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02/09/2007

Em exibição a 9 mil metros: sexo e violência

The New York Times
Bob Tedeschi
Um marido atira no rosto da esposa, então arrasta seu corpo de uma poça de sangue. Um menino de 12 anos é esmagado contra uma cerca por um carro. Uma adolescente fecha o zíper de seu jeans no banheiro após um encontro sexual.

Estas são as imagens dos filmes exibidos recentemente aos passageiros nas telas dos aviões de algumas companhias aéreas. As imagens são fonte de novos e vigorosos protestos de pais, comissários de bordo e grupos de defesa da criança que dizem que o entretenimento a bordo se tornou tudo, exceto adequado para a família.

Os críticos dizem que a revolta se deve às companhias aéreas, ávidas em atender aos gostos atuais e cedendo aos padrões mais permissivos da mídia, relaxaram suas regras em relação ao que é exibido no ar.

Filmes com classificação R (menores de 17 anos só podem assistir acompanhados de pai ou responsável) são exibidos com maior freqüência, mesmo que com alguma edição, juntamente com reprises de programas de televisão que incluem conteúdo sexual, violência e outros temas voltados para adultos.

Como as leis federais de radiodifusão não se aplicam ao entretenimento de bordo, e como as companhias aéreas não seguem a classificação da Motion Picture Association of America (entidade que representa a indústria cinematográfica) ou os padrões da televisão, grupos de defesa começaram a fazer lobby por mudanças. Pelo menos uma organização pediu aos legisladores federais que apresentem leis para coibir a violência exibida nas telas dos aviões. Voar com crianças, dizem os críticos, se tornou uma experiência assustadora.

"Atualmente é quase rotina quando você está sentado em um avião e de repente toma um susto", disse Kames Steyer, executivo-chefe da Common Sense Media, que analisa produtos de entretenimento para os pais. "Você é um público cativo e quase não tem controle."

Thomas Fine e Sara Susskind de Cambridge, Massachusetts, passaram recentemente duas horas em um vôo da United Airlines distraindo o filho de 6 anos, Zachary, para que não assistisse "Atirador", um filme de classificação R que exibe múltiplos assassinatos sangrentos. Apesar de seu filho não estar com os fones de ouvido, disse Fine, o som dos disparos que vinha dos fones de ouvido próximos atraíam o olhar de Zachary para cima. "Ele desviava sua atenção quando ouvia o som, estava sentado entediado em um avião e ele tem 6 anos", disse Fine.

O outro lado

As companhias áreas respondem que tentam agradar ao público mais amplo possível, e que os pais podem evitar os programas se quiserem. "Os pais precisam ser responsáveis pelas ações de seus filhos - seja para não olharem para a tela ou desviarem a atenção", disse Eric Kleiman, diretor de marketing de produto da Continental Airlines.

Nos últimos meses, a Continental exibiu o suspense "Um Crime de Mestre" de classificação R, no qual um personagem interpretado por Anthony Hopkins atira no rosto da esposa. A cena exibida nos aviões apresenta uma ligeira edição em relação à versão exibida nos cinemas.

Kleiman disse que a mudança do teor do entretenimento a bordo está de acordo com a mudança dos padrões nas redes de TV, videogames e outros meios. "Nossa abordagem é consistente com a da sociedade em relação a isto", ele disse.

Gavin Minton, editor da Crest Digital, que edita os filmes de bordo, disse que as companhias aéreas podem estar escolhendo mais filmes no qual a violência é central à trama. "Os filmes em geral estão mais violentos", ele disse. "Independente de como é editado, ainda restará um aspecto nele que parecerá violento."

"É difícil quantificar a mudança na programação oferecida pelas companhias aéreas, mas há fortes evidências de que elas, que compram os filmes de sua escolha de Hollywood, estão rompendo antigas barreiras à medida que buscam melhorar sua lista cada vez menor de cortesias.

A Associação dos Comissários de Bordo, um sindicato cujos membros ouvem queixas dos pais, disse que o percentual de filmes de classificação R saltou nos últimos dois anos e que a tendência observada é de mais conteúdo violento. A Delta passou a exibir filmes R em dezembro, enquanto a United e a US Airways aumentaram a freqüência com que exibem tais filmes. As três companhias aéreas exibiram "Um Crime de Mestre" nos últimos meses.

Cortes

Também são exibidos nas telas de bordo programas de televisão como "Monk" e "Desperate Housewives", considerados por organizações de pais como adequados para adolescentes, mas não para crianças.

Os pais notaram. "Não precisa ser uma série infantil, mas minha nossa, não dá para ter Eva Longoria seduzindo um estudante colegial na mesa da sala de jantar", disse Timothy Winter, presidente da Parents Television Council, que oferece orientação aos pais sobre programas de televisão. Ele disse que tem recebido queixas semanais de pais sobre filmes nos vôos, enquanto no ano passado ele não recebeu nenhuma.

Kleiman, da Continental, disse que às vezes não há comédias românticas populares suficientes ou outros filmes mais leves para preencher os horários disponíveis em seus aviões. Quando uma companhia aérea exibe filmes R, ele disse, os estúdios enviam uma versão sem cortes para as companhias aéreas, assim como uma lista de cortes sugeridos. Os estúdios realizam os cortes ou permitem que uma empresa de edição os faça.

Jeffrey Crawford, que supervisiona a divisão da Warner Brothers que vende filmes para companhias aéreas, disse que seus editores "sabem o que fazer", acrescentando: "Eles fazem tanto para as companhias aéreas quanto para a TV, mais à frente, onde obviamente tentamos reduzir a violência gráfica e o sangue."

Mas apesar da atenuação, as cenas de "Um Crime de Mestre" claramente mostravam o homem apontando para a cabeça da esposa e disparando a arma, assim como exibiam com igual clareza o sangue da mulher empoçado ao redor de sua cabeça e o rastro que deixava enquanto seu marido a arrastava. Um flashback posterior no filme, que o repórter assistiu em um vôo da Continental, reprisou o disparo.

Nina Plotner, uma gerente de conta da Inflight Productions Inc., que trabalha em prol de muitas companhias aéreas na análise e aquisição de filmes, disse sobre o procedimento de edição: "Se tirarmos todas as coisas boas, não restará muito para ser exibido".

Ela acrescentou: "Se você tem uma queixa, você tem uma queixa. Não dá para agradar a todos".

Kleiman, da Continental, tem uma visão semelhante. "As pessoas gostam de Pepsi, mas não a servimos, então para elas nós arruinamos seu vôo", ele disse. "Esta é uma analogia precisa. Ou as pessoas gostam ou não, seja o entretenimento a bordo, as refeições ou as bebidas." As companhias aéreas disseram que recebem relativamente poucas queixas.

Violência em Hollywood

O debate sobre se o conteúdo é adequado ou não nos vôos comerciais surge em meio ao debate em andamento sobre a violência nos filmes de Hollywood. Pesquisadores determinaram, por exemplo, que os padrões para os filmes classificados como PG-13 (menores de 13 anos devem estar acompanhados de pai ou responsável) se tornaram mais relaxados nos últimos anos, com tais filmes freqüentemente exibindo violência, situações sexuais e linguagem obscena que os levariam a ser classificados como R há uma década.

De fato, muitos filmes de bordo citados por pais e críticos apresentavam classificação PG-13, incluindo "Missão Impossível III" e "King Kong".

Shari Maser, de Ann Arbor, Michigan, passou parte do último ano sentada à noite ao lado de sua filha de 7 anos, que passou a ter pesadelos após assistir o trailer de "King Kong" no vôo da US Airways. O trailer mostrava pessoas sendo atacadas por dinossauros e insetos gigantes.

Os pesquisadores que estudam psicologia infantil disseram que imagens gráficas podem permanecer com as crianças pequenas até a idade adulta. "As crianças podem ter pesadelos após verem literalmente alguns poucos segundos de uma cena de um filme horrível", disse Joanne Cantor, que leciona comunicações na Universidade de Wisconsin-Madison. "Crianças pequenas não têm a capacidade cognitiva de deixar o visual de lado e dizer: 'Isto é só um filme'."

Jesse Kalisher, um fotógrafo de Chapel Hill, Carolina do Norte, lançou neste ano um site, KidSafeFilms.org, no qual está reunindo apoio para restrições aos filmes exibidos pelas companhias aéreas. Kalisher disse que 1.600 pessoas já assinaram a petição online. Ele começou a fazer lobby para que legisladores federais coíbam a violência exibida nos filmes de bordo.

Os executivos das companhias aéreas dizem que à medida que os aviões mais velhos forem substituídos, os passageiros terão telas individuais com uma variedade de filmes não editados e programas infantis, como ocorre na JetBlue e Virgin Atlantic. Mas mesmo estes sistemas são falhos, dizem os críticos. "Família Soprano" e o drama de poligamia "Big Love" são exibidos nas telas individuais da Delta Air Lines.

As crianças podem ver as telas das pessoas próximas, e um pai recentemente não ouviu os comissários de bordo da JetBlue dizerem aos passageiros como desligar as telas. Quando o trailer do filme de horror "Extermínio 2" apareceu em todas as telas da aeronave, ele rapidamente desplugou o fone de ouvido de sua filha de 9 anos e ordenou para que desviasse seu olhar. Diante dela, zumbis, cidadãos e soldados lutavam nas ruas até caças os incinerarem. Filmes com cenas de sexo e violência exibidos durante o vôo por companhias aéreas despertam protesto dos pais George El Khouri Andolfato

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