UOL Notícias Internacional
 

14/09/2007

Qual é a capital da Bolívia? Depende do lugar em que a pergunta for feita

The New York Times
Simon Romero
Em Sucre, Bolívia
"Bem-vindo à capital da Bolívia", lê-se em uma placa que saúda os passageiros que desembarcam no aeroporto desta cidade sonolenta, que encerra a operação da pista de pouso ao cair da noite.

Sim, o presidente, o Congresso, o banco central, os ministérios e as embaixadas estrangeiras podem estar em La Paz, que fica 400 quilômetros ao norte daqui, e que tem uma população quatro vezes maior que a de Sucre, que é de 250 mil habitantes.

Mas, para o desconforto de parte do resto do país, os moradores daqui insistem em afirmar que a placa está correta. Ainda ressentida devido a uma guerra civil ocorrida em 1899 que fez com que os poderes executivo e legislativo fossem retirados de Sucre e deslocados para La Paz, deixando aqui apenas os supremos tribunais, esta cidade está fazendo campanha para voltar a ser a capital integral da Bolívia.

David Rochkind/The New York Times 
Manifestantes simpatizantes de Evo Morales fazem oposição à campanha de Sucre

Os esforços aparentemente quixotescos de Sucre para recuperar aquilo que perdeu estão evoluindo para a crise mais intensa com que se depara Evo Morales, um ex-pastor de lhamas e membro do grupo indígena aimará que se tornou o primeiro presidente índio do país.

"Aqui não sacrificamos lhamas como eles fazem nos altiplanos", afirma Jaime Barron, reitor da Universidade de Sucre e um dos líderes da campanha, em uma alusão tanto às políticas radicais de Morales quanto à sensação de que as tradições aimarás das terras altas bolivianas estão sendo impostas a esta região central.

"Nós queremos simplesmente aquilo que foi retirado de Sucre 108 anos atrás, para permitir que nos tornemos o centro geopolítico da América do Sul", continua Barron.

É uma meta grandiosa para esta cidade, cujas casas caiadas lembram uma época mais requintada da história boliviana. E, por ora, é um objetivo que parece muito difícil de se materializar.

Recentemente, um milhão de manifestantes lotaram o centro de La Paz em oposição à campanha de Sucre, em uma demonstração da força da base política de Morales, e da resistência à ambição de Sucre. Os economistas afirmam que os custos para a transferência da presidência e da legislatura para Sucre, que mantém o título de "capital constitucional", seriam descomunais para a Bolívia, que é a nação mais pobre da América do Sul.

Mas os defensores da proposta de Sucre, que fizeram protestos de rua e greves de fome, já obtiveram uma vitória ao transformarem a sua campanha no projeto mais polêmico em pauta na Assembléia reunida aqui para reescrever a Constituição boliviana. O movimento distraiu os delegados de propostas que intensificariam os desafios de Morales à elite branca da Bolívia.

Preocupados com a sua segurança quando os manifestantes saíam as ruas daqui na semana passada, os delegados da assembléia declararam no final de semana um recesso de um mês. Essa decisão, conjugada a uma determinação de um tribunal permitindo que a assembléia aceite examinar a proposta de Sucre, encorajou os manifestantes e os indivíduos que fazem greve de fome a encerrar os protestos.

"A oposição tirou um coelho da cartola com a exigência de Sucre de voltar a ser a capital do país", afirma Jim Shultz, um analista político da cidade de Cochabamba, na região central da Bolívia.

Devido ao estímulo que é o apoio da maioria a Morales, a Assembléia Constituinte foi convocada um ano atrás em meio aos sonhos de criação de medidas com o objetivo de livrar os povos indígenas da Bolívia de séculos de pobreza e servidão. Existem as mais diversas propostas, como rebatizar a Bolívia com o seu nome indígena, Qollasuyo, e permitir que Morales seja reeleito indefinidamente.

Os políticos das províncias das terras baixas irritam-se com tais idéias, alegando que Morales é um fantoche do seu mais próximo aliado, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez. E embora o leste da Bolívia continue sendo um reduto de grupos antigovernamentais e um foco de conspirações separatistas, Sucre tornou-se um ponto crítico para as tentativas de minar a influência do presidente.

Por exemplo, em frente ao gabinete da prefeita Aydee Nava há um pôster com um desenho de Morales em um uniforme nazista e usando cães para atacar manifestantes, sendo encorajado por uma camponesa dos altiplanos. Próximo dali, na sede do governo da província, os manifestantes colocaram uma faixa com os dizeres: "Palácio Governamental, Bolívia".

Até mesmo as mochilas escolares das crianças daqui algumas vezes trazem as palavras: "Sucre Capital Completa".

Nessas ações e outras do gênero presenciadas pela Bolívia, o governo de Morales enxerga as mãos das elites tentando enfraquecê-lo.

Exibindo documentos obtidos pelo serviço de inteligência federal, autoridades de La Paz afirmaram na semana passada que um grupo da cidade de Santa Cruz, nas terras baixas, planejou sabotar a Assembléia Constituinte, alimentar a tensão regional e dar início a manifestações pela derrubada de Morales.

Fazendo com que aumentassem os temores de que as tensões entre Sucre e La Paz possam descambar para a violência, 10 mil partidários do presidente viajaram para cá de ônibus e a pé nesta semana a fim de denunciar a campanha de Sucre. Eles gritaram, "Morte àqueles que desejam dividir o país", em frente aos perplexos moradores daqui.

Mas para muitos integrantes da resistência movida por Sucre, a idéia do retorno à grandeza burocrática da cidade ofusca esses temores. "Esta é a capital da Bolívia", afirma Jhon Cava, presidente do comitê cívico de Sucre. "Somos pessoas ponderadas, e muitas coisas ainda estão sobre a mesa de discussões", continua ele, afirmando que qualquer transferência da capital para Sucre seria gradual. "Se as embaixadas desejarem permanecer em La Paz, cabe a elas decidir, e o mesmo se aplica a alguns ministérios. Tudo o que estamos afirmando é que existe uma dívida para com Sucre e chegou a hora de quitá-la". UOL

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