UOL Notícias Internacional
 

11/09/2007

Em busca de respostas para o terrorismo, Europa olha para a sua conjuntura interna

The New York Times
Jane Perlez*
Em Londres
Desde que os ataques terroristas atingiram os Estados Unidos no dia 11 de setembro, seis anos atrás, a Europa sofreu bem mais do que os norte-americanos com novos ataques e supostas tramas terroristas.

Atentados a bomba a trens em Madri, na Espanha, três anos atrás, mataram 191 pessoas, o ataque ao sistema de transporte coletivo de Londres há dois anos matou 52 usuários do sistema e vários complôs foram descobertos e neutralizados. E na semana passada foram realizadas na Alemanha prisões relacionadas a um plano terrorista que, segundo a polícia, poderia ter causado uma carnificina ainda maior do que as ocorridas em Madri ou Londres.

Em resposta a isso, os europeus em sua maioria estão olhando para a conjuntura interna para explicar por que os extremistas islâmicos fizeram do continente um alvo preferido, enquanto os Estados Unidos vêm sendo poupados - apesar do governo daquele país e do ódio que este provocou ao fazer guerras em dois países muçulmanos.

Johannes Simon/AFP - 11.mar.2004 
Grupo de resgate trabalha em destroços de trem que foi alvo de atentado terrorista em Madri

Nesse processo, estão vindo à tona questões a respeito de como populações minoritárias de muçulmanos estão integradas ao cotidiano da Europa, bem como dúvidas referentes ao próprio islamismo. Segundo analista, os europeus estão se focalizando menos em apontar o dedo para os Estados Unidos.

Os jornais alemães que noticiaram as prisões de dois homens na semana passada - dois cidadãos alemães convertidos ao islamismo e um turco residente na Alemanha - não mencionaram o governo Bush. Em vez disso, concentraram-se no debate sobre medidas de segurança mais rígidas, bem como no próprio islã.

O jornal alemão "Bild" trouxe na sua edição da terça-feira matéria que dizia: "Não há respostas fáceis. Mas os cerca de 1,4 bilhão de muçulmanos devem ao resto do mundo pelo menos a tentativa de fornecer respostas e encontrar uma solução. Uma religião que possui margens sangrentas não pertence a um mundo que deseja e precisa procurar se unir".

Tanto a França quanto a Alemanha se opuseram à guerra no Iraque, e ambos os países foram alvos de complôs terroristas por parte de extremistas islâmicos, observa François Heisbourg, um especialista francês em terrorismo e assessor especial da Fundação de Pesquisas Estratégicas em Paris.

"Bush é incrivelmente vilipendiado na Alemanha, e o Iraque é visto como um desastre total, o que é uma verdade", diz ele. "Mas isso não faz com que as pessoas digam que enfrentamos atos terroristas devido a Bush. Por quê? Porque esses extremistas atacam um país que é contrário à política norte-americana para o Iraque".

Um relatório do governo francês de 2006 descreveu 11 tentativas por parte de jihadistas islâmicos de explodir alvos na França nos últimos dez anos, algumas delas anteriores a 11 de setembro de 2001, diz Heisbourg. Segundo ele, isso demonstra que o fato de a França ter criticado o governo Bush e se mantido distante do Iraque não conferiu ao país imunidade contra o terrorismo.

O ataque frustrado que foi anunciado pelo governo alemão na semana passada foi provavelmente motivado pelo envolvimento da Alemanha no Afeganistão, afirma Jeremy Shapiro, especialista em questões européias da Brookings Institution, uma instituição de pesquisas sócio-econômicas e de relações internacionais com sede em Washington.

Tropas alemãs no Afeganistão têm sido alvos do Taleban, e as demandas por uma retirada estão aumentando no parlamento alemão. Está marcado para o mês que vem uma votação sobre a participação alemã na guerra.

Enquanto os europeus procuram razões para a sua vulnerabilidade ao terrorismo, o Fundo Marshall Alemão dos Estados Unidos divulgou na semana passada uma pesquisa que evidenciou um aumento drástico do número de alemães que temem o terrorismo internacional.

A pesquisa mostrou que 70% dos alemães sentem que podem sofrer um ataque terrorista, o que representa um aumento de 32 pontos percentuais em relação a 2005.

Isso faz com que o medo do terrorismo entre os alemães chegue próximo do nível registrado entre os norte-americanos, entre os quais este índice, segundo uma pesquisa similar, é de 74%, afirma John K. Glenn, o diretor de política externa do Fundo Marshall Alemão.

O alarme cada vez maior na Alemanha seguiu-se a um ataque fracassado durante a Copa do Mundo de Futebol no ano passado, quando duas malas-bomba foram abandonadas em trens urbanos de passageiros, mas não explodiram. Dois suspeitos libaneses de terem participado do plano disseram ter ficado enfurecidos pelas charges publicadas primeiramente em um jornal dinamarquês, zombando do profeta Maomé.

A ansiedade crescente entre os alemães também poderia ser um reflexo do aumento dos alertas quanto ao perigo de ataques, divulgados pelo ministro do Interior, Wolfgang Schaeuble.

Os mais recentes resultados do Projeto de Atitudes Globais Pew revelam que o conceito dos Estados Unidos continua baixo na Europa. Em uma pesquisa feita em 2007 na Alemanha, a proporção das pessoas que tinham uma opinião favorável em relação aos Estados Unidos caiu de 60% em 2002 para os atuais 30%. E na França essa percentagem caiu no mesmo período de 62% para 39%. As pesquisas têm margens de erros de três ou quatro pontos percentuais para mais ou para menos.

São os espanhóis que enxergam maiores riscos em cooperar com a política norte-americana.

Uma grande maioria dos espanhóis acredita que se Jose Maria Aznar não tivesse enviado tropas espanholas ao Iraque em uma aliança com os norte-americanos quando era primeiro-ministro, o ataque contra os trens de passageiros em março de 2004 não teria ocorrido, afirma Juan Aviles, professor de história contemporânea da Universidade Nacional de Educação à Distância.

Mas ele diz que mesmo assim uma pesquisa feita em 2005 pelo Instituto Royal Elcano, uma instituição de pesquisas de Madri, revelou que 63% dos entrevistados acham que o terrorismo islâmico é principalmente um resultado do fanatismo religioso, e somente 17% afirmaram que tal fenômeno é primordialmente uma reação à política norte-americana.

Por toda a Europa, prevalece uma profunda intranqüilidade quanto à disseminação do islamismo radical, afirma Christoph Bertram, ex-diretor do Instituto de Questões de Segurança Internacional, na Alemanha.

"Existe nas nossas sociedades a sensação de que o radicalismo não foi criado pelos Estados Unidos, e sim que foi provocado pela falta de integração", afirma Bertram. "Um dos pontos que todos reconhecemos é que tem sido extremamente difícil integrar os muçulmanos de terceira geração".

Cada país europeu está descobrindo o seu próprio conjunto de problemas ao tentar lidar com a sua população muçulmana.

Na França, por exemplo, as rebeliões de 2005 em Paris entre indivíduos que eram em sua maioria imigrantes norte-africanos, muitos deles muçulmanos, foram motivadas principalmente pela discriminação econômica, afirma Heisbourg, o especialista em terrorismo. No Reino Unido, a população muçulmana é em sua esmagadora maioria paquistanesa, e está razoavelmente bem integrada sob o ponto de vista econômico, mas muitos paquistaneses possuem laços culturais mais intensos com o islamismo e com o Paquistão do que com a Grã-Bretanha.

Em resposta aos ataques de 2005 contra o sistema de transporte público de Londres, realizado por quatro homens-bomba suicidas, e antes do ataque frustrado na Alemanha, os governos britânico e alemão estavam procurando maneiras de integrar melhor as suas populações muçulmanas.

Constanze Stelzenmuller, a diretora do Fundo Marshall Alemão dos Estados Unidos em Berlim diz que as atitudes de governos anteriores de "indiferença mascarada de tolerância" foram colocadas de lado. Segundo ela, agora cursos de alemão são fornecidos a imigrantes turcos, particularmente às mulheres, a fim de integrar melhor os indivíduos que se encontram nas margens da população de origem turca na Alemanha, cujo total é de 2,7 milhões.

"O núcleo do grupo de indivíduos responsáveis pelos ataques de 11 de setembro de 2001 elaborou o seu plano em Hamburgo, de forma que ninguém está culpando os norte-americanos", afirma Stelzenmuller. "Um alemão comum ponderado diria que os jihadistas são motivados pela rejeição à sociedade, e que a política externa ocidental é uma causa básica disso".

*Ariane Bernard, em Paris, e Victoria Burnett, em Madri, contribuíram para esta matéria. UOL

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