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04/09/2007

Cartas de enviado contradizem Bush sobre desmonte do exército iraquiano

The New York Times
Edmund L. Andrews*

Em Washington
Uma troca de cartas não revelada anteriormente mostra que o presidente Bush foi informado antecipadamente por seu principal enviado ao Iraque, em maio de 2003, do plano para "dissolver as forças armadas e as estruturas de inteligência de Saddam", um plano que o enviado, L. Paul Bremer, disse se referir ao desmonte do exército iraquiano.

Bremer forneceu as cartas ao "New York Times" na segunda-feira, após ler que Bush foi citado em um novo livro como tendo dito que a política americana era de "manter o exército intacto" mas que "não aconteceu".

O desmonte do exército iraquiano após a invasão americana atualmente é amplamente considerado como um erro, que incitou a rebelião entre centenas de milhares de ex-soldados iraquianos e dificultou ainda mais a redução do derramamento de sangue sectário e os ataques promovidos pelos rebeldes. Ao divulgar as cartas, Bremer disse que desejava refutar a sugestão no comentário de Bush de que o enviado debandou o exército sem o conhecimento e aprovação da Casa Branca.

Tyler Hicks/The New York Times 
Bremer, enviado de Bush ao Iraque, durante visita ao Museu Nacional de Bagdá, em 2003

"Nós devemos deixar claro para todos que estamos falando sério: que Saddam e os baathistas estão liquidados", escreveu Bremer em uma carta ao presidente em 22 de maio de 2003.

Após recontar os esforços americanos para remoção de membros do Partido Baath de Saddam das agências civis, Bremer disse a Bush que "repetiria este passo de forma ainda mais robusta" no desmanche das forças armadas iraquianas.

Um dia depois, Bush respondeu com uma breve carta de agradecimento. "Sua liderança é evidente", escreveu o presidente. "Você causou rapidamente um impacto positivo e significativo. Você conta com meu pleno apoio e confiança". No mesmo dia, Bremer, em Bagdá, emitiu a ordem para que as forças armadas iraquianas fossem debandadas.

Bush não mencionou a ordem para abolir as forças armadas e as cartas não mostram que ele aprovou a ordem ou mesmo sabia muito a seu respeito. Bremer se refere apenas vagamente ao seu plano na carta de três páginas e não ofereceu detalhes.

Em uma entrevista para Robert Draper, autor do novo livro, "Dead Certain", Bush soou como se tivesse se espantado com a decisão, ou pelo menos com a necessidade de abandonar o plano original de manutenção do exército.

"A política era de manter o exército intacto; isto não aconteceu", disse Bush ao entrevistador. Quando Draper perguntou ao presidente como ele reagiu quando soube que a política tinha sido mudada, Bush respondeu: "Eu não me lembro; eu certamente disse, 'esta é a política, o que aconteceu?'"

Bremer indicou que ficou irritado por meses enquanto outras autoridades do governo se distanciavam de sua ordem. "Isto não saía da minha cabeça", ele disse em uma entrevista por telefone na segunda-feira, acrescentando que enviou uma minuta da ordem para as autoridades no Pentágono e a discutiu "várias vezes" com Donald H. Rumsfeld, o então secretário de Defesa.

Um funcionário da Casa Branca, que falou sob a condição de anonimato porque a Casa Branca não está comentando o livro de Draper, disse que Bush entendeu a ordem e estava reconhecendo na entrevista para Draper que o plano original provou ser inviável.

"O plano era de manter o exército iraquiano intacto, isto é correto", disse o funcionário. "Mas quando Jerry Bremer anunciou a ordem, estava bem claro que o exército iraquiano não poderia ser reconstituído e o presidente entendeu isto. Ele reconheceu que era algo que não saiu como planejado".

Mas as cartas, somadas aos comentários de Bush, sugerem confusão dentro do governo em torno de algo que rapidamente provou ser uma decisão com repercussões explosivas.

De fato, a carta de Bremer para Bush é notável por sua referência quase indiferente a uma grande decisão a qual vários oficiais militares americanos no Iraque eram fortemente contrários. Algumas autoridades do governo, incluindo o então secretário de Estado, Colin L. Powell, teriam dito subseqüentemente que não souberam da decisão antecipadamente.

O general Peter Pace, na época o vice-chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, disse a uma reunião do Conselho de Relações Exteriores, em fevereiro de 2004, que a decisão de debandar o exército iraquiano foi tomada sem que o Estado-Maior das Forças Armadas fosse consultado. "Não nos foi pedido recomendação ou conselho", ele disse.

A referência na carta de Bremer a Bush se limita a uma sentença no final de um longo parágrafo em uma carta de três páginas. A carta dedicou muito mais espaço ao que Bremer descreveu como "uma expressão quase universal de agradecimento" do povo iraquiano "aos Estados Unidos e ao senhor em particular pela libertação do Iraque da tirania de Saddam". Ela prosseguiu lembrando de como Bremer foi beijado por um velho iraquiano que pensou que ele era Bush. Em seu livro de memórias de 2006, Bremer disse que informou às autoridades em Washington sobre seu plano, mas não mencionou a troca de cartas com Bush.

Na segunda-feira, Bremer deixou claro que estava descontente por ter sido retratado como uma espécie de renegado por vários ex-membros do governo.

Bremer disse que enviou uma minuta da ordem proposta em 9 de maio, pouco antes de partir para seu novo posto em Bagdá, para Rumsfeld e outras autoridades no Pentágono.

Entre aqueles que receberam a minuta da ordem estavam, segundo ele, Paul D. Wolfowitz, na época vice-secretário de Defesa; Douglas J. Feith, na época subsecretário de Defesa para políticas; o general David D. McKiernan, na época o chefe das forças da coalizão liderada pelos Estados Unidos no Iraque; e para o Estado-Maior das Forças Armadas.

Bremer disse que informou Rumsfeld sobre o plano "várias vezes" e que seu alto conselheiro de segurança em Bagdá, Walter B. Slocombe, o discutiu em detalhes com várias autoridades do Pentágono e com altos oficiais militares britânicos. Ele disse que recebeu comentários detalhados como resposta do Estado-Maior, não deixando dúvida em sua mente de que entenderam o plano.

"Eu poderia acrescentar que não foi uma decisão controversa", disse Bremer. "O exército iraquiano tinha desaparecido e a única dúvida era se reconvocaríamos o exército. Reconvocar o exército apresentaria dificuldades práticas e teria conseqüências políticas. O exército era o principal instrumento de repressão sob Saddam Hussein. Eu argumentaria que foi a decisão acertada".

McKiernan teria ficado descontente com o plano de Bremer de formar lentamente um novo exército iraquiano do zero, assim como outros oficiais americanos. Em seu encontro de despedida com Bremer em junho de 2003, ele pediu para que ele pensasse grande e fosse mais rápido em colocar em campo as novas forças armadas.

* Michael R. Gordon contribuiu com reportagem. George El Khouri Andolfato

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