UOL Notícias Internacional
 

05/09/2007

China tenta restaurar a confiança de comunidade internacional nos seus produtos

The New York Times
David Barboza
Em Xangai
Nas últimas semanas, Pequim deu início à sua mais orquestrada ofensiva global de relações públicas desde a epidemia de síndrome respiratória aguda grave (Sars, na sigla em inglês).

Diplomatas e autoridades governamentais estão concedendo entrevistas coletivas à imprensa sobre a segurança dos alimentos e de outros produtos chineses. Eles estão se desculpando em conversações de alto nível junto a autoridades ocidentais e oferecendo a jornalistas estrangeiros visitas a laboratórios de segurança do governo.

Mas o governo também repeliu as críticas de que os produtos chineses são falsificados ou perigosos, ressaltando os problemas com os produtos de exportação de outros países. E, na última medida para responder a uma série de recalls bastante divulgados pela imprensa e de escândalos ocorridos neste ano envolvendo a segurança dos seus produtos, Pequim criou um novo sistema de recall de alimentos e brinquedos na semana passada, e anunciou uma "guerra especial" contra os produtos de baixa qualidade e os fabricantes que operam sem licença.

Joe Tan/Reuters - 22.ago.2007 
Chineses trabalham em fábrica de brinquedos em Guangzhou, sudeste de Pequim

Comandando um exército de inspetores, o governo anunciou que já deu início a inspeções de âmbito nacional em fazendas, supermercados, restaurantes e fábricas em uma tentativa de erradicar produtos falsificados e de má qualidade.

Os reguladores dizem que nos últimos meses foram feitos avanços no sentido de reprimir fábricas de medicamentos falsificados, produtores de brinquedos sem licença e redes criminosas que produzem de tudo, de remédios falsificados contra a gripe aviária, a Viagra e creme dental contaminado.

Na semana passada, os reguladores também anunciaram que os alimentos cujas embalagens não trouxerem um rótulo que os certifique como seguros não poderão ser exportados.

"Esta é uma guerra especial para proteger a segurança e os interesses da população em geral, bem como para zelar pelo rótulo 'Made in China' e pela imagem do país", disse em uma entrevista coletiva à imprensa na última sexta-feira o vice-primeiro-ministro Wu Yi, uma das mais importantes autoridades do governo da China.

Procurando convencer a comunidade internacional do seu compromisso para com a melhoria da segurança dos produtos após uma série de escândalos envolvendo ingredientes contaminados de rações de animais de estimação, pasta de dentes tóxica e brinquedos cobertos de tinta à base de chumbo, entre outros casos, na quinta-feira passada o governo ofereceu aos jornalistas estrangeiros visitas acompanhadas a uma fábrica de brinquedos e a um laboratório de testes de brinquedos na província de Guangdong, onde é produzida a maior parte dos brinquedos do país - e do mundo.

O governo espera que as visitas demonstrem que novas medidas de segurança foram de fato implementadas.

As ações drásticas e as declarações duras sugerem que a China está cada vez mais preocupada com a possibilidade de que sejam impostas sanções comerciais contra o país e que haja maiores estragos à sua imagem internacional até 2008, quando Pequim sediará as Olimpíadas.

Mas o governo também mostrou que está determinado a rebater as acusações dos críticos dos produtos da sua próspera indústria de exportação. Pequim rotulou várias desses críticos de protecionistas comerciais.

Na semana passada, por exemplo, a China bloqueou a importação de material norte-americano para embalagem de madeira, alegando que os seus inspetores descobriram que os lotes importados estavam contaminados com "vermes e outras criaturas".

Esta foi a mais recente medida do gênero em um ano durante o qual os reguladores chineses rejeitaram as importações de carne norte-americana, de pescado indonésio e de outros produtos das Filipinas, da Coréia do Sul, da Alemanha, da França e da Espanha, alegando que esses países exportam produtos de má qualidade ou contaminados, incluindo a água mineral Evian, que segundo as autoridades chinesas está contaminada com níveis elevados de bactérias.

Mas os especialistas dizem que os reguladores locais estão enfrentando desafios assustadores ao tentarem reformar um sistema regulador corrupto e ineficiente que está mal equipado para controlar um mercado repleto de operações e de empresários sem licença, desejosos de burlar a lei para obter mais lucros.

"A realidade é que este é um problema amplo, envolvendo centenas de milhares de fábricas, que são difíceis de se policiar", explica Arthur Kroeber, analista senior da China e editor do periódico trimestral "The China Economic Quarterly".

O governo deu também início a uma campanha voltada para o mercado doméstico.

Nas últimas semanas, a maior rede estatal de televisão de Pequim passou a transmitir um programa especial chamado "Believe in Made in China" ("Acreditem no 'Feito na China'"), que traz entrevistas com reguladores, relatórios das maiores companhias chinesas e segmentos sobre "estrangeiros que compram produtos chineses".

Uma propaganda do programa chamou-o de "uma luta para salvar a reputação do Made in China". E foi assim que vários integrantes do governo rotularam esse tipo de iniciativa.

Porém, a maior parte dos esforços da China tem como alvo a comunidade internacional.

"O governo está levando a coisa muito, muito a sério, e vocês verão resultados concretos até o final deste ano", assegurou Kuang Weilin, vice-cônsul-geral em Nova York, durante uma entrevista coletiva a repórteres ocidentais e chineses em Manhattan na última quinta-feira. "As autoridades serão responsabilizadas pelo que acontecer", disse ele, referindo-se às autoridades locais que muitas vezes impedem a implementação das regulamentações nacionais.

Pequim insiste em dizer que as medidas não se constituem apenas em retórica; e que já se presenciam progressos. E embora a China há muito insista em dizer que 99% das exportações do país para os Estados Unidos, a Europa e o Japão são seguras, o governo reconheceu em determinadas ocasiões que existem grandes problemas quanto à segurança da produção. Depois que investigadores do governo descobriram que companhias chinesas exportaram ingredientes contaminados de rações de animais de estimação e brinquedos com tinta contaminada, eles fecharam fábricas e chegaram até a prender gerentes.

Mas os recalls continuam ocorrendo, não apenas nos Estados Unidos, mas em uma quantidade crescente de outros países.

Há duas semanas, por exemplo, a Nova Zelândia disse que estava investigando relatórios sobre os chamados "pijamas químicos", roupas feitas na China que, de acordo com alguns cientistas, contêm índices perigosos de formaldeídos.

E na semana passada o Canadá anunciou que recolheria milhares de lápis feitos na China por temer que eles contenham tinta com excesso de chumbo.

Mas foi a segurança dos alimentos que Pequim escolheu como prioridade. O governo afirma que pretende investir US$ 1,1 bilhão para melhorar a supervisão da segurança dos alimentos e dos remédios até 2010. O governo disse ainda que segundo o novo sistema de recall anunciado na semana passada os produtores serão responsabilizados pelos produtos que representarem riscos à saúde pública.

O governo chegou até a divulgar um longo documento sobre segurança dos alimentos no ano passado, e disse que passaria a oferecer recompensas a quem denunciasse os maus produtores.

Os reguladores lançaram uma série de novas regulamentações e iniciativas nos últimos meses, incluindo uma promessa de criar padrões nacionais para produtos como óleo de cozinha e cobertura de bolos.

E se alguém duvidar da segurança dos alimentos durante as Olimpíadas, Pequim garante que já está agindo: ratos brancos de laboratório serão usados para testar a maior parte dos alimentos servidos aos atletas, e porcos para a produção de carne estão sendo criados de forma orgânica em locais secretos. A tecnologia de sistema de posicionamento global, ou GPS, está sendo utilizada para rastrear a localização de alguns animais.

Mas é evidente que ainda há muito trabalho a ser feito em casa. Quando o "China Daily", o jornal de língua inglesa do país, perguntou recentemente aos consumidores se estes acreditavam que a maior parte dos alimentos na China é segura, 41% dos entrevistados responderam que não. UOL

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