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07/09/2007

Dinheiro de migrantes financia "modelo de vida" em Kerala, na Índia

The New York Times
Jason DeParle
Em Trivandrum, na Índia
Este trecho verdejante da costa do sul da Índia é um famoso bom lugar para se ser pobre. As pessoas no Estado de Kerala vivem quase tanto quanto os norte-americanos, com apenas uma pequena fração da renda média destes. O índice de alfabetização também é quase igual ao dos Estados Unidos.

Com os governos de esquerda aqui na capital deste Estado investindo pesadamente em saúde e escolas, uma geração de estudiosos comemorou o "modelo Kerala" como sendo uma alternativa humanista ao desenvolvimento movido pelas forças de mercado, uma visão de igualdade social em um mundo capitalista desigual. Mas o modelo Kerala está sob ataque devido ao êxodo dos trabalhadores da região.

Tyler Hicks/The New York Times 
Moradores da região de Varkala, no Estado de Kerala, Índia, se divertem na praia local

Atormentados pelo desemprego crônico, os moradores de Kerala estão cada vez mais se deslocando para trabalhar no exterior, freqüentemente em empregos sob o sol escaldante do Golfo Pérsico, que pagam cerca de US$ 1 por hora, e fazem com que fiquem distantes de suas famílias durante anos. Atualmente o dinheiro remetido para casa ajuda a manter quase um em cada três moradores de Kerala. Isso fez com que alguns especialistas reescrevessem a história de Kerala. Segundo eles, longe de escapar do capitalismo, esta famosa região do mundo em desenvolvimento é dolorosamente dependente daquele sistema.

"As remessas monetárias do capitalismo global estão sustentando a economia inteira de Kerala", afirma S. Irudaya Rajan, demógrafo do Centro de Estudos de Desenvolvimento, um grupo local de pesquisas. "Se não fosse pela emigração, haveria mortes provocadas pela fome em Kerala. O modelo Kerala é bom de se ler, mas não possui aplicação prática em nenhum lugar do mundo, incluindo Kerala".

As lições locais teriam menor importância caso este fosse um pedaço da Cidade do México ou de Manila - locais conhecidos pelas dificuldades que fazem com que os migrantes partam. Mas o fato de Kerala situar-se na outra ponta da escala - o caminho benevolente rumo ao desenvolvimento, uma resposta à globalização - faz com que as dificuldades enfrentadas pelos seus 1,8 milhão de migrantes globalizados ressoem ainda mais. O debate sobre Kerala é um debate sobre as futuras estratégias a serem aplicadas nas regiões pobres do mundo.

A vida de Laly Mohan constitui-se em um caso comum por aqui. Após concluir a faculdade, o seu marido, Ramakrishnan, 39, vindo de uma família pobre enxergou poucas perspectivas de emprego e partiu para o Golfo Pérsico 15 anos atrás. Como motorista em Qatar, ele atualmente ganha US$ 375 por mês, o que é mais ou menos o quíntuplo do salário local, e vê a família uma vez por ano, em visitas de três semanas.

A renda de Ramakrishnan Mohan possibilita que a sua família tenha uma padrão de vida de classe média: uma cozinha renovada, uma motocicleta nova e educação em uma escola religiosa para as duas filhas, Blessy, 10, e Elsa, 6. Mas apesar dos telefonemas diários do marido, Laly Mohan diz sentir-se muito só, e as filhas suplicam ao pai que retorne. "Elas querem o pai, e também dinheiro", diz Laly Mohan. "Só que não dá para ter as duas coisas".

"Existe aqui muita gente com alto nível educacional, mas não há empregos", acrescenta Mohan. "Este é de fato um grande problema".

Para os admiradores de Kerala, os problemas enfrentados pelo Estado são aqueles endêmicos no mundo subdesenvolvido, mas as realizações locais são únicas. O Estado é pobre, até mesmo para os padrões da Índia, com uma renda per capita de US$ 675, comparada à média nacional de US$ 730 (nos Estados Unidos a renda per capita é de US$ 25 mil).

Mas a expectativa de vida em Kerala é de quase 74 anos - 11 anos a mais do que a média da Índia e próxima à média dos Estados Unidos, que é de 77 anos. O índice de alfabetização é de 91%, comparado ao índice médio indiano de 65% e ao norte-americano, que a Organização das Nações Unidas (ONU) calcula que seja de 99%.

Os que apóiam o modelo afirmam que esses resultados invejáveis são um resultado de uma escolha de políticas: Kerala gasta 36% mais em educação e 46% em saúde do que a média do Estado indiano.

"O fato de a qualidade de vida poder ser melhorada por meio da intervenção do governo, até mesmo em sociedades que são muito pobres, é algo importante", afirma Prabhat Patnaik, vice-diretor da diretoria de Planejamento do Estado. Segundo ele, a experiência de Kerala demonstra que "a qualidade de vida não está vinculada apenas à taxa de crescimento da economia".

"Se colocarmos isso no contexto de outras partes do mundo em desenvolvimento, os avanços em Kerala ainda se destacam como notáveis", afirma Richard Franke, antropólogo da Universidade Estadual Montclair, em Nova Jersey. "As crianças não morrem no primeiro ano de vida, meninos e meninas têm oportunidades aproximadamente iguais, eles recebem educação e têm vidas mais longas. O modelo Kerala constitui-se em uma grande realização, com ou sem a migração".

A cultura de investimento humano de Kerala tem pelo menos dois séculos de existência e deve-se aos missionários e marajás que enfatizaram a importância das escolas. No início do século 20, moradores alfabetizados de Kerala já migravam internamente, a fim de trabalharem como secretários em Nova Déli e em Bombaim, e remeterem dinheiro para casa.

Kerala é também tradicionalmente conhecida como fonte de política de esquerda. O Partido Comunista chegou ao poder em 1957, um ano após a criação oficial do Estado, e desde então é o partido governista. O Estado transferiu terras dos ricos para os pobres, criou um salário mínimo e investiu intensamente em clínicas e escolas.

Embora os impostos de Kerala sejam comparáveis àqueles de outros Estados indianos, os seus índices de arrecadação são mais elevados, e o governo estadual investe mais em educação e saúde.

Kerala também ficou famosa como local hostil ao empresariado, com regulamentações rígidas, sindicatos militantes e greves freqüentes. Existem empregos no setor pesqueiro, mas pouco coisa na área industrial, e a atividade agropecuária é fraca. O governo é o maior empregador. Muita gente administra pequenos negócios como casas de chá e bazares.

Os comentários sobre o modelo Kerala tiveram início depois que um relatório da ONU de 1975 elogiou "os impressionantes avanços do Estado nas esferas da saúde e da educação". Os especialistas dizem que tais elogios se deveram em parte a uma grande necessidade de histórias de sucesso do mundo em desenvolvimento.

Amartya Sen, que ganharia o Prêmio Nobel de Economia, escreveu bastante sobre Kerala, argumentando (em um livro feito em parceria com Jean Dreze) que "as notáveis realizações sociais" do Estado tinham "um significado mais abrangente" para outros países. Em um livro dividido em três partes, que inspira a esperança global, Bill McKibben, um escritor norte-americano, escreveu que "Kerala demonstra que uma economia modesta pode criar uma padrão de vida decente" e evidencia que "o compartilhamento funciona".

Porém, no exato momento em que Kerala adquiria fama, grandes contingentes de trabalhadores partiam para outros países. O Golfo Pérsico precisava de mão-de-obra, e os moradores de Kerala estavam acostumados a viajar em busca de empregos. O número de trabalhadores no exterior dobrou na década de 1980, e triplicou na de 1990. Em um Estado de 32 milhões de habitantes onde o índice de desemprego é de quase 20%, atualmente um entre cada seis trabalhadores de Kerala trabalha no exterior. A maioria deles tem empregos na construção civil, trabalhando a céu aberto sob o céu arábico, embora o elevado índice de alfabetização permita que alguns nativos de Kerala consigam empregos em escritórios.

Os críticos dizem que, sem as remessas financeiras dos migrantes, o padrão de vida típico do Estado não poderia ser sustentado. Os US$ 5 bilhões que os migrantes de Kerala enviam para casa aumentam em quase 25% a produção econômica do Estado. As famílias dos migrantes têm uma probabilidade três vezes maior do que as dos não migrantes de morar em uma casa de melhor padrão, e é duas vezes mais provável que possuam telefone, geladeira e automóvel. Os homens que procuram mulheres para se casar publicam anúncios nos classificados dos jornais, descrevendo-se como "bonito, abstêmio e empregado no exterior" ou "temente a Deus e morando em Dubai".

"O Golfo Pérsico é o maior fator de sustentação de uma qualidade de vida mais elevada", afirma B.A. Prakesh, economista da Universidade de Kerala.

Na melhor das hipóteses, a migração gera histórias como a de Benjamin Fernandez, 55, que mudou-se para os Emirados Árabes Unidos 30 anos atrás para trabalhar como secretário, e que atualmente possui uma firma de construção naquele país. Ele construiu uma grande casa na Índia, dotada de uma escada espiralada de teca, e as suas filhas estudam em escolas particulares. Uma delas estuda para ser médica, e a outra se prepara para ingressar na faculdade de economia. "Os Emirados Árabes Unidos construíram uma vida para nós", diz ele.

Mas o índice de suicídios em Kerala é o quádruplo da média nacional, e há também famílias como a de Shirley Justus, 45, que lutou para criar as três filhas por conta própria, enquanto o marido dirigia caminhões em Muscat e Dubai. A mais velha, Suji, terminou o segundo grau no ano passado e elaborou dois planos de estudo, um voltado para a Inglaterra e o outro para Bombaim. Justus, temendo a responsabilidade de deixá-la partir, vetou os dois projetos. A filha obedeceu a mãe quase sem reclamar e, a seguir, enforcou-se.

"Se o meu marido estivesse aqui, ela não teria feito tal coisa", lamenta Justus, que fez da sala de estar um templo dedicado à filha, e cuja vida transformou-se em uma busca por respostas. "Ele teria resolvido o problema".

Com quase um quarto do dinheiro dos migrantes que é enviado para casa gasto com educação, alguns moradores de Kerala experimentam um ciclo doloroso: a migração gera educação, que leva a mais migração. Os habitantes de Kerala instruídos, a maioria seletiva na hora de escolher empregos, têm maior probabilidade de ficarem desempregados.

Na família de James John Pereira, alfabetização e migração estão entrelaçados há quase 100 anos, desde que o seu pai migrou para trabalhar como criado em uma plantação no Sri Lanka. O rendimento do pai possibilitou que Pereira estudasse em uma escola particular. E os 49 anos que ele próprio passou no exterior possibilitaram o mesmo para os cinco filhos de Pereira, todos com mestrado.

Mas agora três deles trabalham no exterior, assim como o marido de uma quarta, Jacqueline, que está criando uma filha de dez anos sozinha. "O índice de alfabetização daqui é alto", diz ela. "E o índice de desemprego é ainda mais elevado".

Os críticos internos de Kerala dizem que tais histórias sublinham os problemas de uma estratégia que separa o desenvolvimento humano do crescimento econômico. "Os nativos de Kerala estão desenvolvendo a economia do Golfo Pérsico", critica Rajan, o demógrafo. "Eles não estão desenvolvendo a nossa economia".

Franke, o admirador de Kerala, diz que as forças econômicas que levam as pessoas a emigrar estão além do controle do Estado. "Mas um aspecto único em relação a Kerala é que os benefícios geralmente são divididos de uma forma mais justa", afirma ele. ""Eu não diria que o problema da emigração desacredita esse modelo. Mas ele revela a sua fraqueza". UOL

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