UOL Notícias Internacional
 

11/09/2007

Baixa tecnologia, meta elevada: projetos para o Terceiro Mundo

The New York Times
Andrew C. Revkin

Em Cambridge, Massachusetts
Sob o agitado "corredor infinito" que liga os prédios do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), passando a sala das caldeiras, um grupo de inventores de 16 países soldavam, costuravam e martelavam, trabalhando em invenções esboçadas que visavam salvar o mundo, uma aldeia de cada vez.

O MIT produziu dezenas de ganhadores do Prêmio Nobel em reinos cerebrais como astrofísica, economia e genética. Mas ultimamente, o instituto voltou sua atenção para o pensamento concreto voltado à melhoria das vidas do bilhão mais pobre do mundo, que vive com um dólar ou menos por dia e que freqüentemente morre jovem.

Andrew C. Revkin/The New York Times 
Mohamed Mashaal (dir.) testa recipiente plástico para transportar água em longas distâncias

Neste ano, ele foi anfitrião das quatro semanas do International Development Design Summit, um encontro para identificação de problemas, elaboração de protótipos para solução e teste dos resultados para ver o que funcionaria no mundo real.

Mohamed Mashaal, um jovem engenheiro britânico que neste semestre assumirá um emprego na BP no Mar do Norte, despejou água em uma mochila plástica artesanal que era carregada por um parceiro de design, Bernard Kiwia, que ensina conserto de bicicletas na zona rural da Tanzânia e espera oferecer para as mulheres de lá uma forma mais fácil de transportar o líquido precioso por longas distâncias.

Sham Tembo, um engenheiro elétrico da Zâmbia, e Jessica Vechakul, uma estudante de doutorado em engenharia no MIT, colocavam lentamente esterco bovino em um balde de 19 litros contendo carvão de espigas de milho. Na configuração certa, a mistura poderia gerar eletricidade suficiente para carregar uma bateria de celular ou uma pequena lanterna por um ano ou mais.

O encontro (www.iddsummit.org) foi principalmente uma idéia de Amy Smith, uma professora no MIT que obteve lá seu mestrado em 1995 e em 2004 recebeu o prêmio de "gênio" da Fundação MacArthur, e de Kenneth Pickar, um professor de engenharia do Instituto de Tecnologia da Califórnia. Estudantes e o corpo docente da Olin College, uma faculdade de engenharia perto de Boston, também participaram.

A enxurrada de atividade ocorreu no D-Lab, um centro de pesquisa e cenário de cursos no MIT dedicados ao desenvolvimento de tecnologias baratas que possam ter um grande impacto em comunidades carentes. Em homenagem à paixão de Smith pela luta contra a pobreza, o laboratório é apelidado de "Amy's World" (o mundo de Amy).

Geralmente o D-Lab envia os estudantes ao exterior nas férias de inverno para trabalharem com pessoas que estão lutando com a falta de água limpa, eletricidade, combustível para cozinha ou poder mecânico para transformação de plantações em produtos. Mas por quatro semanas o mundo real veio ao MIT.

Durante o workshop, Smith atua como escoteira-chefe, chefe de torcida, cozinheira e compradora pessoal (quando o trabalho flui noite adentro), assim como fornece orientações periódicas para manter os participantes com os pés no chão.

Às vezes ela parece atordoada, mas nunca desconcertada. "Todos chamam isto de uma experiência", disse Smith sobre o workshop, o primeiro do gênero. "Eu chamo de realização de uma visão".

O trabalho em si geralmente representa dois passos para trás, não um passo à frente. Como Lhamotso, uma jovem mulher do Tibete, e Laura Stupin, que acabou de se formar na Olin, que trabalhavam em uma barulhenta mistura estilo Rube Goldberg de bicicleta e moinho de grãos, quando a corrente partiu com um alto clangor.

"Nós temos um sério problema de fricção", disse Stupin.

O workshop foi desenvolvido ao longo do ano passado por Smith, Pickar e outros após uma conferência para discussão da "revolução de design" -uma mudança de foco entre empresas, universidades, investidores e cientistas no sentido de atacar os problemas que impedem o desenvolvimento nos lugares mais pobres do mundo.

"Quase 90% dos dólares de pesquisa e desenvolvimento são gastos na criação de tecnologias que atendem os 10% da população mais rica do mundo", disse Smith. "A intenção da revolução de design é mudar isto".

Ela acrescentou: "Há vários locais diferentes onde tal revolução precisa ocorrer. Nós começamos a pensar: 'Como devemos treinar engenheiros para que possam começar a pensar nisto como um campo de engenharia que possam querer seguir?'"

O desenvolvimento de um moinho de grãos movido a pedal ou uma mochila para água, como fizeram os participantes do workshop, foi apenas o primeiro passo. As equipes também tinham que se certificar que suas criações poderiam ser construídas com materiais locais de forma barata o suficiente para serem compradas pelas pessoas mais pobres do mundo, que possam ser facilmente consertadas e se encaixem em modos de vida com ritmos profundamente enraizados.

O workshop teve início em meados de julho, com a chegada de cerca de 50 visitantes do Brasil, Gana, Guatemala, Tanzânia, Tibete e outros países.

Grande parte do orçamento de US$ 200 mil foi fornecido por doações de indivíduos e grupos privados, incluindo o Colegiado Nacional de Inventores e Aliança de Inovadores, que apóia programas universitários para desenvolvimento de produtos comercialmente viáveis que promovam o avanço da sociedade.

O workshop começou com uma palestra de Paul Polak, um psiquiatra que virou empreendedor, que desenvolve soluções simples para os problemas dos pobres. Polak, que se tornou uma espécie de guru do movimento de revolução de design, criticou a caridade convencional e insistiu que a rota para a prosperidade está em invenções que melhorem as vidas mas se misturem aos estilos de vida existentes.

Ele estabeleceu os princípios do desenvolvimento de baixo para cima, que incluem a importância de primeiro escutar e observar, então seguir a velha máxima "pequeno é belo" somada a outra, igualmente importante: "Barato é belo".

A meta, ele disse, deve ser melhorar as vidas de milhões e produzir tecnologias que possam ser compradas e vendidas aos poucos - como um sistema de irrigação que possa ser expandido à medida que crescer a renda do agricultor.

Polak disse em uma entrevista que pelo menos na sala de aula, a pressão por tais iniciativas vinha dos jovens.

Smith disse que queria evitar que o workshop se transformasse em mais outro exercício acadêmico, onde o único resultado freqüentemente é mais um conjunto de documentos de procedimentos ou promessas. Desta vez, ela disse, a meta é "sem papelada, apenas protótipos".

De fato, nos primeiros dias do workshop, parecia que o único papel em evidência era o crescente acúmulo de notas adesivas amarelas, azuis, verdes e rosas, como pétalas, grudadas na lousas e paredes. As anotações traçavam a progressão de necessidades básicas (água, comida, energia, saúde) a questões específicas (uma caminhada de cinco quilômetros até a fonte de água mais próxima e a volta em uma aldeia tanzaniana, a falta de kit para testar poços que uma clínica local bengalesa tivesse condições de pagar).

Smith dividiu os participantes em equipes de projeto. Então era hora das mesas redondas de discussão, esboços, desenhos técnicos e os primeiros modelos tridimensionais.

Meia dúzia de mentores voluntários ajudaram os participantes a tornarem suas idéias mais concretas. Alguns eram acadêmicos, como Ariel Phillips de Harvard, cuja especialidade é dinâmica de grupo. Outros vieram da agenda de Smith, repleta de consertadores e artesãos - pessoas cujas carreiras foram dedicadas à solução de problemas, ao transformarem metal, plástico, madeira, circuitos e motores em dispositivos funcionais. Eles incluem Dennis Nagle, um ex-projetista de armas que abandonou a profissão, ele disse, durante o Verão do Amor e se transformou em projetista de iluminação e outras coisas, como as torres de som de 24 toneladas para um concerto do Guns'N'Roses.

A tarefa dos mentores era fazer as coisas funcionarem. "Senhoras e senhores, nós estamos prestes a fazer uma visita ao Home Depot", anunciou Jock Brandis, que veio de Wilmington, Carolina do Norte, ao workshop. Após uma carreira construindo dispositivos para sets de filmagem, Brandis agora ajuda a dirigir a Full Belly Project, que desenvolve máquinas para simplificar trabalho em aldeias.

Brandis notou que o orçamento para desenvolver um descascador de amendoim para uma aldeia malinesa era muito diferente do orçamento para construção de um veículo para carregar a câmera na zona rural mexicana, para filmar Antonio Banderas galopando pelo deserto como Zorro. Mas o desafio de preencher um nicho com materiais e ferramentas limitadas é semelhante.

A outra semelhança é que ambos os projetos começam como uma folha em branco. Como colocou Brandis: "É, 'aqui está o modelo do arranha-céu feito de poliestireno, então o disco voador colide nele e precisamos filmar três vezes em três ângulos diferentes, e isto será na próxima terça-feira'".

No workshop, Brandis examinou com aprovação o projeto de um grupo para um forno com três grades de malha progressivamente mais fina para segurar o carvão de forma que pedaços grandes que não tenham sido queimados permaneçam separados do combustível plenamente consumido, limitando a fumaça prejudicial.

"O que você tenta fazer em virtualmente toda situação é tornar a vida deles mais eficiente", ele disse. "Foi esta a grande revolução na América entre 1860 e 1960 - para que a pessoa que realiza o trabalho diário possa produzir mais produtos. Isto significa que o tempo é mais valioso e significa que a pessoa tem mais tempo para fazer outras coisas".

Ashley Thomas, uma estudante do MIT, explicou o apelo de tal trabalho enquanto lidava com uma estrutura de metal para uma geladeira que usa a evaporação de um tecido molhado em vez de componentes elétricos para retirar o calor de seu conteúdo. A idéia foi concebida com participantes do Tibete, onde a carne deve ser guardada por semanas em áreas rurais isoladas, e da Índia, onde o calor pode arruinar rapidamente o estoque de um vendedor.

"Imagine um vendedor de frutas em uma área rural ou favela", explicou Deepa Dubey, um parceira de Thomas, que estuda design de produtos como estudante de pós-doutorado em Kanpur, Índia. "Ele chega com todas suas frutas e legumes. No final do dia ele ganha um dólar e o que sobra é jogado fora porque ele não tem como armazenar."

Thomas disse: "O curso de Amy é um dos mais difíceis de entrar no MIT, até mesmo na Sloan School, que é basicamente sobre ganhar um milhão de dólares após se formar".

Ela acrescentou: "Se trata de pegar a teoria do desenho industrial e aplicá-la onde é possível ter o maior impacto. Aqui, US$ 5 em cantoneira de ferro e toalhas pode significar um mês de alimentos. Para mim, isto vale muito mais do que dedicar o mesmo tempo trabalhando no projeto de um novo computador". George El Khouri Andolfato

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