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05/09/2007

Bush muda os referenciais para medição de progresso no Iraque

The New York Times
David E. Sanger

Em Washington
Com o Congresso liderado pelos democratas prestes a medir o progresso no Iraque de acordo com o fracasso da atuação do governo central, o presidente Bush está propondo um novo referencial, se concentrando nas novas alianças americanas com as tribos e grupos locais que Washington antes temia que dividiriam o país.

Tal mudança na ênfase ficou implícita na decisão de Bush de ignorar Bagdá em sua viagem de oito horas ao Iraque, parando na província de Anbar, antes o coração da insurreição sunita anti-americana. Ao se encontrar com líderes tribais que há um ano eram considerados inimigos mas que agora estão enfrentando a Al Qaeda na Mesopotâmia, um presidente que apresentou quatro ou cinco estratégias para conquistar os iraquianos - dependendo de como alguém estiver contando - pode estar prestes a apresentar outra.

Não se sabe se os democratas que controlam o Congresso estarão com humor para aceitar a mudança dos referenciais de medição. Na terça-feira, ocorreram audiências contenciosas em torno do relatório do Escritório de Supervisão do Governo (GAO) que, como na Avaliação da Inteligência Nacional do mês passado, pintou um retrato pessimista do futuro do Iraque.

Foram a Casa Branca e o governo iraquiano, e não o Congresso, que primeiro propuseram o estabelecimento de marcos para o Iraque que agora estão resultando em avaliações negativas, algo que gera perguntas sobre o motivo para o governo agora estar declarando que o desempenho do governo não é a melhor medição de mudança.

A Casa Branca insiste que a nova aproximação entre Bush e os líderes sunitas apenas amplia seu apoio consistente ao primeiro-ministro do Iraque, Nouri al-Maliki.

Mas alguns dos críticos de Bush consideram a mudança como algo bem mais significativo, dizendo que acreditam que representa um reconhecimento a contragosto por parte da Casa Branca de algo que estes críticos afirmam há muito tempo - que o Iraque nunca se tornará o tipo de Estado coeso, unificado, que poderia se tornar um farol democrático para o Oriente Médio.

"Eles chegaram ao inevitável", disse Peter W. Galbraith, um ex-diplomata americano cujo livro de 2006, "The End of Iraq" (o fim do Iraque), argumentava que Bush estava tentando reconstruir uma nação que nunca existiu de fato, porque sunitas, xiitas e curdos nunca adotaram uma identidade iraquiana comum. "Ele finalmente reconheceu tal fato e agora está tentando trabalhar de acordo", disse Galbraith na terça-feira.

Ainda assim, como as demais estratégias adotadas por Bush, esta está repleta de riscos.

Não há garantia de que a disposição dos sunitas em Anbar de se aliarem aos Estados Unidos na causa comum do combate à Al Qaeda na Mesopotâmia poderá ser reproduzida em outras partes do Iraque. E os repórteres que acompanham as unidades que trabalham para alistar o apoio dos xeques sunitas escreveram, em relatos vívidos, que há muitos motivos para questionar quão sustentável será a lealdade dos sunitas.

Os xeques e seus seguidores foram impedidos de ingressar nas forças armadas iraquianas e não se sabe se o governo de Al-Maliki permitirá que um grande número de sunitas se aliste no futuro. Isto cria o risco de que os grupos sunitas, antes melhor treinados e melhor armados, no final se voltem contra o governo central ou seus patrocinadores, as forças armadas americanas.

E há a preocupação de que, mesmo se Bush for bem-sucedido na promoção dos sunitas "moderados" em Anbar e dos xiitas "moderados" no sul, o resultado será exatamente o tipo de Estado dividido - com todo seu potencial de guerra civil em plena escala - que a Casa Branca há muito insiste que deve ser evitado.

"Estes são os riscos reais e eles explicam em parte por que a estratégia não foi tentada antes, em 2006", disse Peter D. Feaver, um professor da Universidade Duke que, como membro da equipe do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca até sua saída neste ano, foi um dos arquitetos do "Novo Caminho à Frente", o plano apresentado por Bush em janeiro.

"Mas o primeiro princípio que adotamos na nova estratégia é o de que o Iraque é um mosaico", disse Feaver, "e que os riscos de abordá-lo desta forma valem a pena, dada a alternativa".

A Casa Branca insiste que ao voar para as áreas tribais, Bush não está minando Al-Maliki nem o liberando. Em vez disso, funcionários da Casa Branca disseram que desde seu discurso em janeiro, Bush tem buscado uma estratégia dupla, pressionando por mudanças de "cima para baixo" por parte de Bagdá assim como de "baixo para cima" por parte das províncias.

O atual foco nas províncias, eles dizem, reflete o fato de que a Casa Branca superestimou o que Al-Maliki e seu governo poderiam conseguir, assim como subestimou o profundo ódio que as tribos locais desenvolveram pela Al Qaeda na Mesopotâmia, o grupo extremista árabe sunita local que as agências de inteligência americanas concluíram ser liderada por estrangeiros. A extensão de seus laços com a rede de Osama Bin Laden não é clara.

"Não quer dizer que eles amem os americanos", disse um alto funcionário do governo. "É que a mão da Al Qaeda é pesada demais, matando sunitas apenas por estarem fumando um cigarro. No final, esta pode ser a melhor oportunidade que temos".

Enquanto seguia do Iraque para a Austrália na segunda-feira, Bush se referiu os líderes sunitas com os quais se encontrou nos desertos de Anbar do modo mais positivo possível.

"Eles foram profusos em seus elogios à América", ele disse aos repórteres a bordo do Força Aérea Um. Ele disse que eles "tomaram a decisão de que não querem viver sob a Al Qaeda", acrescentando que "estão cheios dela".

Bush, é claro, fez elogios públicos semelhantes a quase todo líder iraquiano com o qual se encontrou, mesmo os poucos líderes agora desacreditados pelos funcionários da Casa Branca como não confiáveis, impotentes ou hipócritas.

Mas o próprio Bush disse a associados que, no final, a experiência no Iraque dependerá da vontade de Al-Maliki e seus assessores de realmente dividirem o poder, ou da determinação deles de realmente reprimirem os sunitas.

Mas, por ora, a Casa Branca está argumentando que as relações que estão desenvolvendo em locais como Anbar são mais importantes do que manter um placar das leis aprovadas ou estagnadas em Bagdá. Se tal argumento será suficiente para manter os poucos republicanos indecisos a bordo poderá determinar se Bush terá um pouco mais de tempo para tentar sua mais recente estratégia. George El Khouri Andolfato

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