UOL Notícias Internacional
 

10/09/2007

Através da análise, a reação intuitiva ganha credibilidade

The New York Times
Claudia Dreifus
Há dois anos, quando Malcolm Gladwell publicou seu livro best-seller "Blink: The Power of Thinking Without Thinking" (algo como "Num Piscar de Olhos - o Poder de Pensar sem Pensar"), leitores no mundo inteiro tomaram contato com as idéias de Gerd Gigerenzer, psicólogo social alemão.

Oliver Hartung/The New York Times
O dr. Gerd Gigerenzer, 59 anos, é psicólogo social e diretor do Instituto Max Planck para o Desenvolvimento Humano em Berlim
Gigerenzer, diretor do Instituto Max Planck para o Desenvolvimento Humano em Berlim, é conhecido nos círculos das ciências sociais por seus estudos inovadores sobre a natureza do pensamento intuitivo. Antes dessa pesquisa, o assunto era freqüentemente descartado como mera superstição lunática. Gigerenzer, de 59 anos, se mostrou capaz de explicar como funcionam aspectos da intuição e como as pessoas normais a utilizam com sucesso na vida moderna.

E agora ele escreveu seu próprio livro, "Gut Feelings: The Intelligence of the Unconscious" (algo como "Intuição: a Inteligência do Inconsciente" ), que ele espera que tenha vendas tão boas quanto "Blink" . "Eu gostei do livro de Gladwell", disse o dr. Gigerenzer durante uma visita à cidade de Nova York no mês passado. "Ele popularizou a questão e tornou minha pesquisa mais conhecida."

Pergunta - Bem, começando pelo essencial: o que é o sentido da intuição?
Resposta -
Um tipo de julgamento que é rápido, que chega rapidamente à consciência de uma pessoa. A pessoa, no caso, não sabe porque tem essa sensação. Mas é algo forte o bastante para gerar uma ação individual. Certamente essa reação instintiva não é calculada. A pessoa não sabe inteiramente de onde aquilo vem.

Minha pesquisa indica que a reações instintivas são fundamentadas em simples princípios básicos, que nós psicólogos chamamos de "heurística". São princípios que funcionam à base de certas capacidades cerebrais que chegaram até nós através do tempo, da experiência humana e da evolução. Os instintos muitas vezes são sugeridos apenas por pistas encontradas num meio ambiente. Na maioria das situações, quando as pessoas usam seus instintos elas estão atentas a essas pistas e ignorando outras informações desnecessárias.

Pergunta - Na sociedade moderna, a reputação do pensamento intuitivo não é das melhores. Por que?
Resposta -
Porque não é considerada uma opção racional. Um dos fundadores do seu país, Benjamin Franklin, sugeriu ao sobrinho dele que, ao tomar decisões importantes na vida, deveria agir como um contador - listando todos os prós e contras para aí tomar a decisão, após as devidas ponderações. Essa é a abordagem racional clássica.

Pergunta - É assim mesmo que eu tomo as minhas decisões. O que há de errado com esse método?
Resposta -
Em algumas situações, isso exige um excesso de informação. Além disso, é um método lento. Já quando uma pessoa confia nas suas reações intuitivas e usa a regra básica do instinto que manda "seguir com a sua primeira impressão e ignorar o resto", isso faz com que ela possa se adiantar em relação às mais complexas avaliações

Nos anos noventa eu vivia em Chicago, onde é alto o índice de evasão nas escolas do ensino médio. E a questão geral mais freqüente era saber se havia uma maneira de saber qual escola contava com o mais reduzido nível de evasão. Havia informações relativas a diferentes variáveis no que diz respeito ao desempenho no ensino: quanto ao salário dos professores, o número de estudantes que falavam inglês em cada classe, coisas assim.

E eu pensava; seria possível armazenar todos esses dados num computador, analisá-los e aí então chegar a uma previsão sobre qual escola teria o menor índice de evasão? Foi o que fizemos. E ficamos surpresos ao constatar que as versões informatizadas do método contábil de Ben Franklin - com um programa que ponderava a partir de 18 variáveis diferentes - no final das contas era menos preciso do que seguir a regra básica de "confiar num bom aspecto e desprezar o resto da informação".

Pergunta - E qual foi esse "bom aspecto" que lhe levou a resposta certa?
Resposta -
Saber quais escolas tinham alto índice de comparecimento diário .Se duas escolas tinham os mesmos índices de comparecimento, era preciso considerar mais um aspecto - onde estavam as melhores notas de redação - e a partir daí podia se desprezar o resto.

Pergunta - O senhor é o autor de um famoso estudo sobre como as pessoas podem usar seus instintos nos investimentos. Por que esse tópico aparece?
Resposta -
Porque a intuição freqüentemente dá suporte à escolha de ações. Investidores comuns freqüentemente escolhem uma empresa sobre a qual já ouviram falar. Chamamos essa escolha de "reconhecimento heurístico", o que basicamente significa "ir de acordo com o que você conhece". Fiquei curioso e quis saber: será esse um método eficaz? Nos anos noventa, entrevistamos 360 transeuntes em Chicago e Munique. Perguntamos se eles reconheciam os nomes de empresas alemãs e americanas que estão no mercado de ações. A partir dos nomes das empresas mais freqüentemente reconhecidas, fomos compondo as carteiras de investimentos.

Após seis meses, as carteiras de maior reconhecimento, na média, estavam mais valorizadas que os mercados sob os índices Dow e DAX e mais que alguns fundos mútuos bem conhecidos. As carteiras de maior reconhecimento tinham melhor desempenho que um portfólio criado por nós a partir de ações escolhidas ao acaso e outro portfólio feito de ações de empresas pouco conhecidas. Ao longo dos anos, repetimos essa experiência duas vezes, de maneiras diferentes. Em cada uma dessas vezes, a sabedoria intuitiva dos semi-ignorantes superou os cálculos dos especialistas.

Pergunta - Você já pensou em pedir consultoria financeira aos seus pedestres?
Resposta -
Sim, fiz isso uma vez! Investi U$ 50.000 em ações altamente reconhecidas e escolhidas pelo grupo que menos conhecia o mercado de ações, no caso os pedestres alemães. A carteira de investimentos deles subiu 47% em seis meses, menos do que a alta de 34% registrada em todo o mercado alemão de ações. Isso ocorreu em pleno bull market (mercado em alta).

Pergunta - E onde a intuição pode falhar?
Resposta -
Vai aqui um exemplo: depois do 11 de Setembro, muitos americanos pararam de viajar em aviões e passaram a usar mais as rodovias. Ao analisar os dados constatei que, no ano posterior aos ataques, as mortes nas estradas aumentaram em cerca de 1.500 ocorrências. As pessoas no caso ouviram seus temores, mas o resultado foi que mais gente morreu nas estradas. Esse tipo de fatalidade pode ser facilmente evitada. Mas a psicologia não costuma ser levada muito a sério pelos governos. A maior parte da pesquisa sobre formas de combate ao terrorismo tem a ver com tecnologia e burocracia - assuntos de segurança interna. Nesse caso mencionado, alertar o público sobre seus instintos poderia ter salvo vidas.

Pergunta - Alguns de seus críticos dizem que os instintos simplesmente não são científicos. O que você tem a dizer sobre isso?
Resposta -
Nós estudamos esses fenômenos, constatamos quando a intuição é boa e quando não é. Também não se deve desprezar o fato de que na própria ciência você precisa das intuições. Todos os bem sucedidos cientistas pesquisadores trabalham, até um certo ponto, sobre intuições. Eles devem empreender saltos para chegar às conclusões, tendo ou não todas as informações. E chega um momento em que ter as informações não os ajuda, mas ainda assim eles precisam saber o que fazer. É aí que entra o instinto.

Pergunta - Você se considera um intuitivo ou um racional?
Resposta -
Ambos. No meu trabalho científico, eu tenho meus pressentimentos. Nem sempre posso explicar porque acredito que um certo caminho é o certo, mas preciso confiar e seguir adiante. Eu também tenho a capacidade de conferir esses pressentimentos e constatar o que são. Esse é o meu lado científico. Mas na minha vida particular eu sigo pelo instinto. Por exemplo, quando encontrei minha mulher pela primeira vez não fiquei fazendo cálculos. Nem ela.

Pergunta - A peça "Hamlet" de Shakespeare é sobre um jovem que não responde ao seu primeiro instinto, que é o de vingar o assassinato de seu pai matando o tio dele. Se Hamlet tivesse atendido ao instinto, como ficaria a peça?
Resposta -
Essa não é uma questão cientifica. Mas a peça ficaria menor e provavelmente menos pessoas teriam sido mortas. Marcelo Godoy

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    14h19

    -0,53
    3,128
    Outras moedas
  • Bovespa

    14h26

    -0,32
    75.362,36
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host