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06/09/2007

Os livros estão fora de moda?

The New York Times
Brad Stone
Em São Francisco
Os arautos da tecnologia vêm anunciando a emergência dos livros eletrônicos há tanto tempo quanto prevêem o surgimento dos carros voadores e dos vídeo-fones. Mas essa é uma idéia que nunca se tornou popular entre os compradores de livros.

Neste outono, duas novas ofertas devem testar se os consumidores realmente desejam substituir uma tecnologia utilizada pela humanidade há centenas de anos: o livro de papel.

Em outubro, a vendedora online Amazon.com revelará o Kindle, um leitor de livros eletrônicos que é objeto de especulação da indústria há um ano, de acordo com diversas pessoas que testaram o dispositivo e que conhecem os planos da Amazon. O Kindle será vendido por um valor entre US$ 400 e US$ 500, e funcionará por meio de uma conexão sem fios a uma loja de livros eletrônicos no site da Amazon.

Isso é um avanço significativo em relação aos dispositivos mais antigos de livros eletrônicos, que precisam ser conectados a um computador a fim de que se possa baixar livros ou artigos.

Também neste outono, o Google pretende começar a cobrar dos usuários pelo acesso online pleno a cópias digitais de certos livros que estão no seu banco de dados, segundo indivíduos que estão a par desse plano. As editoras estabelecerão com o Google os preços para os seus próprios livros e as fatias dos lucros. Até o momento o Google só disponibilizou aos seus usuários trechos limitados dos seus livros sobre os quais incidem direitos autorais.

A Amazon e o Google se recusam a tecer comentários sobre os seus planos, e não é improvável que nenhuma das duas empresas obtenha com tais iniciativas uma parcela significativa do setor de livros, cujo valor anual total é de US$ 35 bilhões. Mas esses novos serviços, de dois pesos-pesados da Internet, podem ajudar a descobrir se os consumidores realmente desejam ler livros em telas digitais, em vez de em polpa processada de madeira.

"Os livros representam um bom valor para os consumidores. Estes podem exibi-los e emprestá-los ou doá-los aos amigos. Esses consumidores entendem o modelo do negócio", afirma Michael Gartenberg, diretor de pesquisas da Jupiter Research, que está cético quanto à possibilidade de um mercado de livros eletrônicos surgir tão cedo.

"Nós lançamos dispositivos de livros eletrônicos no mercado há mais de uma década, e o retorno do investimento sempre parece se situar em algum ponto distante do futuro", diz ele.

Essa história desapontadora remonta ao final da década de 1990, quando empresas novas do Vale do Silício criaram o Rocketook e o SoftBook Reader, dois aparelhos maciços, dotados de baterias problemáticas, que não deslancharam devido a vendas minguadas e a uma quantidade limitada de material literário. Não é de se admirar que os livros eletrônicos mais vendidos na época tenham sido os da série "Jornada nas Estrelas".

As esperanças em relação aos livros eletrônicos ressurgiram no ano passado com o lançamento do amplamente propagandeado Sony Reader. O aparelho de US$ 300 da Sony, do tamanho de uma brochura, traz uma tela de seis polegadas, uma memória suficiente para armazenar 80 livros e uma bateria suficiente para virar 7.500 páginas, segundo a companhia. Ele usa tecnologia de tela da E Ink, uma companhia com sede em Cambridge, no Estado de Massachusetts, que emergiu do Laboratório de Mídia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). A E Ink fabrica telas digitais de baixo consumo que imitam de forma surpreendente o papel tradicional.

A Sony não revela o número de aparelhos vendidos, mas o Reader aparentemente teve um desempenho bom o suficiente para que a empresa recentemente intensificasse as propagandas do aparelho em várias grandes cidades norte-americanas.

"Os leitores digitais não são um substituto do livro impresso; o que eles substituem é uma pilha de livros impressos", afirma Ron Hawkins, vice-presidente de sistemas de leitores portáteis da Sony. "As pessoas usam o nosso dispositivo enquanto se deslocam, no metrô e nos aeroportos".

As editoras de livros também parecem estar se preparando para o mesmo tipo de impacto que atingiu o setor musical quando a Apple lançou a simbiótica combinação de iPod e o seu serviço online iTunes. Neste ano, com o Reader da Sony atraindo certa atenção e o dispositivo para livros eletrônicos da Amazon prestes a ser lançado, a maioria das grandes editoras acelerou a conversão dos seus títulos para formatos eletrônicos.

"Tem havido uma agitação enorme em torno dos livros eletrônicos nos últimos seis a 12 meses, e agora estamos disponibilizando um número bem maior de títulos", afirma Matt Shatz, vice-presidente de publicações digitais da Random House, que pretende contar com cerca de 6.500 livros eletrônicos até 2008. A editora disponibilizou aproximadamente 3.500 títulos nos últimos anos.

A Amazon mostrou o Kindle às editoras no ano passado, e adiou várias vezes o lançamento do dispositivo. No outono passado, uma fotografia do aparelho e algumas das suas especificações vazaram para a Internet quando a companhia solicitou junto à Comissão Federal de Comunicações a aprovação do seu modem sem fio, que operará em uma rede de alta velocidade EVDO.

Muitas pessoas que viram o Kindle disseram que a principal inovação do dispositivo está na sua capacidade de baixar livros e periódicos, e de navegar na Web, sem que o usuário conecte-se a um computador. Eles afirmaram ainda que a Amazon acrescentará algumas ofertas gratuitas ao aparelho, como livros de referência, e oferecerá aos consumidores uma lista de opções de assinatura que incluirão grandes jornais como "The New York Times", "The Wall Street Journal" e o francês "Le Monde".

O aparelho tem também um teclado, de forma que os usuários podem tomar notas enquanto lêem ou navegar na Web para verificar algo que os interesse. Um disco giratório e um indicador de progresso próximo à tela principal auxiliarão os usuários a navegar pelas páginas e textos da Web.

As pessoas familiarizadas com o Kindle reclamaram de algumas coisas. O aparelho conta com um navegador da Web, mas a experiência de utilizá-lo revelou-se ruim, porque a tela do Kindle, também feita pela E Ink, não exibe vídeos ou cores.

Alguns também reclamaram do fato de a Amazon estar usando um formato de livro eletrônico cujos direitos autorais pertencem à Mobipocket, uma companhia francesa adquirida pela Amazon em 2005, em vez de adotar o padrão aberto de livros eletrônicos apoiado pela maioria das editoras e por companhias de alta tecnologia como a Adobe.

Isso significa que os donos de outros dispositivos de livros digitais, como o Sony Reader, não serão capazes de utilizar os livros comprados na Amazon.com.

No entanto, vários executivos do universo editorial vêem a entrada da Amazon no mercado de livros eletrônicos como um grande teste para a idéia antiga segundo a qual um dia os livros e os jornais serão lidos em dispositivos digitais.

"Este não é o livro eletrônico do seu avô", afirma um executivo do setor editorial, que não permitiu que o seu nome fosse revelado porque a Amazon faz com que os seus parceiros assinem acordos de sigilo. "Se esses caras não conseguirem fazer com que isso funcione, não vejo esperanças no horizonte".

Já o Google não pretende lançar um dispositivo eletrônico para a leitura de livros. A sua nova oferta permitirá que os usuários paguem uma fração do preço de um livro tradicional para ler o texto online. Nos últimos dois anos, como parte do Programa Google de Parceria de Pesquisas de Livros, algumas editoras contribuíram com versões eletrônicas dos seus livros para o banco de dados do Google, mediante a promessa de que os lucros futuros serão compartilhados.

O serviço poderia ser especialmente útil para estudantes e pesquisadores que encontram as informações que necessitam por meio de uma pesquisa no Google, mas é provável que ele também inclua material para leitura de lazer. O serviço não faz parte da iniciativa chamada Projeto Google de Pesquisa de Livros de Bibliotecas, que está digitalizando os acervos de algumas bibliotecas. Esse programa enfureceu as editoras, e gerou vários processos relacionados a direitos autorais.

Mas os programas do Google e da Amazon estão gerando atenção, e um certo ceticismo, das tradicionais redes de livrarias. A Barnes & Nobles, a maior vendedora de livros nos Estados Unidos, já investiu anteriormente no criador de livros eletrônicos NuvoMedia e vendeu o seu RocketBooks nas suas lojas, até abandonar esse negócio em 2003.

Stephen Riggio, diretor-executivo da Barnes & Nobles, argumenta que para a maioria das pessoas o valor dos livros tradicionais de papel jamais será replicado no formato digital. No entanto, ele pretende concorrer com o Google e a Amazon. Riggio disse em uma entrevista que os textos integrais de vários livros estarão disponíveis no website da companha dentro de um período de 12 a 18 meses. Ele afirmou ainda que a Barnes & Nobles também pensa em lançar o seu próprio leitor eletrônico de livros - mas somente quando for capaz de vender um aparelho desse tipo a um preço baixo.

"Se um aparelho acessível puder ingressar no mercado, é claro que adoraremos oferecê-lo aos nossos clientes, e faremos isso", promete Riggio. "Mas neste momento não enxergamos nenhum dispositivo de preço acessível no futuro próximo". UOL

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