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07/09/2007

Arte lírica italiana em seu melhor

The New York Times
Anthony Tommasini
Nos velhos tempos dos programas de rádio da Ópera Metropolitana na tarde de sábado, havia o popular "Texaco Opera Quiz", que tocava gravações de vários artistas cantando a mesma ária famosa e pedia aos convidados que identificassem os cantores. Era surpreendente a freqüência com que especialistas de ópera confundiam um grande artista com outro.

Sara Krulwich/The New York Times 
Pavarotti no papel de Nemorino, personagem da ópera 'L'Elisir d'Amore'

Ninguém, no entanto, confundia a voz de Luciano Pavarotti. Havia o som quente, envolvente: uma voz clássica de tenor italiano, sim, mas com um toque barítono sombrio, que fazia os vôos de Pavarotti para sua brilhante faixa mais alta parecerem ainda mais miraculosos.

E não apenas o som era reconhecível. Na arte de Pavarotti, linguagem e voz eram uma coisa só. Ele tinha uma forma idiomática de ligar as vogais redondas com as consoantes duras do italiano aos tons e coloridos de sua voz. Essa prática é central à herança vocal italiana, e Pavarotti era um de seus exemplares.

Pavarotti foi superado em inteligência, disciplina, amplitude de repertório, conhecimento musical, profundidade de interpretação e virilidade vocal por seu colega em Três Tenores e principal rival, Plácido Domingo. Mas Pavarotti era difícil de vencer na pura beleza de tenor italiano. Certamente foi essa a posição de seu gerente de longo tempo, Herbert Breslin, que combinou sua sabedoria promocional com a grandeza vocal de seu principal cliente para produzir o fenômeno lucrativo que foi a carreira de Pavarotti. Chame-a de Pavarotti Inc.

"Ninguém no mundo dos tenores tem o som de Luciano, um som italiano", disse Breslin à Manuela Hoelterhoff, para seu maravilhoso livro de 1998 "Cinderella & Company". "Domingo", acrescentou, "teria que rezar em 17 igrejas em Guadalajara para encontrar esse som".

Apesar da parcialidade da observação, inclui certa verdade. Ouvir Pavarotti em seu melhor, em um papel como o de Riccardo em "Ballo in Maschera" de Verdi - girando frases musicais líricas com elegância do bel-canto, depois impressionando com explosões vocais viscerais - era ouvir a arte lírica italiana em seu melhor.

Entretanto, foi justamente um papel francês que levou Pavarotti conquistar seu grande sucesso no início dos anos 70: o de Tonio, em "Fille du Regimen", de Donizetti, escrito para a Opera-Comique de Paris. O francês de Pavarotti parecia italiano com tons franceses, mas não importa. A ópera tem uma ária famosa, com um acompanhamento leve, em que Tonio tem que despachar nove "Dós" altos muito expostos. Outros grandes tenores, como Alfredo Kraus, tinham se superado nesse papel. Mas ninguém lançou esses "Dós" altos com a facilidade, tonalidade e a pura alegria de Pavarotti naqueles anos. Logo se tornou o Rei dos Altos "Dós", e começou sua conquista do público de 30 anos.

Por dom natural, Pavarotti era essencialmente um tenor lírico, idealmente adequado para papéis mais leves em Donizetti, Bellini e Verdi requerendo graça lírica e passagens ágeis. Contudo, sua voz, como tudo nele, era extraordinariamente ampla. Com aquele grande som pulsante, ele foi tentado a entrar em um repertório mais pesado, requerendo energia dramática e peso, como o de Calaf, em "Turandot" de Puccini. Alguns puristas sustentam que ele errou em desviar-se do terreno lírico. Não diga isso a ninguém que tenha tido a felicidade de ouvi-lo cantar "Nessun dorma" em sua melhor época, não apenas como uma ária clássica para concertos televisionados em estádios, mas no contexto de uma produção completa de "Turandot". Uau!

Pavarotti, que tinha 19 anos quando finalmente começou a estudar voz a sério, mal podia ler música, o que não precisava ser um problema. Enrico Caruso também tinha apenas um conhecimento rudimentar de teoria musical, e isso não o prejudicou de forma alguma. Mas essa deficiência claramente distanciava Pavarotti de Domingo, que cresceu preparando orquestrações para a companhia de zarzuela de seus pais.

Mesmo assim, no canto, conhecimento não é tudo. O instinto musical é crucial, e Pavarotti tinha instintos poderosos. Ele nunca foi um cantor tão interessante quanto Domingo, mas, em seu melhor, era inspirado e, de sua forma, profundo. Além disso, ele genuinamente gostava de se apresentar e de agradar as pessoas, o que compensava por suas capacidades limitadas como ator.

Durante a primeira metade de sua carreira, ele trabalhou duro para compensar seu início tardio e conhecimento mínimo. Apesar de cantar apenas 26 papéis no palco, alguns envolveram aventuras arriscadas em repertório menos familiar, como o de Fernando em "Favorita", de Donizetti, cheios de longas linhas vocais ornadas e cansativas.
Ainda assim, no final, apesar de tudo que Pavarotti deu à opera, é difícil evitar sentir que ele nunca realizou completamente seu potencial, que desperdiçou seu talento incrível deixando seus agentes transformarem-no em um superstar mimado e às vezes burlesco, em vez de um artista que trabalhava duro.

Na última década de sua carreira, que desapontou, ele se apoiou em seu talento e popularidade. Sua velha amiga e colega Joan Sutherland deixou escapar em entrevistas que ele deveria se aposentar. Para mim, o pior momento foi em 1997, sete anos antes de suas últimas aparições no Met, quando ele cantou um recital no palco do Met como evento beneficente para um fundo de pensão, um programa de músicas de Schubert, Scarlatti e outros, com algumas árias de sucesso. Ele estava impressionantemente despreparado, colado ao tripé mesmo durante o arroz com feijão, como "Ave Maria" de Schubert. Ele tentou cantar uma seleção de canções italianas mais leves, de Tosti, de cor. Mas seu pianista tinha que dar as primeiras palavras de todas as frases, o que se ouvia da fila L. O que essa performance transmitiu aos aspirantes a cantores sobre as prerrogativas da fama e da fortuna?

Esse, entretanto, é um dia para lembrarmos a glória de Luciano Pavarotti, como a produção de 1996 do Met de "Andréa Chenier" de Giordano, montada para ele. Ele não tinha exatamente a figura do estonteante poeta revolucionário no final do século 18 na França. E, mesmo não sendo mais o Rei dos Altos "Dós", ele despachou alguns "Si bemóis" e "Sis" que foram ao menos principescos. Ainda assim, havia um ardor revolucionário no calor enternecedor, na energia e na urgência de seu canto. E tinha aquele som. Deborah Weinberg

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