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12/09/2007

Merkel fornece o que os alemães desejam: status quo

The New York Times
Nicholas Kulish*

Em Berlim
A chanceler Angela Merkel parece ter percebido que, ao contrário da letra da canção, é fácil ser verde.

Merkel deixou de lado a maior luta doméstica: a profunda reestruturação econômica que defendeu durante sua campanha há dois anos. E na questão da trama terrorista no coração da Alemanha, ela permaneceu em segundo plano, aparentemente feliz em ceder os holofotes ao seu ministro do Interior, Wolfgang Schaeuble.

Alex Grimm/Reuters - 4.set.2007 
Angela Merkel se beneficiou com a recuperação da economia alemã

Mas no mês passado Merkel podia ser encontrada inspecionando geleiras na Groenlândia e pedindo novas medidas para o combate ao aquecimento global em uma conferência em Kyoto, Japão. Era como se Ronald Reagan tivesse se transformado em Al Gore após ser eleito. Mas os eleitores adoraram, lhe concedendo o maior índice de aprovação desfrutado por um chanceler desde a Segunda Guerra Mundial.

"Ela aprendeu a lição", disse Josef Joffe, o publisher e editor do jornal semanal "Die Zeit". "Chega deste papo neoliberal, chega de sangue, suor e lágrimas, chega de mudança".

Os alemães parecem contentes com sua física sem rodeios transformada em política. Merkel pode carecer do brilho de seu novo par francês, Nicolas Sarkozy, que roubou parte da força dela no âmbito internacional, com sua enxurrada de atividades pós-eleitoral. Mas isto parece funcionar bem aqui.

"Ela não precisa sujar suas mãos em coisas que estão sendo altamente discutidas na Alemanha, como terrorismo e vigilância", disse Paul Nolte, um professor de história contemporânea da Universidade Livre de Berlim. E o terrorismo não é um tema eleitoral vencedor na Alemanha como pode ser nos Estados Unidos - as preocupações com a privacidade significam que esta pode cortar de ambos os lados.

Os instintos políticos de Merkel parecem mais aguçados do que qualquer um lhe deu crédito após chegar com dificuldade à chancelaria. Nas semanas que antecederam a eleição que a conduziu ao poder em 2005, Merkel parecia caminhar para uma vitória sólida - chegando até a liderar com 17 pontos percentuais de vantagem.

Em vez disso, ela conseguiu uma margem minúscula que a forçou a uma aliança desajeitada com rivais históricos, a chamada "grande coalizão" dos democratas-cristãos de centro-direita e social-democratas de centro-esquerda. Naquele dia, a maioria dos observadores anunciou que quaisquer mudanças radicais nas leis trabalhistas, sistema de saúde e previdência estavam mortas.

"Eles não têm equilíbrio de poder", disse John C. Kornblum, um ex-embaixador americano na Alemanha que atualmente trabalha como banqueiro em Berlim. "Eles têm uma paralisia mútua de poder e querem que seja desta forma".

No coração, disseram analistas locais, o povo alemão realmente não queria reformas agressivas. Eles estavam mais que satisfeitos em deixar que o Estado cuide deles, do jardim de infância até a aposentadoria.

"Talvez as pessoas em seu próprio partido não gostem, mas é uma realidade que quando perguntamos, a maioria realmente quer um modo de vida socialista aqui na Alemanha", disse Reinhard Schlinkert, o presidente da Dimap, uma firma de pesquisa em Bonn. "Elas não foram treinadas nos últimos 20 ou 30 anos para assumirem a responsabilidade por suas próprias vidas".

Merkel transformou uma mão fraca em uma vencedora, governando no centro e se virando bem sozinha com uma economia em crescimento. A ascensão do aquecimento global como questão política popular a beneficiou pelo fato de ser cientista, assim como por sua experiência como política. Ela foi ministra do meio ambiente de 1994 a 1998 e a representante alemã quando o Protocolo de Kyoto foi negociado e esboçado.

"Ela está realmente motivada", disse Ulrich Wilhelm, o porta-voz da chanceler. "Ela compartilhava os pontos de vista dos cientistas já no final dos anos 90 de que a causa é a ação humana e que ela pode ser alterada com uma mudança no comportamento humano".

Merkel também se beneficiou com a recuperação da economia alemã, que cresceu 2,9% no ano passado. Este crescimento está longe do apresentado pela China ou Índia, mas para um país que não crescia mais que 1,2% em qualquer um dos cinco anos anteriores, é um resultado excelente.

Mais importante para o sentimento nacional aqui é a melhora do mercado de trabalho. A taxa de desemprego caiu para 9%, em comparação a 12% em 2005, o ano em que Merkel chegou ao poder. A maioria dos analistas atribui o salto ao menos em parte à controversa reforma do mercado de trabalho promovida por seu antecessor, Gerhard Schroeder.

A cada verão, a coalizão de governo se retira para discutir a agenda da próximo ano legislativo do Parlamento. Neste ano, Merkel adotou o tom pragmático supremo ao dizer que a meta do Parlamento era "fazer o que fosse viável". Mas ela também soou como o oposto da thatcherista de governo pequeno, como às vezes era chamada durante a campanha. "Nós não queremos deixar ninguém para trás", ela disse.

Alguns economistas temem que as mudanças relativamente modestas no mercado de trabalho ficaram bem aquém do que a economia alemã precisa para assegurar sua competitividade a longo prazo, e que seria bom o governo aproveitar este momento de prosperidade para tratar de questões mais difíceis. Em vez disso, a há muito aguardada recuperação levou a um alívio e talvez até a um pouco de complacência.

Aleijada como Merkel parecia no início da coalizão de governo, poucos observadores poderiam prever seu atual sucesso. Ela desfruta de índices de aprovação elevados - 70% ou mais em múltiplas pesquisas recentes. Outra pesquisa recente mostrou que ela esmaga seu principal rival, o social-democrata Kurt Beck, por 42 pontos percentuais de vantagem.

Mas a pesquisa presume uma eleição direta para chanceler, o que não ocorre na Alemanha. A disputa eleitoral nacional marcada para daqui dois anos é entre partidos políticos pelas cadeiras no Parlamento. Tais pesquisas mostram por ora um empate entre os grandes partidos. Apesar da rejeição a Beck, a popularidade de políticos, mesmo Merkel, pode ser altamente volúvel...

*Victor Homola contribuiu com reportagem. George El Khouri Andolfato

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