UOL Notícias Internacional
 

14/09/2007

O relacionamento da Sérvia com a Europa continua colorido por Kosovo

The New York Times
Nicholas Wood
Em Belgrado, Sérvia
Oito anos após ter sido atingido pelos ataques aéreos da Otan, o antigo Ministério da Defesa iugoslavo ainda está em ruínas, na avenida Knez Milosa, uma lembrança do que os sérvios consideram uma agressão gratuita do Ocidente na guerra pela província de Kosovo.

Sua revolta está se reacendendo enquanto governos ocidentais, particularmente dos EUA, falam em reconhecer Kosovo neste ano como Estado independente. Os governos dizem que, na ausência de reconciliação, isso ajudaria a estabilizar a região, pois separaria oficialmente os sérvios dos albaneses, que são a maior parte da população do Kosovo.

Políticos sérvios, até os pró-Ocidente, disseram que se preocupam que o reconhecimento de Kosovo introduziria uma nova era de isolamento sérvio e de hostilidade contra o Ocidente - diminuindo a influência da Europa no país.

Desde o fim da guerra, em 1999, a Europa tentou integrar a Sérvia à Otan e à União Européia. Como potência regional, a Sérvia esperava obter um caminho fácil para a Europa, especialmente depois que muitos de seus vizinhos ingressaram na união.

A Europa, entretanto, também exigiu que os sérvios fizessem um novo esforço e entregassem importantes suspeitos de crimes de guerra, procurados pelo tribunal da ex-Iugoslávia em Haia. A Sérvia obedeceu apenas parcialmente.

Se os países ocidentais reconhecerem Kosovo, então "não precisaremos da União Européia", disse em entrevista Velimir Ilic, ministro de infra-estrutura sérvio e importante aliado político do primeiro-ministro. "Significaria que eles não são nossos amigos". E acrescentou: "É uma escolha difícil, mas a Sérvia tem seu orgulho e sua integridade".

Ilic, que tem fama de populista, é o único do alto escalão a emitir tal declaração. Outros, entretanto, concordam que uma reação nacionalista esfriaria as relações com o Ocidente.

Um amplo reconhecimento de Kosovo "pode levar a uma cadeia de eventos com conseqüências imprevisíveis, inclusive a perda da perspectiva européia para a Sérvia", escreveu Leon Koen, ex-líder da equipe negociadora da Sérvia em Kosovo, no jornal Dnevnik.

O alto diplomata sérvio para a integração européia acredita que, se há algum apoio entre os sérvios para a prisão de suspeitos de crimes de guerra e seu julgamento em Haia, ele desapareceria se Kosovo fosse reconhecido.

"Não posso ver como alguém estaria disposto a apoiar a cooperação" com o tribunal, disse Milica Delevic, reformista e secretário do Ministério de Relações Exteriores da Sérvia para relações com a União Européia. "Estaremos em dificuldades".

Governos ocidentais estão determinados a resolver o futuro de Kosovo, estabilizar a província e acalmar os albaneses étnicos, que são mais de 90% da população e pedem a independência. Os EUA falaram abertamente em reconhecer Kosovo e estão pressionando os europeus a estabelecerem uma política.

Os europeus, porém, estão parados em um canto, tendo pressionado por um acordo no Conselho de Segurança que foi bloqueado pela Rússia. Isso deixa a Europa dividida, justo quando está tentado demonstrar uma política externa forte.

Kosovo vem sendo administrado pela Organização das Nações Unidas desde 1999, depois de uma campanha de bombardeios da Otan para expulsar as forças Sérvias que haviam cometido atrocidades amplas contra os albaneses.

O presidente iugoslavo durante a guerra, Slodoban Milosevic, foi derrotado nas eleições de 2000 e entregue ao tribunal de crimes de guerra em Haia, onde morreu enquanto seu julgamento estava em andamento. A Iugoslávia continuou sua devolução, e Montenegro finalmente declarou independência da Sérvia em maio do ano passado.

Enquanto isso, a Sérvia fez um progresso hesitante na direção da associação à União Européia e à Otan. O país espera terminar os acordos formais de aproximação com a UE neste ano. No ano passado, a Sérvia tornou-se parceira da Otan no programa de paz, e assim está a um passo da associação plena à aliança.

Altos membros do Partido Democrático pró-Ocidente - inclusive o presidente sérvio Boris Tadic, e o ministro de relações exteriores, Vuk Jeremic - garantiram aos aliados ocidentais que a Sérvia continuava determinada a associar-se às instituições euro-atlânticas independentemente do que aconteça com Kosovo.

Entretanto, sinais de rompimento com o Ocidente estão emergindo, e autoridades próximas ao primeiro-ministro sérvio, Vojislav Kostunica, estão advogando um relacionamento mais próximo com a Rússia, aliada que até agora bloqueou as tentativas no Conselho de Segurança para dar independência a Kosovo.

Analistas políticos dizem que os jornais conservadores e a mídia estatal vinham promovendo opiniões mais favoráveis da Rússia e do presidente Vladimir Putin em particular.

Ao mesmo tempo, conservadores do círculo de Kostunica estão questionando o valor dos laços com a Otan.

"Queremos cooperação, mas não associação plena", disse Dusan Prorokovic, secretário Estadual da Sérvia para Kosovo e importante membro do Partido Democrata Sérvio, de Kostunica, acrescentando que a maior parte dos sérvios nunca perdoou a aliança por sua entrada na guerra e a campanha de bombardeio de 78 dias. "Pessoalmente, não consigo esquecer".

Dois ministros do governo acusaram a Otan de tentar fazer de Kosovo um Estado para seus próprios propósitos.

De fato, o apoio público à Otan nunca foi alto, e o ceticismo em relação à União Européia aumentou enquanto as negociações se arrastaram, de acordo com profissionais de pesquisas de opinião.

O apoio ao ingresso na União Européia caiu para 53% em agosto, de acordo com a agência Strategic Marketing.

"O debate está tomando uma direção que torna a estratégia para a entrada na Otan e na UE muito difícil", disse Delevic, secretário do Ministério de Relações Exteriores da Sérvia para relações com a UE.

Autoridades da UE insistem que um acordo entre albaneses e sérvios é possível.

Qualquer que seja o resultado, autoridades em Bruxelas argumentam que os interesses de longo prazo da Sérvia estão no Ocidente.

"Não acho que os sérvios queiram fazer parte da federação russa. Eles vêem o futuro deles na União Européia", disse Cristina Gallach, porta-voz de Javier Solana, diretor de política externa da União Européia, em entrevista telefônica.

Com a decisão sobre Kosovo se aproximando, porém, analistas regionais dizem que os nacionalistas que dominam o parlamento sérvio controlam os eventos na Sérvia.

"As pessoas em Bruxelas presumem que todos os países na Europa estão morrendo para entrar na União Européia", disse James Lyon, diretor em Belgrado do Grupo de Crise Internacional, um grupo de pesquisa política com escritórios nos Bálcãs. Mas se Kosovo se separar, a força da Europa sobre a Sérvia vai se evaporar, ao longo com sua capacidade de promover a reforma, disse ele em uma entrevista telefônica.

"O que você faz com um país que não quer participar da UE?" disse ele. Deborah Weinberg

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