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15/09/2007

Rastro de e-mails e mensagens de texto em caso de espionagem no automobilismo

The New York Times
Brad Spurgeon

Em Spa-Francorchamps, Bélgica
Um dia depois do mundo da Fórmula 1 ter ficado chocado com a multa de US$ 100 milhões por espionagem, a federação do esporte revelou detalhes extraordinários do escândalo.

Em um relato de 15 páginas - incluindo detalhes das mensagens de e-mail e mensagens de texto de celular - a Federação Internacional de Automobilismo (FIA) explicou na sexta-feira a punição que impôs na quinta-feira à McLaren Mercedes. O que surgiu foi uma história de intriga, um vislumbre de como funciona o pináculo do esporte à motor.

Na Fórmula 1, cada equipe gasta centenas de milhões de dólares a cada temporada na construção de um carro visando ganhar preciosos segundos na competição.

O compartilhamento da propriedade intelectual, até certo ponto, faz parte do jogo, com equipes usando fotógrafos para tirarem fotos de tecnologia elaborada pertencente ao concorrente para obter uma vantagem minúscula.

Mas a federação concluiu que a equipe McLaren provavelmente obteve uma vantagem indevida ao obter dados de sua rival Ferrari.

Na quinta-feira, além da multa, a equipe McLaren foi eliminada da disputa do campeonato de construtores desta temporada.

O caso veio à tona nos dias que antecederam o Grande Prêmio da Inglaterra, em 8 de julho. Mas seu início remonta a aposentadoria de Michael Schumacher da Ferrari no ano passado, após 11 temporadas com a equipe, e a licença resultante de Ross Brawn, o diretor técnico da Ferrari.

Nigel Stepney, um braço direito de Brawn, estava descontente com seu novo chefe. Segundo o relatório da federação, já na primeira corrida desta temporada em meados de março, o Grande Prêmio da Austrália em Melbourne, Stepney começou a se comunicar com seu amigo e ex-colega, Mike Coughlan, o projetista chefe da McLaren, sobre detalhes do carro da Ferrari e a estratégia da equipe.

Em julho, o caso se concentrava apenas em um documento de 780 páginas encontrado na casa de Coughlan, na Inglaterra.

A Ferrari alega que foi alertada sobre o documento por um funcionário de uma loja de fotocópias em Woking, Inglaterra, onde fica a sede da McLaren. O funcionário da loja de fotocópias era fã da Ferrari e suspeitou do documento.

Mas, segundo Stepney, em uma entrevista para a imprensa britânica no início de julho, a Ferrari vinha seguindo seus movimentos durante toda a temporada.

Em 4 de julho, a McLaren disse que os dados não foram transferidos para o carro ou usados por qualquer outra pessoa dentro da empresa, mas que foi um incidente isolado envolvendo um funcionário agindo à revelia da equipe.

Mas a evidência divulgada na sexta-feira sugere o contrário. Foi mostrado que Coughlan e Stepney não apenas se comunicaram regularmente desde antes da primeira corrida da temporada - vencida por Kimi Raikkonen da Ferrari - mas também com dois pilotos da equipe McLaren.

Coughlan trabalhou com o piloto de teste da McLaren, Pedro de la Rosa, em outra equipe anos atrás. Coughlan compartilhou algumas informações por e-mail com De la Rosa.

"Oi, Mike, você sabe qual é a distribuição de peso do carro vermelho?" escreveu De la Rosa em uma mensagem por e-mail para Coughlan em 21 de março, três dias depois da primeira corrida. "Seria importante sabermos isto para podermos testar no simulador". Na audiência de quinta-feira, De la Rosa confirmou que Coughlan respondeu com uma mensagem de texto "com detalhes precisos da distribuição de peso da Ferrari".

De la Rosa então enviou um e-mail para Fernando Alonso, o piloto da Ferrari e atual campeão do mundo, apontando a distribuição de peso da Ferrari com precisão de duas casas decimais para cada um dos dois carros da Ferrari, como foram ajustados para o Grande Prêmio da Austrália.

"A distribuição de peso dela me surpreendeu", Alonso respondeu em uma mensagem de e-mail.

"Eu não sei se é 100% confiável, mas pelo menos chama a atenção".

De la Rosa respondeu em 25 de março dizendo: "Toda a informação da Ferrari é bastante confiável. Ela veio de Nigel Stepney, o ex-mecânico chefe deles".

O piloto de teste então mencionou a Alonso em uma mensagem de e-mail que já na primeira corrida da temporada, Stepney foi "a mesma pessoa que nos informou" qual seria a volta exata em que Raikkonen faria seu primeiro pit stop na Ferrari, antes da corrida.

Outras informações fornecidas incluíam coisas como um gás especial usado pela Ferrari para encher seus pneus visando reduzir a temperatura interna e a formação de bolhas na borracha.

"Nós teremos que tentar isto, é fácil", escreveu De la Rosa para Alonso.

A McLaren negou que a equipe tenha tentado tais coisas. Mas a federação concluiu que por tais decisões nunca serem tomadas apenas pelos pilotos, a informação deve ter sido compartilhada com outros membros da equipe.

Isto entra em conflito com o quadro apresentado pela McLaren na época da audiência da federação em 26 de julho, quando continuava argumentando que se tratava apenas de um "funcionário agindo à revelia", que mantinha os dados para si mesmo.

A troca de e-mails continuou até abril, quando De la Rosa pediu a Coughlan detalhes do sistema de freios da Ferrari, que foram informados por Coughlan.

Em junho, a Ferrari entrou com processo contra Stepney em um tribunal em Modena, Itália.

A polícia italiana forneceu à federação de automobilismo evidências mostrando que Coughlan e Stepney trocaram 288 mensagens de texto e 35 telefonemas entre 11 de março e 3 de julho.

Para a federação, esta evidência parecia anular o argumento de que dois funcionários agindo à revelia estavam apenas compartilhando dados.

"A vantagem obtida poderia ser sutil já que Coughlan estava em posição de sugerir formas alternativas de resolver diferentes problemas de projeto", disse o relatório.

O relatório posteriormente conclui que a evidência levou a federação a "concluir que certo grau de vantagem esportiva foi obtida, apesar de ser impossível quantificar tal vantagem em termos concretos".

Após a divulgação do relatório na sexta-feira, Ron Dennis, o chefe da Mclaren, continuou negando que a equipe obteve qualquer vantagem e apontou que ele mesmo forneceu algumas das evidências finais, após tomar conhecimento do assunto no Grande Prêmio da Hungria, em 5 de agosto.

"Nós agora temos sete dias para apelar e estamos considerando cuidadosamente a posição da empresa assim que tivermos uma entendimento pleno das conclusões da FIA", disse Dennis. George El Khouri Andolfato

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