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12/09/2007
Síndrome de Capgras: Quando familiares e amigos viram "réplicas"

Carol W. Berman*

A minha paciente, uma dona de casa de 37 anos de idade, olhou para o homem de camisa vermelha quadriculada quando ele sentou-se no sofá da sala de estar.

"Quem é você?", ela indagou.

Havia algo de familiar nele. Ele usava as botas do seu marido, mas a camisa fazia com que se parecesse com um motorista de caminhão.

"Sim, e quem é você?", retrucou o homem com uma gargalhada. "Venha cá e me dê um beijo".

Ela deu um beijo na face do homem, mas sentiu-se culpada, temendo que o marido chegasse a qualquer momento e brigasse. O homem não queria apenas um beijo - ele queria sexo!

Desencorajando-o, ela sentou-se para conversar. O homem falou exatamente como o seu marido, e conhecia fatos pessoais sobre ela. Pela cabeça da paciente passou o pensamento de que o seu marido havia sido misteriosamente substituído por esse cara. Ela não tinha a menor idéia de como isso acontecera; só sabia que acontecera.

A minha paciente tem um histórico de desordem esquizóide-afetiva, similar à esquizofrenia, mas com uma maior amplitude emocional. E quando ela me falou sobre esse incidente na sua consulta semanal no dia seguinte, temi que a sua psicose estivesse retornando. "Você tem tomado o seu remédio?", indaguei.

Ela admitiu que fazia alguns dias que não tomava o seu anti-psicótico, Clorazil, devido a um efeito colateral, a salivação excessiva.

"Com o seu problema, é importante tomar o remédio todos os dias", disse eu gentilmente.

Ela gosta de mim e me respeita, mas fica irritada quando dou ordens. "Se você soubesse como é embaraçoso babar pelo corpo todo, não me faria tomar esse remédio", reclamou a paciente.

Enquanto eu tentava fazer com que ela me prometesse que voltaria a tomar o remédio, a mulher subitamente sentou-se e olhou para mim.

"Qual o problema?", perguntei.

Houve uma pausa. Eu vi que ela se recompunha antes de falar. "Você tem a mesma voz, mas o seu nariz é maior e a sua face mais longa".

Ela pediu desculpas e saiu dez minutos mais cedo. Permiti que a paciente saísse, porque sabia que ela não agüentaria permanecer comigo mais tempo.

Dias depois, o seu marido me ligou dizendo que ela estava "doida" de novo, acreditando que eu e, agora, os seus pais, haviam sido substituídos por réplicas. Tive que interná-la e fazer com que ela voltasse a usar a medicação. A minha paciente sofre de uma modalidade da síndrome de Capgras, que faz com que o doente acredite que as pessoas à sua volta foram substituídas por réplicas inexatas.

A doença era considerada rara, mas quanto mais trabalho com pacientes geriátricos, mais me deparo com esse tipo de caso.

A desordem foi descrita pela primeira vez em 1923 pelos psiquiatras franceses Joseph Capgras e Jean Reboul-Lachaux. Eles trataram uma mulher de 53 anos que acreditava que o marido, os filhos e os vizinhos haviam sido substituídos por réplicas perfeitas, como parte de um complô para roubar a sua propriedade.

Na síndrome de Capgras, existe uma dessincronização entre percepção e reconhecimento que faz com que diversos pesquisadores sugiram que possa haver uma causa neurológica, orgânica, que permanece desconhecida. Os psicanalistas enxergaram na síndrome de Capgras uma forma inusual de deslocamento na qual o paciente rejeita as pessoas amadas toda vez que seja necessário atribuir a estas características negativas.

Mas a culpa e a ambivalência impedem o paciente de tornar-se conscientes dessa rejeição. As sensações negativas são deslocadas para uma réplica, que é um impostor e que pode ser rejeitado de forma segura. Anna Freud achava que essa ilusão permitiria que os pacientes se defendessem da perda e da ansiedade causadas por mudanças nos relacionamentos próximos.

Após voltar a tomar a medicação, a minha paciente deixou rapidamente de acreditar que o marido, os pais e a psiquiatra eram réplicas. Quando o seu estado mental ficou suficientemente bom para que ela voltasse a fazer o tratamento sem internação, perguntei-lhe se ela já havia visto o filme "Invasion of the Body Snatchers". Ela disse que não.

Achei melhor não explicar a história do filme a ela...

*Carol W. Berman, psiquiatra em Manhattan, é professora do Centro de Medicina da Universidade de Nova York.

Tradução: UOL

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