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05/09/2007

Tempos difíceis ajudam líderes iranianos a exercer controle mais rígido sobre a população

The New York Times
Michael Slackman
Em Teerã
Os aluguéis estão disparando, a inflação paira acima dos 17% e dez milhões de iranianos vivem abaixo da linha de pobreza. A polícia informou ter fechado 20 barbearias em Teerã na semana passada porque elas não ofereciam cortes de cabelo apropriados. As mulheres foram proibidas de andar de bicicleta em diversos locais, à medida que recrudesce uma onda de repressão às liberdades sociais.

Há meses os cidadãos iranianos comuns vêm suportando dificuldades econômicas, repressão política e isolamento internacional, enquanto as principais autoridades do país continuam desafiadoras no que diz respeito ao programa nuclear do Irã. Mas em um país cujos líderes enxergam a segurança nacional, a estabilidade do governo e os valores islâmicos como fatores inextricavelmente entrelaçados, os problemas que geralmente constituir-se-iam em ameaças ao governo são vistos, em vez disso, como uma oportunidade para garantir o controle político.

Newsha Tavakolian/Polaris/The New York Times 
Mulher faz compras em bazar em Teerã, no Irã, país que passa por dificuldades econômicas

Paradoxalmente, os equívocos econômicos do presidente Mahmoud Ahmadinejad e a animosidade provocada no Ocidente pela sua postura agressiva quanto à questão nuclear ajudaram os líderes do Irã a conter aquilo que eles vêem como influências estrangeiras corruptoras, com a intensificação do isolamento econômico e político do país, segundo disseram economistas, diplomatas, analistas políticos, empresários e clérigos entrevistados nas últimas duas semanas.

As pressões exercidas pelo Ocidente sobre o Irã devido ao programa nuclear do país e ao papel exercido por Teerã no Iraque, incluindo intensas sanções econômicas, também fortaleceram os elementos favoráveis à adoção de uma linha mais dura.

"O líder teme que qualquer tentativa de tornar o país mais administrável conduza a reformas e que isto mine a sua autoridade", afirma Saeed Leylaz, economista e ex-membro do governo.

A tentativa de manter as portas do Irã hermeticamente fechadas para o Ocidente ficou evidente no último domingo, quando Ahmadinejad anunciou que o Irã fabricou 3.000 centrífugas e zombou do Ocidente por este tentar obrigar o Irã a cancelar as suas operações de enriquecimento de urânio e a desacelerar o seu programa nuclear.

Na última segunda-feira, o aiatolá Ali Khamenei, o líder supremo do país, usou a pressão ocidental para mobilizar o sentimento público. "O Irã derrotará essas potências bêbadas e arrogantes utilizando os nossos métodos sagazes e inteligentes", disse ele a um grupo de estudantes, segundo anunciou a televisão estatal.

As afirmações cáusticas foram vistas aqui por diplomatas ocidentais e analistas políticos como uma tentativa do presidente de solapar meses de cuidadosas negociações entre os elementos conservadores mais pragmáticos da liderança do país e a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), que, apenas alguns dias atrás, insistiu em afirmar que o Irã está cooperando mais. Segundo um diplomata ocidental, a mensagem foi clara.

"Eles estão convencidos de que o resto do mundo está tentando pressionar o Irã para impedir o país de crescer", disse o diplomata, que solicitou que o seu nome não fosse divulgado para que a sua capacidade de trabalhar no Irã não fique comprometida. "Eles acreditam que se o Irã fizer uma concessão ao Ocidente no setor nuclear, esse será o primeiro passo para a mudança do regime".

O componente econômico da abordagem isolacionista do Irã teve início com a eleição de Ahmadinejad dois anos atrás. O governante implementou uma série de decretos erráticos que, segundo ele, tinham como objetivo ajudar os pobres, mas que, em vez disso, tornaram a vida destes mais difícil.

Recentemente, o diretor do banco central e os ministros do Petróleo e da Indústria renunciaram, advertindo que o país está rumando para problemas. As decisões tomadas pelo presidente afugentaram os investidores, neutralizando os esforços no sentido de abrir o Irã para os mercados externos, dizem os analistas.

A liderança do país tem conseguido aliviar parte do sofrimento devido a uma receita sem precedentes obtida com a venda de petróleo. Os entrevistados concordaram que, no final das contas, o presidente continuou desimpedido para atuar à sua maneira, já que conta com o apoio de Khamenei.

"A única coisa que mantém Ahmadinejad no poder é o apoio da liderança", afirma Muhammad Atrianfar, editor de dois jornais que foram fechados e aliado do ex-presidente, Ali Akbar Hashemi Rafsanjani. "Se a liderança deixasse de apoiá-lo, ele seria imediatamente impedido e destituído do cargo".

Ninguém acusa a liderança de promover deliberadamente o caos econômico; em vez disso, os economistas daqui dizem que Ahmadinejad mostra-se incapaz de entender os efeitos das suas políticas. "Ele sente a dor dos pobres, mas não tem nenhuma solução para o problema", opina Ali Rashadi, um economista independente. "Ahmadinejad está demolindo um sistema que levou 25 anos para ser montado".

Vários jornalistas, acadêmicos e ex-autoridades governamentais dizem acreditar que Ahmadinejad tem sido mais ativo e afobado na área econômica do que Khamenei esperava. Mas este se sente confortável com Ahmadinejad porque pode contar com o presidente para preservar o sistema e cancelar mudanças políticas, econômicas e sociais que os conservadores temiam que fossem passos insidiosos rumo a uma "revolução de veludo", segundo disseram os entrevistados em Teerã.

Um embaixador ocidental que atua aqui disse que o líder supremo e os serviços de segurança decidiram prender Haleh Esfandiari, um acadêmico iraniano-americano, em parte como uma advertência a iranianos de dentro do país que expressaram desagrado com a direção seguida pelo Irã.

"Eles acreditam que, pouco a pouco, nós nos afastamos dos valores islâmicos", afirma Mohsen Kadivar, um clérigo que recentemente foi demitido do seu emprego de professor da Universidade de Teerã. "Eles vêem em Ahmadinejad o homem que fará com que o Irã volte a se aproximar desses valores. O que importa para eles é ficar no poder".

Antes das eleições Ahmadinejad fez a sua campanha como se fosse uma espécie de Robin Hood muçulmano, prometendo promover uma redistribuição da riqueza obtida com o petróleo, tirando dos ricos para dar aos pobres. Um dos seus primeiros decretos foi ordenar aos bancos que abaixassem as taxas de juros de 17% para 12%. Essa ordem, como outras, foi um tiro pela culatra, já que fez com que a obtenção de empréstimos ficasse mais difícil.

Em um outro episódio, Ahmadinejad decidiu que o preço do cimento estava muito elevado, e por isso ordenou que fosse abaixado. Rashadi, o economista, diz que o decreto assustou os investidores que pretendiam construir novas fábricas de cimento por todo o país. Segundo Rashadi, os constantes insultos dirigidos pelo presidente às bolsas de valores abalaram a confiança do investidor. Ahmadinejad disse que as bolsas encorajam os ricos a investir em imóveis, inflacionando o valor das propriedades.

"O meu rendimento não cobre o custo de vida", queixa-se Hassan Khalili, que aluga um pequeno apartamento em uma vila perto de Vardan, uma tranqüila comunidade no sopé de uma montanha de cerca de 9.000 moradores e que fica a cerca de uma hora de Teerã. "Achei que as coisas iriam melhorar no governo Ahmadinejad, mas isso não aconteceu".

Os economistas locais dizem que, com a renda obtida com o petróleo, o governo foi capaz de, no curto prazo, escapar de um colapso econômico, tendo gasto US$ 60 bilhões em subsídios e em um aumento maciço das importações - embora isso tenha prejudicado a indústria nacional.

As receitas obtidas com o petróleo também ajudaram a aumentar o apoio ao governo devido ao enriquecimento de uma nova classe dominante composta de membros da Guarda Revolucionária e de integrantes da milícia Basij, que estão presentes em quase todos os setores da economia e, agora, do governo.

As políticas econômicas do governo também beneficiaram vários proprietários de imóveis, porque os valores das propriedades dispararam. Há três anos, por exemplo, um apartamento de quatro quartos em um bom bairro de Teerã era vendido por US$ 200 mil. Hoje, o mesmo imóvel vale mais de US$ 1 milhão.

Mehdi Panahi mora na zona central de Teerã e tem uma pequena loja nas montanhas situadas no norte da cidade, onde muita gente caminha e relaxa nos finais de semana. Ele diz que teve que aumentar os preços em 20% desde março porque o aluguel que paga dobrou no ano passado. O preço do óleo de cozinha subiu 50%, o da massa de tomate 70% e o dos laticínios 70%.

No entanto, apesar do atual clima de medo e cautela, ele insiste: "É claro que estou otimista. Qual o motivo para não se estar otimista?".

O transtorno econômico dos últimos meses foi acompanhado de uma vasta onda de repressão. As autoridades prenderam proeminentes intelectuais americanos-iranianos, suprimiram o movimento estudantil, cancelaram liberdades sociais, expurgaram os departamentos das universidades, fecharam jornais e passaram a marginalizar figuras políticas outrora poderosas, como o ex-presidente Rafsanjani, que está fora de sintonia com a atual tendência.

Um dos indivíduos presos foi o ex-negociador nuclear, Hossein Mousavian, que já foi uma figura importante no governo. Ele foi acusado de espionagem em maio deste ano.

A repressão é calibrada. Estudantes e ativistas do movimento de defesa dos direitos das mulheres foram encorajados a deixar o país, caso não queiram enfrentar maiores pressões. A idéia é mandar uma mensagem sem, entretanto, disseminar muito a dor da repressão.

Como resultado, as ruas estão calmas, mas existe um sentimento reprimido de intranquilidade e confusão. As pessoas geralmente dizem que a vida anda boa, e até melhor, com este presidente - em vez de apresentarem um rol de reclamações.

Na semana passada, Ahmadinejad participou de uma conferência de líderes religiosos no norte de Teerã. Ali Akhbar Akhbari, a sua mulher e duas filhas novas moram em uma tenda situada a um quarteirão do centro de convenções onde ocorreu a conferência. Eles disseram que não têm onde morar e que recolhem garrafas nas ruas para obter dinheiro para a alimentação. Marziah, 13, e Roziah, nove, dormem em uma pequena barraca decorada com os personagens dos desenhos animados Looney Tunes.

"Ninguém os ajudará", grita Valioalah Ghiyasi, 60, enquanto caminha pela rua, com as mãos enfiadas nos bolsos do seu casaco esportivo. Ele tira um contracheque do bolso, mostrando o seu próprio salário minúsculo de funcionário público, o equivalente a US$ 131 mensais.

"Antes a situação era melhor", afirma. "A minha mulher tem câncer e não tenho dinheiro para comprar remédios. Não consigo pagar o aluguel há cinco meses. O meu aluguel é de US$ 250 por mês. Não sei o que fazer. Estou mendigando".

O efeito generalizado das políticas de Ahmadinejad podem ser vistos na vila de Vadan. De repente, os preços dos imóveis subiram tanto que um morador local, Ghalan Abbas Mahmoodi, foi capaz de abrir uma imobiliária. Os fazendeiros estão vendendo as suas terras, e os ricos de Teerã têm construído mansões nas montanhas, com paisagens magníficas do interior. Para aqueles que não têm terras e que vêem os aluguéis dispararem, como é o caso de Khalli, a situação é quase catastrófica.

Mahmoodi, o corretor de imóveis, vê as coisas de maneira diferente. "À medida que a minha renda aumenta, o meu poder de compra também cresce", afirma.

Embora Ahmadinejad tenha perdido uma grande dose de apoio político dentro do sistema, ele não dá mostras de desânimo. "Há um açougueiro honrado no nosso bairro que está consciente de todos os problemas do povo", disse o presidente. "E eu também obtenho junto a ele importantes informações econômicas". UOL

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