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02/09/2007

Conhecendo o mundo do arcebispo de Willa Cather

The New York Times
Mary Duenwald
Em outubro de 1852, um clérigo francês selou uma simpática mula cor de creme e partiu de Santa Fé em direção ao sul. Como novo bispo católico do território do Novo México, ele parte para sua primeira visita aos povoados indígenas.

"Sua grande diocese ainda lhe era um mistério inimaginável", escreveu Willa Cather em seu romance vencedor do prêmio Pulitzer "Death Comes for the Archbishop". "Ele estava ansioso para poder logo estar por lá, conhecendo o seu povo".

Kevin Moloney/The New York Times 
Vista geral de Acoma Pueblo, povoado fundado no século 17 no Novo México

Isleta Pueblo, a cerca de 20 quilômetros ao sul de Albuquerque, de repente parece quase que familiar ao bispo, com sua igreja incrivelmente branca, a cidadezinha toda aglomerada e suas árvores de acácia na mesma coloração azul e verde das que havia visto no sul da França.

Mas a paisagem se torna estranha quando ele parte com seus jovens guias indígenas na direção oeste para Laguna Pueblo, e ele começa a não mais acreditar no que vê. Plantações de abóboras selvagens parecem "menos com vegetais e mais como se fossem uma grande colônia de lagartos verdes acinzentados, em movimento e subitamente paralisados pelo medo". O que inicialmente parecem ser suaves dunas de areia na verdade são rochas, "amarelas como o ocre" e pontilhadas com antigos pés de zimbro.

E quando os viajantes se aproximam de Acoma, o terceiro povoado, passam por colossais mesas de rocha, formações geológicas desgastadas pela erosão, sobressaindo a mais de 200 metros acima da planície arenosa. Essas formações parecem tão bizarras ao bispo como se não fizessem parte da natureza, mais parecendo "imensas catedrais" ou remanescentes de uma cidade monumental.

Atualmente esses três povoados estão ligados por auto-estradas. Isleta e Acoma têm seus próprios cassinos. Mas cada comunidade ainda preserva sua antiga identidade. Oitenta anos após a publicação do romance de Cather e mais de 150 anos depois dos acontecimentos que ela relatou, é possível utilizar a narrativa dela como um guia para o visitante.

Num dia quente de março, com uma edição de bolso a tiracolo, eu fui percorrendo todos os três povoados, com gratidão pela sensibilidade de Willa Cather em relação à grande beleza e ao mistério do sudoeste americano e pela habilidade dela em dar vida a personagens reais, que se encontraram naquela mesma paisagem tanto tempo atrás.

A descrição feita por Cather de Jean Marie Latour (o nome que ela inventou para contar a história do bispo da vida real, John Baptist Lamy) passa uma imagem complicada mas muito romântica do Novo México nos meados do século 19, logo após o território ter sido anexado aos Estados Unidos. Apesar dos enfeites fictícios, o livro dela proporciona um relato realista dos esforços feitos pelo bispo para substituir os depravados e corruptos padres do território, suas visitas a um estimado chefe Navajo, sua amizade com o explorador do Velho Oeste Kit Carson e seu sonho de construir uma catedral em Santa Fé.

A RELIGIÃO NOS PUEBLOS
Kevin Moloney/The New York Times
Igreja de Laguna Pueblo
Kevin Moloney/The New York Times
Igreja de Isleta Pueblo
Kevin Moloney/The New York Times
Entrada da igreja de Laguna Pueblo
Mas é a viagem aos povoados que revela grande parte das aflições vividas pelo bispo no novo país, dando para imaginar como ele se sentiu ao entrar pela primeira vez no estranho mundo dos pueblos indígenas. Nas palavras de Cather: "Quando ele se aproximou do povoado de Isleta, em seu branco reluzente em meio a rasa planície de areia cinza, o estado de espírito do bispo Latour se elevou. Era bonito ver aquela brancura tão rica e cálida da igreja e do povoado. A igreja e as casas de Isleta eram feitas de argila, clareadas pelo gesso".

Hoje em dias as casas do pueblo têm cor de terra, mas a igreja ainda está lá em branco puro, com sua fachada ainda regularmente caiada. Com suas paredes lisas e sinos pesados, é bem um arquétipo do humilde estilo do sudoeste.

A igreja possivelmente é diferente do que era nos tempos do bispo, e naquela época devia ser diferente também do que era em 1613. O telhado e o mezanino para o coro do prédio original - um santuário simples, amplo e de teto alto - foram destruídos em 1680, quando os povoados indígenas se rebelaram contra os missionários franciscanos. Reconstruída em 1716, alicerçada pelas velhas paredes, a igreja recebeu dois campanários de madeira para os sinos que o bispo teria visto, e que agora estão desaparecidos. Saindo de Isleta, o bispo Latour e seu guia, Jacinto, enfrentaram tempestade de areia no caminho até Laguna Pueblo, passando pelo lago que tem o mesmo nome da aldeia. O lago agora está seco. Mas a igreja da missão de São José, erigida há 300 anos, permanece do mesmo jeito descrito por Cather: "Pintada no teto e perto do altar com deuses do vento, da chuva e do trovão, sol e lua, unidos num desenho geométrico em violeta, azul e verde escuro, de forma tal que o fundo da igreja parecia compor uma tapeçaria".

O bispo celebra missa na São José, para depois sair com Jacinto em direção ao acampamento noturno nas rochas ao norte do povoado. Enquanto o sol se põe, os dois homens conversam rapidamente sobre as estrelas e depois entram em seu costumeiro silencio, contemplando o céu noturno.

"Não havia possibilidade de ele transferir suas memórias relativas à civilização européia para a mente dos indígenas", disse Cather a respeito do bispo, "e ele acreditava que por trás de Jacinto havia uma longa tradição, uma história feita de experiências, também impossível de ser traduzida para ele, fosse qual fosse a linguagem".

Os dois seguiram na direção do oeste atravessando a planície entre grandes mesas, e o bispo fica intrigado pela maneira como cada uma das torres de pedra parece ficar "duplicada por uma nuvem em forma de rocha-mesa, como um reflexo, pairando imóvel sobre as torres ou lentamente se deslocando atrás delas".

Na estrada recém-pavimentada que passa por esse mesmo território, pouco antes de chegar a Acoma, eu passei por uma outra mesa que havia sido habitada, mas que já nos tempos do bispo era uma cidade fantasma. Como Jacinto explica no romance, "a escadaria que era o único acesso até ela foi destruída por uma grande tempestade há muitos séculos, e o povo que lá vivia pereceu de fome".

Como, o bispo pergunta, as pessoas tiveram a idéia de viver a centenas de metros acima do chão sobre rochas nuas sem solo produtivo nem água?

"Um homem pode fazer de tudo quando é caçado dia e noite feito um animal", diz Jacinto. "Navajos ao norte, apaches ao sul; assim o povo de Acoma preferiu se salvar subindo na rocha".

Acoma já não é mais a comunidade de antigamente. As famílias de Acoma mantêm as casas de lá apenas para férias e final de semana. De qualquer forma a tribo decidiu não equipar o topo da mesa com eletricidade ou água corrente, e agora o povo vive principalmente numa aldeia no andar que fica ao nível do vale. Atualmente para chegar ao topo é preciso solicitar a presença de um tour guiado e pegar um ônibus.

Para o bispo e Jacinto, a única maneira de subir era por uma escadaria de pedra áspera com apoio e degraus bem primitivos. Quando ele chega ao topo, o bispo se surpreende com as habitações de dois e três andares amontoadas no povoado de cerca de 10 acres, "sem uma árvore ou área verde por perto". E ele fica apreensivo ao perceber como é a igreja da missão.

"Frágil, austera, cinza, com sua nave se elevando a mais de 20 metros até um telhado todo danificado, era mais parecida com uma fortaleza do que com um local para adoração", escreveu Willa Cather.

O bispo fica pensando porque uma igreja tão grande foi construída por lá no começo dos 1600: "Como devem ter sido poderosos esses clérigos espanhóis, a ponto de recrutar e contar apenas com o trabalho indígena para uma construção de tão grande porte, sem o apoio dos militares".

Na época os padres forçaram os indígenas a carregar não só material de construção para a igreja como também grande quantidade de terra para viabilizar o cemitério nos fundos da igreja. "Cada pedra naquela estrutura", refletiu o bispo, "cada punhado de terra que veio a formar toneladas de argila, tudo foi transportado pela trilha nas costas de homens, meninos e mulheres. E as grandes vigas talhadas no telhado - Latour as contemplava com espanto. Em toda a planície que ele já havia visitado não havia sinal de árvores, só de alguns poucos pinheiros estropiados. Ele perguntou a Jacinto de onde poderiam ter vindo madeiras tão enormes.

"'Da montanha de San Mateo, eu acho.'"

"'Mas as montanhas de San devem estar a quase 80 quilômetros daqui. Como poderiam trazer tantas madeiras assim?'"

"Jacinto deu de ombros e replicou. 'Os Acomas carregam.' Certamente não havia outra explicação."

A mulher Acoma que guiava meu grupo parecia encarar o prédio da igreja com a mesma indignação. Segundo a guia, os indígenas ficaram tão ressentidos com essa exploração perpetrada pelos missionários que hoje em dia os Acoma falam inglês e seu idioma nativo, mas nunca falam o espanhol.

E os indígenas se mantiveram o tempo todo fiéis à antiga religião, até mesmo quando genuinamente cooperavam com os rituais católicos.

As práticas ainda ocorrem, paralelas. Bem perto da igreja da missão fica a kiva sagrada do povoado, com suas escadas externas pintadas em branco e voltadas para o norte, na direção do local de onde vieram seus ancestrais.

Quando o bispo vai celebrar a missa na igreja, ele tem dificuldades na condução da cerimônia. "Diante dele, sentados no chão cinza, à luz acinzentada, um grupo com xales e cobertores claros, uns 50 ou 60 semblantes em silêncio; acima e atrás deles, paredes cinzas. Ele se sentia como se estivesse celebrando uma missa no fundo do mar, para criaturas antediluvianas; para uma forma de vida tão antiga, tão embrutecida, tão fechada em suas conchas, que o sacrifício no calvário mal poderia afetar. Quando os abençoou e se despediu deles, foi com um sentimento de inadequação e de derrota espiritual."

Latour espera até o dia seguinte para descer. Naquela noite, ele dormiu na galeria, próximo ao seu claustro sacerdotal. "É como se ele estivesse sobre rocha nua no deserto, na Idade da Pedra, prisioneiro da nostalgia de sua espécie, de sua própria época", segundo Willa Cathe, "saudoso do homem europeu e de sua gloriosa história de desejo e de sonhos." Marcelo Godoy

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