UOL Notícias Internacional
 

13/09/2007

Painel de especialistas pede a Banco Mundial que reformule plano anticorrupção

The New York Times
Steven R. Weisman
Em Washington
A iniciativa anticorrupção liderada por Paul D. Wolfowitz como presidente do Banco Mundial, que desagradou a instituição e contribuiu para a queda dele, continua emperrada devido ao mau gerenciamento, à desconfiança interna e à resistência dos funcionários ao combate das fraudes, concluiu na quarta-feira (12/09) um painel de especialistas externos.

O painel, liderado por Paul A. Volcker, o ex-diretor do Federal Reserve (o Fed, o banco central dos Estados Unidos), recomendou que o novo presidente do banco, Robert B. Zoellick, trabalhe com a diretoria do banco no sentido de reformular as suas operações anticorrupção e injetar mais confiança nos funcionários da instituição e nos países afetados.

"Este não é um problema fácil", disse Volcker em uma entrevista na quarta-feira. "De longe, a tarefa mais importante é fazer com que o banco inteiro entenda a importância da iniciativa anticorrupção. Isso vai de encontro a décadas de uma tendência contrária. Tem havido conflito direto no banco no que diz respeito à instituição exercer ou não uma função anticorrupção".

O relatório há muito tempo aguardado disse ser impossível quantificar as perdas causadas por esquemas fraudulentos de licitações, propinas, baixa qualidade de bens e serviços e outros problemas relativos à corrupção nas operações de mais de US$ 20 bilhões anuais envolvendo empréstimos a países pobres.

"Existe, no entanto, uma sensação generalizada de que as perdas são substanciais", diz o relatório. Funcionários atuais e aposentados do banco dizem que algumas modalidades de fraude afetam até 40% dos programas do banco. A corrupção foi uma marca registrada de Wolfowitz, ex-secretário de Defesa do presidente Bush que foi obrigado a renunciar ao cargo no banco em maio após a revelação de que em 2005 ele montou um esquema para aumento de salário e promoção para Shaha Ali Riza, a sua namorada e funcionária do banco na época.

Mas as suas ações relacionadas ao combate à corrupção, como a suspensão do auxílio a países sem consultar a diretoria do banco, provocou a ruptura dos seus vínculos com a equipe de funcionários e os diretores da instituição. Um efeito disso foi o fato de a diretoria e Wolfowitz terem concordado em trazer Volcker no ano passado para examinar as iniciativas de combate à corrupção.

Zoellick recebem bem o relatório devido "às suas excelentes, e espero que bastante úteis, recomendações", e indicou que provavelmente implementará a maioria delas. Assessores próximos ao novo presidente disseram que o sucesso dos esforços anticorrupção dependerá tanto do seu empenho pessoal em consertar fissuras no banco quanto de mudanças gerenciais.

Em uma entrevista, Zoellick afirmou que muitas das propostas de Volcker estão em sintonia com os planos que ele e a sua equipe já criaram. "A recomendação mais importante é que, por serem uma função vital do banco, os esforços anticorrupção precisam ser incorporados a tudo o que fazemos", disse ele.

Segundo opiniões generalizadas, Volcker, que investigou o escândalo do escambo de petróleo por alimentos, no qual o Iraque arrecadou dinheiro com as suas vendas de petróleo, teve que lidar com várias acusações e contra-acusações acrimoniosas. Várias delas focaram-se nas atividades da unidade de integridade institucional, chefiada por Suzanne Rich Folsom, uma ex-ativista do Partido Republicano que foi designada por Wolfowitz para ocupar o cargo.

Muitos funcionários do banco afirmam que, sob a chefia de Folsom, a campanha anticorrupção foi implementada de forma seletiva e injusta contra certos funcionários e países, e que foi elaborada para promover a agenda de uma republicana conservadora que não confiava na missão do banco.

Por outro lado, os aliados de Folsom disseram que foram constantemente assediados por funcionários do banco que viam a corrupção como um problema menor e como um custo aceitável para se fazer negócios em países mal governados.

O relatório de Volcker, embora isentando a equipe anticorrupção da prática de injustiças ou de motivações políticas, afirmou que uma "mentalidade de cerco" na unidade de integridade institucional levou a um "secretismo excessivo" quanto às suas atividades e a uma recusa de compartilhamento das descobertas com colegas e pessoas dos países afetados.

Em geral, o relatório diz que o banco realizou um trabalho precário em se tratando de fazer com que as descobertas de corrupção fossem acompanhadas de ações corretivas em diversos países, e recomenda que Zoellick selecione um gerente graduado para supervisionar as iniciativas de trabalho com países e autoridades de bancos regionais a fim de erradicar a corrupção, tão logo esta seja revelada. Ele também recomenda a criação de um painel de assessores externos para avaliar as atividades anticorrupção.

Em uma censura significante a Wolfowitz, o painel recomendou também que o chefe da unidade de integridade não atue como conselheiro no gabinete do presidente do banco, conforme se fazia durante a administração de Wolfowitz.

Os críticos afirmaram que, com esse arranjo, Wolfowitz e os seus principais assessores receberam de Folsom informações sobre corrupção que não eram compartilhadas com colegas de banco, o que levou a decisões de financiamentos que recompensaram ou puniram países por razões políticas, e a ações retaliatórias contra pessoas sem que tivessem sido aplicados os procedimentos oficiais necessários.

Na entrevista, Volcker afirmou que ele e os investigadores não descobriram evidências de que o banco agiu a favor ou contra qualquer país baseado em motivações políticas. "Quanto a essas questões relativas a preconceitos e coisas do gênero, não encontramos nada que as fundamentasse", disse ele. Mas Volcker acrescentou que as investigações das acusações de corrupção, foram "trabalhosas" e "indolentes".

O painel recomendou ainda que a iniciativa anticorrupção seja implementada por uma equipe mais diversificada, em uma referência à crítica de que, durante a era Wolfowitz, quase 40% da equipe e a maioria dos líderes das unidades era composta de norte-americanos.

Uma questão importante que não foi respondida pelo relatório, e que intriga especialmente os 10 mil funcionários do banco, é o futuro da liderança de Folsom. Assessores graduados de Wolfowitz deixaram o banco, e vários funcionários manifestaram abertamente a sua esperança de que Folsom seguisse esse exemplo.

No entanto o relatório elogiou a operação da unidade de integridade, e, implicitamente, o desempenho da sua diretora. Indo mais longe, Volcker disse na entrevista que ela fez um trabalho excelente e que ele não encontrou qualquer evidência que embasasse a acusação de que Folsom favorecia determinados indivíduos.

Zoellick disse ainda que não pretende remover Folsom, e Folsom, uma advogada com experiência em questões éticas corporativas, emitiu uma declaração elogiando o relatório de Volcker, e disse que não renunciará. "Sou dedicada ao trabalho deste departamento e à missão da instituição", disse ela.

No entanto, duas pessoas próximas a Folsom afirmaram que após as batalhas relativas a Wolfowitz, e depois de sentir-se inocentada pelo relatório de Volcker, não ficariam surpresas se ela deixasse o banco ainda neste ano.

O painel recomendou ainda que a unidade de integridade interrompa as investigações sobre assédio sexual - Volcker afirmou que esse é um "problema crônico" no banco - e outras formas de conduta pessoal condenável. Segundo ele, tais investigações têm desviado a atenção dos outros problemas e se constituem em um foco de ressentimento entre os funcionários.

Segundo o relatório, tais acusações devem ser investigadas por uma unidade da divisão de recursos humanos. UOL

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,97
    3,127
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    0,99
    64.389,02
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host