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03/09/2007

Admita: você ama a moda. E ela é importante

The New York Times
Guy Trebay
em Nova York
Dependendo de quem esteja falando, a moda pode ser chamada de burguesa, feminista, não feminista, conformista, elitista, frívola, anti-intelectual e de um subproduto cultural que mal merece a atenção que é dispensada a até mesmo as menos importantes modalidades de arte.

A Semana da Moda começa na terça-feira em Nova York. É o início de um ciclo de apresentações que ocorre duas vezes por ano, com duração de um mês cada uma, em dois continentes e em quatro cidades, e nas quais serão exibidos os trabalhos de centenas de profissionais. Neste momento é válido perguntar por que a moda continua sendo a força de maior potência cultural que todos adoram ridicularizar.

AChau Doan/The New York Times 
Modelos desfilam para Calvin Klein durante a Semana de Moda de NY em fevereiro de 2007


Por "todos" não se pretende incluir os profundamente iniciados, aquelas pessoas cercadas de uma aura meio mágica para as quais o formato de um vestido ou o corte de um paletó constituem-se em detalhes extremamente importantes. Não há dúvida de que existe um lugar para esses tipos. Sejam eles tolos como a já falecida editora de moda Diana Vreeland (que certa vez escreveu: "Disseram-me que usar roupas negras não denota mais bom gosto, mas eu as ressuscitarei"), para mitomaníacos extravagantes como John Galliano, ou o estilista da Dior -que em uma temporada adota como tema os piratas, e na temporada seguinte os ciganos. Ou até mesmo para os agentes das jovens celebridades que provavelmente ofereceriam muito mais material para fotos gratuitas caso os estilistas não lhes presenteassem com roupas de sua criação.

Não, "todos" significa nós, que ridicularizamos sem rodeios a moda e, também aqueles que não fazem tal coisa, mas que, não obstante, tem aquela sensação incômoda de que não vale a pena dar atenção a esse universo influente de superfícies e auto-promoção.

"Existe uma idéia de que a moda não é uma forma de arte ou uma forma cultural, mas sim uma modalidade de vaidade e consumismo", afirma Elaine Showalter, a crítica literária feminista e professora emérita da Universidade de Princeton. "E há uma expectativa de que essas dimensões da cultura sejam alvo de zombaria por parte das pessoas sérias e inteligentes". Showalter completa: "Especialmente no universo acadêmico, onde os corpos são apenas veículos para o transporte de cérebros, a emoção, a agitação social e a dissimulação complexa do mundo da moda são bastante denegridas. O vestuário padrão do meio acadêmico apresenta algumas variações. Mas, basicamente, o objetivo dele é transmitir a impressão de que a pessoa não está prestando atenção na moda, que não é fútil e que não está de forma alguma interessada nesse tipo de coisa".

Quando Valerie Steele, diretora do museu do Instituto de Tecnologia da Moda, em Nova York, declarou durante o curso de pós-graduação da Universidade Yale o seu interesse em estudar a história da moda, os seus colegas ficaram horrorizados. "Fiquei surpresa em constatar o grau de hostilidade dirigido a mim", conta Steele. "Os intelectuais achavam que aquilo era algo repulsivo, desprezível, completamente vão e fútil". Steele diz que se sentiu como se tivesse ingressado em um culto satânico.

E é desta forma, em grande parte, que a pessoa ainda é vista quando menciona um interesse em ler, digamos, a revista "Vogue".

Moda como identidade

"Detesto isso", me disse certa vez Miuccia Prada, referindo-se à moda, em uma conversa durante a qual nós confessamos mutuamente o nosso desconforto em falar sobre um assunto nitidamente tão superficial.

"É claro que eu a adoro", acrescentou Prada, e a sua lógica diz muito a respeito da razão pela qual a moda é uma questão da qual ninguém deveria ter vergonha de levar a sério. "Mesmo quando as pessoas não têm nada, elas ainda possuem os seus corpos e as roupas", disse Prada.

Elas contam com as suas identidades, quer dizer, aquilo que é montado durante o profundo ritual diário de vestir-se. Elas têm, como certa vez observou Colette, as suas máscaras civilizatórias. Apesar do seu potencial como ferramenta para análise da cultura, da história, da política e da expressão criativa, a moda é freqüentemente utilizada apenas como uma arma. Como um clube controlado por aqueles que se esquecem que todas às vezes que nos vestimos queremos dizer algo sobre nós -freqüentemente coisas que não expressam toda a verdade.

Por que outro motivo o comitê de campanha de Hillary Rodham Clinton atacou o crítico de moda do "Washington Post" por tentar fazer uma interpretação das roupas da candidata? A blitz editorial que se seguiu à resposta indignada de Clinton a certas observações inocentes a respeito de uma discreta exibição de decotes no Senado foi instrutiva. Assim como a conclamação feita por Hillary às feministas a respeito do sexismo expresso no fato de os jornais se concentrarem naquilo que uma mulher veste, em detrimento das idéias dela.

Mas roupas são idéias. Acadêmicos como a historiadora de arte Anne Hollander passaram décadas explicando como o vestuário serve como quadro de apresentação do indivíduo. Poder-se-ia pensar que poucas pessoas entendem essa verdade tão bem quanto a mulher às vezes chamada de Hairband Hillary (algo como "Hillary Tiara"). Ela que, afinal, remodela assiduamente a sua imagem, distanciando-se daquela de uma esposa que fica em segundo plano e reforçando a de uma poderosa especialista em políticas, vestida para seguir em frente e liderar o mundo livre.

Pelas lentes de Antonioni

Os políticos estão longe de ser as únicas pessoas que agem como se as preocupações com a moda não merecessem ser levadas em consideração. Quando a lenda do cinema italiano, Michelangelo Antonioni, morreu recentemente, os críticos de cinema e escritores de obituários empolgaram-se com o seu clássico "A Aventura" ("L'Avventura", Itália/França, 1960), um filme que poucas pessoas que não estejam fazendo matérias na universidade sobre cinema assistiram. Alguns observaram que o Antonioni daquele filme já tinha começado a perder o rumo à época em que se desviou na direção de trabalhos como "Blowup - Depois Daquele Beijo" ("Blowup", Itália/Reino Unido, 1966), cujo enredo gira em torno do mundo da moda.

Não importa que "A Aventura" seja um filme profundamente estilizado e que nas mãos de Antonioni o guarda-roupa faz aquele trabalho que cabe aos diálogos quando se trata de diretores mais chegados à expressão verbal. Em um roteiro ausente, as roupas são usadas por Antonioni para sublinhar a expressão de anomia das classes altas, e para marcar graficamente a sua repulsa pelos neo-realistas italianos, que parecem todos ter feito o figurino dos seus filmes usando o mesmo estoque de roupas usadas de Anna Magnani.

Assim como muitos italianos daquela época e de agora, Antonioni tinha simpatia pelo papel que as roupas desempenhavam no teatro humano. E embora "Blowup" passe-se em um ambiente de moda, ele, na verdade, diz respeito não tanto à moda, mas sim a um assassinato acidentalmente fotografado e à instabilidade daquilo que é visto e conhecido. Até mesmo decorridos 40 anos, as imagens do filme continuam tão sofisticadas que elas atraem automaticamente a suspeição intelectual. Antonioni sempre pareceu sugerir que a confiança nas aparências pode ser uma proposição fracassada.

A indústria econômica

Mas investir nelas, como diz Steele, pode ser algo muito pior.

"Na nossa cultura profundamente puritana, preocupar-se com a aparência é como tentar ser melhor do que realmente se é, o que seria moralmente errado", diz ela.

É algo ditado por desejos, e não pelas necessidades. Mas o apetite pelas mudanças tão essenciais para a moda é uma força mais culturalmente dinâmica do que geralmente se imagina. O luxo, e não a necessidade, pode ser a verdadeira mãe da invenção, conforme observou o escritor Henry Petroski. Essa proposição é mais fácil de se vender quando o luxo em pauta é um iPhone, e não uma bolsa Balenciaga, mas o princípio é o mesmo.

Em locais como o Vale do Silício, a busca por produtos mais novos e melhores resulta em patentes de tecnologias, em um exemplo nítido de robustez econômica. As inovações da moda podem ser mais difíceis de se patentear ou rastrear. Mas parece óbvio que vastos setores da economia de Nova York ficariam paralisados caso todos os indivíduos vinculados aos desfiles de moda deixassem subitamente de migrar para cá devido à crença de que o mundo pode ser modificado pelo tipo de inovação inerente na maneira como uma roupa é cortada.

"É fácil odiar a moda", afirma Elizabeth Currid, professora da Escola de Política, Planejamento e Desenvolvimento da Universidade do Sul da Califórnia e autora do livro "The Warhol Economy: How Fashion, Art and Music Drive New York City" ("A Economia Warhol: Como a Moda, a Arte e a Música Conduzem a Cidade de Nova York"), publicado pela editora Princeton University Press.

"As indústrias culturais como a moda são às vezes vistas como algo que só é alvo de preocupação de garotas magrelas das escolas de segundo grau", afirma Curry. "Pouca gente vê nisso um fascinante campo de estudo cultural e também um gerador de salários que emprega milhares de costureiras, desenhistas, motoristas de caminhão, corretores de imóveis e publicitários.

Analisando as estatísticas do Birô do Trabalho, Currid chegou à conclusão, não muito surpreendente, de que a mais densa concentração de estilistas da moda nos Estados Unidos encontra-se em Nova York. Uma olhada no rol de estilistas estrangeiros que exibem os seus trabalhos na Semana da Moda de Nova York, de 4 a 12 de setembro - Rússia, Turquia, Índia e Brasil estão representados- sugere um bom motivo para isso.

"Mesmo que, em certo grau, moda seja fantasia, a concentração de eventos necessários para a sua produção e a resultante disseminação social pode resultar em uma enorme vantagem econômica cumulativa para a cidade", afirma Currid. Embora as exibições de temporada nos quiosques do Bryant Park, em Manhattan, com a sua passividade forçada e a aura de presença exclusivamente feminina, possa ser motivo de escárnio, os grandes negócios estão presentes ali. É provável que os mesmos jornais cujos críticos marcam uns pontos fáceis com a moda sejam economicamente beneficiados pelo oxigênio fornecido pela publicidade de vestidos, bolsas e sapatos.

Currid diz que uma das descobertas mais surpreendentes de sua pesquisa foi a de que algo tão superficial, feminino, burguês, não feminista, conformista, elitista e frívolo como a moda pode ser extremamente poderoso quando se trata de criar seduções intangíveis que atraem dinheiro, talento, beleza e negócios para as cidades.
"Como é que um local se diferencia de outro em um mundo no qual existe um Starbucks em cada esquina", questiona ela. "As pessoas precisam acreditar que este é o local certo para se estar". E a moda possibilita isso. É válido perguntar por que a moda continua sendo a força de maior potência cultural que todos adoram ridicularizar UOL

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