nos parquímetros com período expirado. Outra está tricotando meias para os soldados. Um menino disse que ajudaria sua mãe em casa e não atormentaria seus irmãos.

Onde você estava, sua proximidade do ataque -estas coisas contribuem para sua ligação com o aniversário. Em 11 de setembro de 2001, Jonathan
Zimmerman, um professor de história e educação da Universidade de Nova York, estava atravessando a Washington Square em Greenwich Village quando foi abordado por um mendigo, do qual se esquivou. O mendigo então disse: "O World Trade Center está pegando fogo".

Zimmerman nem mesmo olhou. Só depois que chegou ao seu escritório é que descobriu que era verdade. "Eu agora presto mais atenção no que moradores de rua dizem", ele disse.

O professor sabe que a dinâmica da Universidade de Nova York agora mudou, com a partida dos alunos que estavam lá durante o ataque, substituídos por outros que não o viram e cujos sentimentos, conseqüentemente, são mais variados.

"Eu fico um pouco perturbado com esta conversa de fadiga do 11 de Setembro", ele disse. "É verdade que comemorações podem assumir formas bombásticas e ritualistas que as trivializam, mas o 11 de Setembro está conosco todo dia. Todas as questões políticas de nosso tempo refletem este evento. Eu entendo porque algumas pessoas estão cheias de ouvir a respeito, mas elas precisam se acostumar com isto."

Parece provável que a atenção ao aniversário passará por fluxos e refluxos. Os eventos se tornam artificialmente amplificados durante marcos de 10, 25 e 50 anos.

O que poderá acontecer no 11 de Setembro daqui 100 anos? "É concebível que possa ser virtualmente esquecido", disse Bodnar, o professor de história. "Alguém sai às ruas de Nova York para comemorar a tomada do Forte Sumter?" George El Khouri Andolfato

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