UOL Notícias Internacional
 

07/09/2007

Uma dezena é procurada por plano terrorista alemão

The New York Times
Katrin Bennhold e Mark Landler*

Em Karlsruhe, Alemanha
Investigadores alemães estavam na quinta-feira à procura de cerca de mais de uma dezena de suspeitos por ligação a um ataque terrorista desbaratado, planejado por militantes islâmicos, contra alvos alemães e americanos, alimentando um debate acalorado na Alemanha sobre se os serviços de segurança deveriam receber mais poderes de vigilância.

Acredita-se que os suspeitos tenham fornecido apoio aos três principais suspeitos no plano, segundo August Hanning, o vice-ministro do Interior e ex-chefe do serviço de inteligência estrangeira da Alemanha, o BND. Os três estão sob custódia desde que foram capturados em uma batida no oeste da Alemanha, na terça-feira. A prisão deles foi anunciada na quarta-feira.

Apesar da crença de que alguns dos suspeitos ainda foragidos estejam na Alemanha, Hanning disse que as prisões de terça-feira colocaram um fim à ameaça à segurança.

"Não há risco vindo desta célula concreta", ele disse para a emissora de televisão alemã "ARD" na quinta-feira. Mas ele também alertou que a Alemanha permanece um alvo para terroristas islâmicos e que, neste sentido, o risco permanece elevado.

Torsten Silz/AFP - 5.set.2007 
Entrada da casa onde os três suspeitos presos moravam na Alemanha

Os serviços de segurança estavam "preocupados" com o que descreveram como a "ordem para realização de ataques na Alemanha", disse Hanning.

Políticos conservadores citaram o caso como evidência de que a polícia deve ser autorizada a invadir os computadores dos suspeitos de terror com a ajuda de software secreto enviado ao alvo por e-mail. Enquanto isso, muitos social-democratas na coalizão da chanceler Angela Merkel argumentavam que o fato da trama ter sido descoberta e desbaratada sem a necessidade de tais métodos mostrou que a execução convencional da lei está funcionando.

As autoridades se recusaram a ser específicas sobre o número de suspeitos que as autoridades ainda estão procurando. Hanning se referiu aos "cerca de 10" suspeitos, sugerindo que os investigadores ainda não sabem ao certo qual é o tamanho da célula. Autoridades do gabinete da procuradoria-geral federal não puderam ser contatadas para comentários. A batida de terça-feira colocou fim a meses de operações secretas de vigilância durante as quais agentes alemães monitoraram os suspeitos atentamente. As autoridades apreenderam grandes quantidades de peróxido de hidrogênio (água oxigenada), que pode ser misturado a outros produtos químicos para produção de explosivos, e detonadores militares. Os três homens presos eram dois cidadãos alemães que se converteram ao Islã e um turco que residia na Alemanha. A polícia e as autoridades de segurança disseram que os ataques que planejavam poderiam ser mais mortais que aqueles que mataram dezenas em Londres e em Madri.

As informações que vieram à tona durante a investigação, que incluiu o monitoramento de chamadas telefônicas e rastreamento dos movimentos dos suspeitos, levaram as autoridades a concluírem que entre os alvos considerados estavam a Base Aérea Ramstein, um eixo crucial de transporte para as forças armadas americanas, e o Aeroporto Internacional de Frankfurt.

Entre os 10 homens ainda foragidos estão alguns alemães convertidos ao Islã, alguns turcos que residem na Alemanha e pessoas de outras nacionalidades, disse Hanning na quinta-feira.

Segundo uma autoridade próxima da investigação, pelo menos um dos homens é um paquistanês, outro é libanês e alguns não têm nacionalidade. Pelo menos um deles partiu de avião da Alemanha rumo à Turquia, mas de lá para cá pode estar viajando por terra, disse a autoridade, que se recusou a ser identificada porque a investigação ainda está em andamento.

Por meses, a Alemanha tem alertado sobre a probabilidade de um ataque terrorista e o governo vem contemplando um endurecimento da vigilância e das táticas de execução da lei que, no momento, são mais brandas do que em outros lugares da Europa, em parte por causa da turbulenta história da Alemanha no século 20.

Apesar das autoridades terem falado com confiança sobre a iminência e seriedade do ataque, elas não deixaram plenamente claro a base para suas afirmações. A Europa tem sido local de várias tramas terroristas devastadoras, mas algumas posteriormente revelaram ser menores do que pareciam quando anunciadas.

Se os detalhes anunciados se sustentarem sob análise, isto significa que a Alemanha, como o Reino Unido, se tornou alvo de terrorismo doméstico sofisticado, e o caso alimentará o debate sobre o equilíbrio entre liberdades civis e segurança pública. Tramas alemãs anteriores eram bem menores, planejadas por estrangeiros ou tendo alvos fora da Alemanha, como os ataques do 11 de Setembro, que foram maquinados em Hamburgo.

Uma autoridade de inteligência americana disse na quarta-feira que os Estados Unidos ajudaram as autoridades alemãs a rastrearem a localização de dois dos suspeitos alemães interceptando suas conversas por celular enquanto deixavam campos de treinamento no Paquistão.

Um alto funcionário alemão disse na quinta-feira que a primeira pista americana veio nas últimas semanas de 2006 e levou os agentes alemães a monitorarem os dois. Em 31 de dezembro, eles foram observados repetidas vezes circulando de carro as instalações militares americanas em Hanau, perto de Frankfurt, aparentemente estudando o complexo de perto. Isto levou as autoridades alemãs a lançarem uma operação de vigilância em grande escala, durante a qual os investigadores reuniram evidência do acúmulo de material explosivo e do planejamento gradual da suposta trama.

O promotora federal alemã, Monika Harms, também disse na quarta-feira que os dois alemães convertidos treinaram em campos terroristas no Paquistão e que os três suspeitos tinham cerca de 680 quilos de peróxido de hidrogênio, que preparavam para transportar por van quando foram presos em um vilarejo afastado, no oeste da Alemanha, na tarde de terça-feira. Autoridades de segurança européias foram alertadas há alguns anos de que convertidos radicais poderiam representar um sério risco, já que se misturam bem à sociedade.

Os elos turcos neste caso também incomodam os especialistas em contraterrorismo, que notam que a Alemanha em geral não precisou lidar com o elemento radical entre sua grande minoria de muçulmanos turcos.

"Esta é a primeira vez que vejo uma rede turco-alemã", disse Guido Steinberg, um pesquisador do Instituto Alemão para Assuntos de Segurança e Internacionais em Berlim. "E o fato de estar ligada a uma rede turca no Paquistão é um problema ainda maior".

Apesar dos suspeitos serem cidadãos locais, os alvos que as autoridades disseram que pretendiam atacar eram símbolos da duradoura presença americana na Alemanha.

Os 12 tanques de peróxido de hidrogênio encontrados com os suspeitos, quando misturados com outros produtos químicos, poderiam produzir uma bomba com força igual a 540 quilos de dinamite, disseram as autoridades.

"Isto lhes permitiria produzir bombas com mais poder explosivo do que as usadas nos atentados em Londres e Madri", disse Jörg Ziercke, chefe do Escritório Criminal Federal alemão, na quarta-feira.

Todavia, o ministro da Defesa alemão, Franz Josef Jung, disse na televisão na quarta-feira: "Havia uma ameaça iminente à segurança". E algumas autoridades disseram que os ataques poderiam ocorrer em questão de dias, notando que o Parlamento alemão em breve tratará do debate politicamente carregado da prorrogação da presença de tropas alemãs no Afeganistão. Na próxima semana também completam seis anos dos ataques do 11 de Setembro.

As autoridades alemãs ficaram visivelmente aliviadas com as prisões - os frutos de uma investigação elaborada envolvendo mais de 300 pessoas. Na quarta-feira, as autoridades policiais invadiram 41 casas e apartamentos por toda Alemanha, apreendendo computadores e outras evidências.

Mas alguns políticos alertaram que os riscos permanecem altos. "As prisões de ontem são apenas evidência de quão séria é a situação aqui na Alemanha", disse Wolfgang Bosbach, um legislador proeminente no partido da chanceler Angela Merkel.

A vigilância era tão próxima que, em julho, disseram as autoridades, a polícia conseguiu trocar alguns dos tanques de peróxido de hidrogênio dos suspeitos por tanques com uma concentração bem mais fraca.

Um dos suspeitos, que as fontes policiais identificaram como Fritz Gelowicz, um alemão de 28 anos nascido em Munique, foi detido em 2005 em uma batida em um bairro muçulmano na Baviera. Ele foi colocado sob vigilância novamente em dezembro de 2006, após ter sido visto observando um quartel militar americano em Hanau, segundo autos processuais.

A polícia está investigando um homem turco-alemão, um associado de Gelowicz e também um suspeito no plano, disseram duas autoridades. Eles disseram que suspeitam que ele esteja na Turquia.

As prisões de terça-feira ocorreram em uma casa de férias em Oberschledorn, um vilarejo de 800 habitantes nas montanhas, a cerca de 120 km ao norte de Frankfurt. Os suspeitos alugaram a casa para armazenar os produtos químicos para fabricação dos explosivos, disseram as autoridades. Eles se preparavam para partir quando a polícia entrou em ação.

Um dos três homens fugiu e, em uma luta com um policial, pegou a pistola do coldre deste e lhe deu um tiro na mão antes que fosse contido, disseram as autoridades.

Algumas poucas pessoas viram três homens jovens caminhando pela aldeia nos últimos dias, mas eles não levantaram suspeita. Curinna Imuhl, 12 anos, que mora perto da casa alugada, disse: "Eu achava que não tinha ninguém lá; as venezianas estavam sempre fechadas".

* Reportagem de Katrin Bennhold, em Karlsruhe, Alemanha, e Mark Landler, em Frankfurt. Souad Mekhennet, em Frankfurt; Nicholas Kulish, em Berlim; Rhea Wessel, em Oberschledorn; e Mark Mazzetti e Eric Schmitt, em Washington, contribuíram para este artigo. George El Khouri Andolfato

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