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04/09/2007

Uma abordagem de baixa tecnologia para a questão da fertilidade: apenas relaxe

The New York Times
Randi Hutter Epstein
Médica
Sarah L. Berga dedicou a sua carreira a um dos tópicos mais acaloradamente discutidos na área da fertilidade: ficar grávida sem o uso de medicamentos caros. Ela é uma das poucas médicas-cientistas que investiga como o estresse crônico pode impedir algumas mulheres de ovular e como técnicas de relaxamento são capazes de ajudar essas mulheres.

Erik S. Lesser/The New York Times
Sarah L. Berga é chefe do departamento de obstetricia e ginecologia da Universidade de Emory
Mais precisamente, esses pesquisadores estão examinando como o estresse crônico altera os sinais cerebrais enviados ao hipotálamo, o órgão do tamanho de uma noz que atua como um mestre-de-cerimônias, supervisionando a delicadamente cronometrada dança hormonal. Ou, nas palavras de Berga, ela investiga "como o hipotálamo fala à pituitária que, por sua vez, fala ao ovário".

A sua pesquisa sugere que uma cadeia de eventos, começando com o estresse, leva a níveis reduzidos de dois hormônios cruciais para a ovulação. E os seus estudos publicados, pequenos, mas escrupulosos, estão começando a convencer os seus críticos.

Em um estudo com 16 mulheres, publicado em 2003 no periódico "Fertility and Sterility", Berga demonstrou que a ovulação foi restaurada em sete dentre oito mulheres que se submeteram à terapia comportamental cognitiva, contra apenas duas em oito que não se submeteram à mesma terapia. Em 2006, no periódico "The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism", ela informou que as mulheres que não ovulam apresentam níveis excessivos de cortisol, um hormônio do estresse, no fluido cerebral.

Berga falou recentemente sobre a sua pesquisa na sua sala na Universidade Emory.

Pergunta - Você estudou não apenas pessoas, mas também animais. O que esses estudos lhe revelaram sobre o estresse?

Resposta -
Antes de realizar o estudo com 16 mulheres, nós estudamos macacas. Descobrimos que quando apenas estressávamos as macacas, 10% delas paravam de menstruar. Mas quando combinávamos a isso exercícios e ração reduzida, 75% tornaram-se amenorréicas.

P - A seguir você conduziu um estudo similar no qual dois grupos de mulheres - um com ovulação normal, o outro com amenorréia relacionada ao estresse - exercitaram-se até o limite. O que você descobriu?
R -
Percebemos que, se a mulher está estressada quando começa a se exercitar, o corpo dela reage de forma diferente do de uma outra que não está cronicamente estressada e faz exercícios. Ao que parece, não só o exercício é mais estressante para mulheres já estressadas, mas ele certamente não as ajuda a reduzir os seus hormônios de estresse, o que, é claro, é um dos motivos que leva as pessoas a se exercitarem.

P - Atualmente você dirige um departamento de uma universidade de prestígio, que deve ajudá-la a promover a sua mensagem. Como a sua pesquisa foi recebida inicialmente?
R -
Com grande ceticismo. Atualmente há sem dúvida mais gente que endossa o nosso trabalho, mas existe com certeza um grupo que não acredita nele. O estresse crônico, seja ele emocional ou físico, sobrecarrega o corpo. Somos capazes de aceitar que o estresse está vinculado à doença cardíaca, mas não à fertilidade.

P - Você está dizendo que uma mulher que enfrenta um mês repleto de estresse pode estar prejudicando a sua fertilidade? A vida sem estresse não é impossível?
R -
Estamos falando sobre estresse crônico relacionado ao comportamento e à personalidade. As pessoas são feitas para suportar o estresse intenso. Isso faz parte da nossa vida. Estou dizendo que às mulheres, e aos homens, que é importante encontrar um equilíbrio e aprender a lidar com o estresse.

P - Parte do seu trabalho concentra-se nas pessoas que comem muito pouco ou que se exercitam demais. Não seria o estado nutricional o fator que prejudica as mulheres, e não o estado mental?
R -
A anorexia ou o excesso de exercício sem dúvida fazem com que as mulheres parem de menstruar. Mas eu acredito que muitas dessas mulheres se exercitam demais ou alimentam-se pouco para lidar com o estresse. Acredito que o tratamento do estresse subjacente tem mais probabilidade de encorajar as mulheres a relaxar, a comer e a exercitar-se de forma mais saudável, do que simplesmente dizer a elas que modifiquem a dieta ou o programa de exercícios.

P - Você espera que a sua pesquisa modifique a maneira como o tratamento da infertilidade é administrado? Como você gostaria de ver isso mudar?
R -
Idealmente, seria bom que médicos e pacientes entendessem o vínculo entre estresse e fertilidade de forma que eles soubessem quando oferecer algum tipo de intervenção. Por exemplo, a terapia comportamental cognitiva é um programa de 16 semanas relativamente simples e barato que às vezes acaba com a necessidade de uso de drogas e procedimentos caros e arriscados.

P - A impressão que se tem é que você é contrária ao uso de medicamentos para fertilidade, que são um componente necessário da fertilização artificial.
R -
Nós fazemos fertilização in vitro neste departamento. Gosto de pensar que oferecemos a tecnologia mais simples necessária para alcançar os resultados pretendidos. Creio que uma certa população de mulheres - as mulheres que são inférteis devido ao estresse - se beneficia menos da fertilização in vitro. Outras sem dúvida precisam recorrer a esses procedimentos e drogas. Eu também acredito que é fundamental que os médicos falem sobre os riscos das drogas e ajudem as pacientes a entender quando esses medicamentos são ou não necessários.

P - Você não estudou o feto tanto quanto os hormônios femininos, mas acredita que o estresse prejudique o feto?
R -
De fato, acredito que o estresse da mãe pode ser impresso para sempre no genoma fetal. Existem pesquisas bastante concretas com animais, feitas por outros cientistas, e alguns estudos altamente sugestivos feitos com humanos. Outros pesquisadores demonstraram que o estresse reduz os níveis de tiroxina, que controla a energia disponível. A mãe é a única fonte de tiroxina para o feto durante o primeiro trimestre da gravidez, e a principal fonte durante os outros dois trimestres. E a tiroxina é absolutamente vital para o desenvolvimento apropriado do cérebro do feto. Creio que os médicos deveriam informar às mulheres que se o componente maternal é estressado, o componente fetal também ficará exposto aos hormônios maternais de estresse.

P - Na década de 1940, analistas freudianos diziam às mulheres inférteis que pensamentos anti-maternais ocultos as tornavam estéreis. Mais tarde as feministas atacaram essa teoria. Você se considera uma continuadora dessa prática, ou acha que as suas idéias são completamente diferentes?
R -
Naquela época eles sequer conheciam os mecanismos e intuíram os vínculos, mas não estavam todos errados. Eles estavam mais próximos da verdade do que gostaríamos de acreditar. A verdade é que se a pessoa não estiver em harmonia consigo própria e com a sua cultura, é uma pessoa estressada. Isso não é totalmente diferente do que disse Freud.

P - Você insiste em que as suas pacientes façam terapia comportamental cognitiva antes de se submeterem a uma terapia à base de medicamentos?
R -
Só posso abordar o problema dando sugestões. Me dediquei à saúde feminina para proteger a autonomia das mulheres, de forma que a última coisa que gostaria de fazer seria tomar uma decisão pelas minhas pacientes sem ouví-las. No fim das contas, quem arca com as conseqüências mais imediatas é o casal que está tentando uma gravidez. UOL

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