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02/09/2007

Modern Love: as pessoas no ônibus dizem "Que vergonha!"

The New York Times
Hana Schank*

em Nova York
Numa manhã, pouco tempo atrás, enquanto eu caminhava para meu escritório, passei por uma mulher que empurrava um carrinho de bebê e cantava "The Wheels on the Bus" a plenos pulmões. Eu moro no bairro de Park Slope, no Brooklyn, onde uma em cada três pessoas na calçada é um pai, mãe ou babá empurrando um carrinho, por isso não foi tão estranho. O verso que a mulher berrava era "As mamães no ônibus dizem 'Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo'. As mamães no ônibus dizem 'Eu te amo' até chegar à cidade".

The New York Times 
Necessariamente uma mãe precisa dizer "eu te amo" ao seu bebê para ele saber disso?


Eu nunca tinha escutado esse verso, embora seja mãe de um menino de 1 ano. Na versão que eu conheço, as mães no ônibus dizem "Shh, shh, shh" até chegar à cidade. Seja como for, o episódio me lembrou de algo que uma conhecida, mãe de uma menina de 3 anos, tinha me perguntado alguns dias antes: "Milo já lhe disse 'Eu te amo'? É o máximo", ela disse. "É claro que soa atrapalhado, mas mesmo assim é ótimo."

"Ele ainda não diz frases", eu respondi, mas mesmo que Milo dissesse frases provavelmente essa não seria uma delas, pois eu raramente dizia "Eu te amo" para ele. O único lugar possível onde ele poderia ter ouvido as palavras "Eu te amo" seria em seu telefone de brinquedo Elmo, que às vezes guincha "Elmo diz eu te amo!", portanto se ele dissesse "Eu te amo" provavelmente seria para Elmo, e não para mim.
Na noite depois dessa conversa perguntei a meu marido se ele às vezes diz "eu te amo" para Milo.

"Não", disse Steven. "Ele já sabe."

"Foi o que pensei", eu disse. "Eu nunca digo isso porque não me ocorre. Nem posso imaginar quando o diria."

E quando seria? Quando Milo faz alguma coisa ótima? Mas eu não quero que ele pense que o amo só quando ele diz novas palavras ou aprende novas letras. Eu me orgulho dele nesses momentos, mas meu amor é uma constante. Eu não o amo menos quando ele grita e bate a cabeça no chão está bem, talvez um pouco menos), e não o amo mais quando a babá eletrônica desperta de manhã com seus ruídos.

Isso deixaria momentos aleatórios durante o dia, como quando ele está sentado comendo salgadinhos, para que eu de repente começasse a dizer "eu te amo". Também não parece certo.

Articular "eu te amo" havia sido, até a minha conhecida perguntar, a menor de minhas preocupações em relação a meu filho. Se há uma coisa que ele sabe, esse centro total do meu universo, esse bebê que praticamente é aplaudido quando solta gases, é que ele é amado.

Mas nos dias seguintes percebi mães em todo lugar inundando seus filhos com eu-te-amos. Depois que um bebê conseguiu se atirar pelo escorregador no playground, vi sua mãe levantá-la do chão, dar um beijo em seu rosto e pipilar "Eu te amo".

No caminho da mercearia, passei por uma mãe ajoelhada na frente do carrinho do filho, acariciando seu joelho e dizendo que o amava. Algumas semanas depois minha sogra veio nos visitar e, como se sentisse a falta de eu-te-amos na casa, tentou preencher o vazio.
"Eu te amo!", ela murmurava carinhosamente enquanto Milo tentava desmontar o controle remoto. "Eu te amo!", ela disse enquanto trocava sua fralda malcheirosa. "Eu te amo!", ela disse quando Milo enfiou a mão inteira numa tigela de iogurte.

Ao longo dos próximos dias, comecei a prestar mais atenção nas palavras que saíam de minha boca, para ver se por acaso alguma delas era "eu te amo". E acontece que eu disse "eu te amo", mas só depois de gritar com Milo.

A seqüência de eventos sempre mantinha o seguinte padrão: Milo fazia algo como tentar enfiar o rabo do gato no ventilador ou comer bolinhas de poeira, eu gritava "Não!" e Milo começava a chorar. Então eu o abraçava e dizia "Tudo bem, eu ainda te amo, mas não ponha os lápis no nariz/ lamba baterias/ enfeite o chão da cozinha com farinha".

Quando notei esse padrão, comecei a me perguntar se eu estaria privando meu filho de alguma profunda experiência emocional. Será que ele cresceria pensando que "eu te amo" é algo para ser dito só depois de gritar? E por que parecia certo que meu marido nunca dissesse "eu te amo", mas de certa forma terrível admitir que eu também não tinha inclinação para dizê-lo? Parecia injusto que o dever de informar a nosso filho que ele era amado recaísse somente em mim.

Pensei na letra de música que ouvi aquela mãe com o carrinho cantar: "As mamães no ônibus dizem 'eu te amo'", o que reforçava a idéia de que as mães são as responsáveis pelo amor incondicional. Não me incomodava essa parte do amor incondicional; articulá-lo é que era o problema.

Curiosa para ver se os manuais de criação de filhos diziam alguma coisa sobre o assunto, folheei os dois que eu tinha em casa. "O Guia Completo e Definitivo para Cuidar de seu Bebê ou Criança Pequena" não era nem completo nem definitivo sobre o tema. "O que esperar no primeiro ano" listava o seguinte no índice: "Amor, parental", e depois: "Para bebê adotado, Para novo bebê, Para bebê especial".

Fui para a seção de novo bebê, embora nessa altura Milo não fosse mais novo, e li rapidamente um parágrafo dizendo que era normal os pais não sentirem uma ligação instantânea com seu filho gritalhão. Além disso, o livro parecia assumir que os pais amariam o filho e lhe informariam isso adequadamente. Não havia menção a dizer "eu te amo" em voz alta.

Coloquei minha dúvida no painel de mensagens Urban Baby, hesitando enquanto digitava, sentindo que estava prestes a ser linchada por um bando de mães. "Quando você diz 'eu te amo' para db?", eu escrevi. Quinze meses como mãe me tornaram muito fluente nas abreviações usadas nos painéis de criação de filhos; "db" ou "dear baby" é o modo como as pessoas se referem a seus bebês.) "Percebi que só digo isso depois de tê-lo repreendido por alguma coisa."

Imediatamente dez mães responderam, muitas delas afirmando que diziam "eu te amo" para seus filhos "constantemente".

"A primeira coisa de manhã e o dia inteiro", escreveu uma delas.

"Você sabe que o que está fazendo é errado. Então pare", disse outra.

Alguns minutos depois, uma mãe solitária respondeu que concordava comigo. "Dizer 'eu te amo' parece artificial", ela disse.

"Todo mundo merece sentir-se amado", uma outra logo interveio.

É claro que todo mundo merece sentir-se amado. E Milo é amado. Mas escutar um pai ou mãe dizer "eu te amo" equivale a saber que você é amado? Acredito que não.

Eu não cresci numa casa onde se trocavam muitos eu-te-amos. Mas nunca duvidei de que meus pais me amavam. A principal questão para mim quando criança era quem meus pais amavam mais: eu ou meu irmão.

"Se Joshua e eu fôssemos candidatos a presidente, em quem você votaria?", eu costumava perguntar a meu pai.

"Eu votaria nos dois", ele sempre respondia.

"E se Joshua fosse do partido de Hitler?"

"Ainda assim eu votaria nos dois."

Sempre detestei essa resposta, mas me pergunto se minha obsessão por quem era mais amado vem do fato de que nunca dizíamos "eu te amo" em voz alta. Até hoje na minha vida, creio que disse "eu te amo" para meu pai exatamente uma vez, quando eu tinha 30 anos, pouco antes de ele ir para a cirurgia de coração. Quando eu disse, ele riu. "Oh, eu também te amo", ele respondeu murmurando, como se eu estivesse sendo ridícula.

Minha mãe começou a dizer "eu te amo" para mim só depois que ela e meu pai se divorciaram dez anos atrás, mas eu sempre tenho a sensação de que ela diz isso para ouvir um "eu te amo", mais do que para me informar sobre seu amor. Ela termina todas as conversas telefônicas com essa frase, e agora mais parece um substituto para "Até logo" do que uma frase significativa.

Se eu dissesse "eu te amo" para Milo, não gostaria que se tornasse sem sentido, e definitivamente não gostaria que soasse carente. Tenho absoluta certeza do amor de Milo por mim. Quando chego em casa ele grita "Mama!", vem correndo e me dá um grande abraço, como se estivéssemos distantes há meses e não horas, ou, em alguns casos, 20 minutos. Então, do meu lado, não preciso ouvir Milo me dizer "eu te amo". Porque neste momento sei que ele me ama. Quando ele tiver 15 anos, gritar "Eu te odeio!" e for para o quarto e bater a porta, talvez eu sinta outra coisa. Mas por enquanto estou bem nesse setor.

A única questão é se Milo sabe que eu o amo, e acho que sim, na medida em que um bebê pode saber o que é o amor. Pelo menos ele sabe que gosta de sentar no meu colo enquanto eu o balanço antes de colocá-lo na cama, que eu cuido dele quando crianças maiores o empurram no tanque de areia e quando ele bate a cabeça eu a beijo e tento fazê-lo sentir-se melhor.

Talvez um dia ele e eu vamos conversar sobre o que significa "eu te amo" e eu lhe direi que o amo incondicionalmente, mesmo que ele dispute a presidência pelo partido de Hitler. Até então, as mamães no ônibus dirão "Shh, shh, shh" até chegar à cidade.

*Hana Schank é autora do livro de memórias "A More Perfect Union: How I Survived the Happiest Day of My Life" Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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