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03/09/2007

Antes de Lindsay Lohan ou Paris Hilton, havia a senhora L_fle

The New York Times
Jessica Grose
Diga rápido o nome de uma super-estrela outrora esplendorosa, e que foi violentamente atacada pela imprensa por destruir o seu belo visual, dissipar a sua fortuna e arruinar a sua reputação com o seu "abandono excessivo ao amor, ao álcool, ao desejo sexual e ao láudano".

Não, não se trata daquela boneca auto-destrutiva na capa da "US Weekly" e tampouco da entrevistada lacrimejante que falou aos prantos com Diane Sawyer. Trata-se da senhora B_udd_y, a sagaz integrante da alta sociedade britânica que caiu em desgraça, e cujas atitudes chocantemente indiscretas foram o assunto de uma publicação de 1780 bastante distribuída entre as classes alta e trabalhadora de Londres.

AChau Doan/The New York Times 
Fotos da "The Town and Country" que divulgada detalhes dos escândalos da alta sociedade


Aparentemente a senhora B_udd_y, cujos casos amorosos sórdidos foram preservados em um panfleto chamado "Characters of the Present Most Celebrated Courtesans Exposed, With a Variety of Secret Anecdotes Never Before Published" (algo como, "Personagens das Atuais Mais Famosas Cortesãs Expostas, com uma Variedade de Casos Secretos Nunca Antes Publicados"), enfrentou forte concorrência pelo título da socialite mais imoral da Inglaterra do século 18.

O romance, que durou anos, entre a casada senhora L_fle e o arrojado lorde H___n foi narrado em detalhes minuciosos em uma edição de 1772 da revista "The Town and Country", ou da "Universal Repository of Knowledge, Instruction and Entertainment". Foram incluídas informações de bastidores sobre os amigos, cônjuges e posições sociais, bem como um retrato desenhado com esmero da bela L_fle observando com uma expressão adorável um alegre H___n.

E houve também a senhora H_tt_n, uma jovem e rica herdeira e caçadora de fortunas que foi atacada nas páginas da "Courtesans" devido à sua "inclinação desmedida pela aquisição de dinheiro".

Os primórdios do tablóide

Embora achemos que a nossa atual fascinação pelas travessuras escandalosas dos ricos e famosos seja uma obsessão moderna, as páginas mofadas e bastante folheadas de publicações lançadas há mais de um século como "The Spectator", "Courtesans" e "Town and Country" contam uma história diferente.

Centenas de anos antes havia revistas reluzentes sobre celebridades para narrar histórias de casamentos fracassados e seduções furtivas protagonizadas por pessoas atraentes e nascidas em berço de ouro. A sociedade britânica do século 18 já nos havia fornecido os elementos fundamentais da cultura de tablóides contemporânea. Uma indústria emergente de publicações dedicadas à cobertura do mau comportamento das celebridades que agiam de uma forma condenada pelos padrões morais da época. E que se gabavam disso. Isso para não mencionar uma quantidade cada vez maior de leitores que se entretinha com tais revistas.

"A idéia das fofocas, dos escândalos e da cultura de celebridades que temos hoje em dia começou realmente na Londres do século 18", afirma Sophie Gee, autora do novo romance "The Scandal of the Season" ("O Escândalo da Temporada"). "Foi um momento no qual a fascinação pela celebridade coincidiu com o surgimento de um grande número de ótimos autores que desejavam escrever sobre esse tópico".

Gee, 33, uma acadêmica nascida em Sydney e professora de Inglês da Universidade de Princeton, geralmente não é encontrada em meio às pilhas de livros da Biblioteca Firestone buscando fofocas de 300 anos de idade como munição para o seu trabalho. Mas a pesquisa de tais fofocas tornou-se inevitável enquanto ela fazia pesquisas para escrever "The Scandal of the Season" -uma narrativa de ficção baseada na história por detrás do poema escrito em 1712 por Alexander Pope, "The Rape of the Lock" (algo como "O Rapto do Cacho (de cabelo)").

Quando Pope compôs o seu épico satírico, ele pesquisava um suposto 'affair' entre os aristocratas britânicos Arabella Fermor e lorde Robert Petre, duas figuras conhecidas da sociedade londrina (a intriga ficou conhecida por todos quando Petre cortou publicamente um cacho dos cabelos de Fermor). Ao escrever o poema, Pope lançou o modelo para os atuais escritores de artigos de fofocas: um batalhador da classe média que vasculha os círculos aristocráticos, embora mantenha uma distância irônica.

"Pope ficou rapidamente conhecido pelo seu desejo de lançar ataques impiedosos contra as pessoas que o ofendiam", conta Gee. "Desta forma, a aristocracia passou a achar importante tê-lo como aliado".

Público-alvo

Os leitores britânicos não precisavam recorrer somente à poesia épica para saciar o seu apetite pela fofoca. "The Spectator", considerada a mais sofisticada publicação da Londres do século 18, fazia a cobertura semanal dos acontecimentos políticos, literários e artísticos -e exibia também uma quantidade respeitável de artigos sobre escândalos sociais- em uma única página compacta.

"'The Spectator' discutia os novos hábitos adotados pelas pessoas, e se orgulhava de dar novos nomes a esses hábitos", explica Gee, enquanto folheia cuidadosamente uma compilação bem preservada de edições da revista. "Ela descrevia o tipo de penteado elaborado que as pessoas começavam a usar na ópera, e a seguir zombava de alguém que usava o tipo errado de peruca".

Com a sua abordagem erudita das celebridades e o seu tom típico de quem conhece bem o universo dessas pessoas, "The Spectator" tinha como alvo os leitores de classe média que usavam a publicação como uma referência para se aproximarem da classe alta, e também pessoas da alta sociedade ansiosas por se assegurarem de que sabiam tudo a respeito dos mais recentes podres dos seus contemporâneos. E, assim como os seus congêneres dos dias de hoje, os integrantes do público alvo mais freqüente da publicação eram também os seus mais confiáveis informantes: mulheres poderosas que adoravam espalhar boatos sobre as inimigas e adversários. "Havia uma competição entre as mulheres da alta sociedade para ver quem tinha a melhor fofoca", diz Gee. "Elas eram fantasticamente traiçoeiras e adoravam ver outras pessoas cair em desgraça".

No extremo oposto, panfletos como "Characters of the Presente Most Celebrated Courtesans" tinham como alvo o público da classe trabalhadora -criadas de copa e cozinha e prostitutas que pegavam a revista emprestada em bibliotecas- embora a aristocracia também os lesse com um prazer carregado de culpa.

Impresso em um papel bem mais barato do que o usado na impressão de "The Spectator", esses panfletos falavam exclusivamente sobre histórias de mulheres bem nascidas que caíram publicamente em desgraça.

Os leitores eram atraídos com títulos como "A História de Betty Bolaine, a Avarenta de Canterbury", e com desenhos grosseiros de mulheres acabadas em diversos estágios de ruína física -os equivalentes em bico de pena das fotos de Lindsay Lohan com o olhar turvado.

Preocupação moral

Assim como os atuais semanários sobre celebridades, "Courtesans" simulava preocupação e acuidade moral (vejam a recente descrição feita na "OK!" sobre a dissolução de Britney Spears como sendo "de partir o coração"), embora revelassem os escândalos. A respeito da senhora H_tt_n, a "Courtesans" diz: "Ela veste-se com roupas caras, é extravagante na indulgência do seu paladar, sendo violentamente viciada em vinho e bebidas fortes, que geralmente consome em excesso, muitas vezes até embebedar-se". A seguir a publicação lembra aos seus leitores que uma boa conduta é "uma perfeita medida de segurança contra todas as conseqüências indelicadas e fornicadoras".

Os autores de "Courtesans" tentaram mascarar as identidades das pessoas sobre as quais escreviam publicando apenas algumas letras dos seus sobrenomes. Parte da diversão dos leitores era preencher os espaços vazios nesses nomes. A cópia da "Courtesans" na Biblioteca Firestone revela que a senhora H_tt_n é a senhora Hutton: um leitor rabiscou a lápis as letras que faltavam.

Embora a "Courtesans" tenha saído há muito tempo de circulação, a "Spectator" do século 18 continua sendo publicada: ela evoluiu para a atual revista sobre a sociedade britânica "Tatler" (o nome original da publicação quando foi lançada, em 1709), e grande parte da sua sensibilidade hipócrita permanece intacta.

"Havia sempre um elemento de malícia e ironia", afirma Geordie Greig, editor da Tatler's. "Somos conhecidos como a revista que morde a mão que a alimenta".

Mas se as peripécias, ocorridas séculos atrás, de mulheres há muito esquecidas foram preservadas em pesquisas acadêmicas e romances contemporâneos, isso significaria que as futuras gerações lerão a respeito das travessuras de Paris, Lindsay e Britney nos séculos vindouros?

"Embora nada seja mais efêmero do que a fama", diz Gee, "não consigo imaginar que tão cedo nos esqueçamos de Paris Hilton e Lindsay Lohan". UOL

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