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15/09/2007

Sobre uma morte na fronteira

The New York Times
Randal C. Archibold
Em Sasabe, no Arizona
"Não consigo respirar", disse, ofegante, Felicitas Martinez Barradas ao seu primo, enquanto os dois cambaleavam pela fronteira sob um calor de 38 graus Celsius. "O sol está me matando".

Eles já vinham caminhando por um dia e meio pelo Deserto de Sonora, no sul do Arizona, o purgatório pelo qual passam incontáveis imigrantes no trajeto do México aos Estados Unidos.

Felicitas tinha 29 anos de idade e não estava em boa forma física. Um contrabandista deu a ela uma lata de bebida energética gasosa e pílulas de cafeína. Mas isso só fez com que ela se sentisse mais doente e desmaiasse, disse o seu primo, Julio Diaz.

Monica Almeida/The New York Times 
Vicente Martínez Ortega em Tepletan, México, diante da cova de sua filha, Felicitas

Lá, perto de uma algarobeira, a pouco mais de 16 quilômetros da fronteira, Felicitas morreu com os olhos abertos para o céu estrelado, os braços cruzados sobre o peito e com Diaz, 17, ao seu lado. Acabou-se o seu sonho de ganhar nos Estados Unidos dinheiro suficiente para construir uma casa para ela e os quatro filhos pequenos no México.

"Ela era muito determinada quando tomava uma decisão", disse a sua irmã, Ely, no México, que tentou persuadir Felicitas a não partir. "Quando ela decidia alguma coisa, nada era capaz de detê-la".

A Patrulha de Fronteira anunciou uma grande redução do número de imigrantes ilegais apreendidos na fronteira com o México neste ano. Segundo a agência, isso é uma conseqüência da atuação de uma quantidade maior de agentes e da presença de tropas da Guarda Nacional. Mas o número de migrantes que morrem enquanto tentam fazer a travessia aqui no Condado de Pima está prestes a bater um recorde, segundo o médico legista do condado.

O Condado de Pima, que inclui a área de Tucson, é uma das áreas mais movimentadas para as travessias ilegais ao longo da fronteira de 3.200 quilômetros. O departamento de medicina legal registrou 177 mortes de indivíduos que cruzaram a fronteira nos primeiros oito meses deste ano, contra 139 no mesmo período do ano passado, e 157 em 2005, o ano no qual foi registrado o maior número de mortes.

A morte de Felicitas em julho é um exemplo do motivo pelo qual, segundo estudiosos da imigração, a Patrulha de Fronteira e autoridades governamentais dos Estados Unidos e do México, o índice de mortalidade dessas pessoas continua tão elevado: à medida que os imigrantes evitam cada vez mais as áreas urbanas fortemente patrulhadas, eles cruzam o deserto, sem contar com nenhum conhecimento sobre ele. O calor, os insetos, os animais selvagens e o terreno acidentado fazem desta uma das regiões mais inóspitas do planeta.

Assim como Felicitas, que trabalhava como faxineira no México, vários imigrantes que cruzam a fronteira são provenientes das regiões central e sul do México, que são mais frias e úmidas do que o Arizona, e onde as pessoas têm menos familiaridade com o deserto e os seus perigos.

Antes de entrar no Deserto de Sonora, ela havia feito uma viagem de três dias até o lado mexicano da fronteira, parte da jornada a partir da sua vila de Tepletan, no Estado de Veracruz, em uma região verdejante e subtropical, que fica a quatro horas de automóvel da Cidade do México.

O seu primo, Diaz, disse que os dois ficaram em um quarto na fronteira com 15 outros imigrantes, e que cada um recebeu duas latas de atum, um pacote de tortilhas, e seis litros de água de um contrabandista antes de rumarem para o deserto.

O aumento do número de mortes aqui nos últimos anos seguiu-se à intensificação das ações repressivas por parte da Patrulha de Fronteira na Califórnia e no Texas. O objetivo da repressão foi desviar o tráfico de imigrantes de cidades como San Diego e El Paso, deslocando a movimentação dessas pessoas para regiões remotas do deserto, segundo a lógica de que isso desencorajaria os mexicanos a tentar cruzar a fronteira. Mas embora não exista forma de saber o efeito geral da medida, essa estratégia está funcionando em parte como um funil para um número desconhecido de imigrantes.

O Departamento de Responsabilidade do Governo, em um relatório do ano passado que trouxe uma análise das estatísticas da Patrulha de Fronteira, anunciou que o número anual de mortes oficialmente registradas dobrou entre 1995 e 2005, chegando a 472, sendo que a maioria dessas mortes ocorreu no deserto próximo a Tucson. O relatório sugeriu que a agência não registrou todas as mortes devido a um sistema de classificação inconsistente.

Agentes da Patrulha de Fronteira dizem que à medida que a instituição contrata mais agentes, conforme autorizado recentemente pelo Congresso, estes serão mais capazes de patrulhar as áreas mais inóspitas do Deserto de Sonora. Segundo o relatório, os comandantes das operações recentemente se reuniram a fim de instituir métodos melhores para a contagem das mortes de imigrantes.

"Estamos bem conscientes dos perigos intrínsecos à travessia do deserto", afirmou Lloyd Easterling, um porta-voz da agência. "E é por isso que estamos tentando enviar nosso pessoal para determinadas áreas a fim de dissuadir as pessoas a se lançarem em tal aventura".

No Consulado do México em Tucson há um mapa adornado com pedaços de fitas amarelas e azuis, marcando os locais onde, respectivamente, imigrantes do sexo feminino e masculino morreram. Felicitas é a fita amarela número 114.

Jeronimo Garcia Ceballos, um oficial de consulado, é o responsável pelo mapa e dedica grande parte do seu trabalho a identificar os mortos e a providenciar o retorno dos corpos para o México.

O seu escritório é adornado com pôsteres que trazem slogans como, "Não deixe a sua vida no deserto; a sua família pede que você não faça isso", um exemplo da campanha pública que tanto o México quanto os Estados Unidos têm aplicado ao longo de rotas conhecidas de imigração.

Ele lembra-se de ter recebido o telefonema da Patrulha de Fronteira a respeito do corpo de Felicitas. "Muito triste, mas foi um caso típico", disse ele.

Felicitas telefonou várias vezes para casa enquanto cruzava o México com Diaz. Eles viajaram até Xalapas em um veículo utilitário esportivo de um contrabandista, e de lá pegaram um ônibus até a Cidade do México, e depois disso um outro, fazendo uma viagem de três dias até Altar, uma cidade feia que fica 80 quilômetros ao sul da fronteira, e que é uma grande área de concentração de imigrantes.

"Eu lhe disse que não era muito tarde para voltar, e que eu trabalharia para pagar ao contrabandista", afirmou o pai de Felicitas, recordando as suas conversas com a filha por telefone ao longo do trajeto.

De Altar, eles foram levados em uma van até a fronteira, contou Diaz, e assim que chegaram perto da divisa, começaram a caminhar. Eles seguiram por um caminho conhecido dos imigrantes ilegais rumo à Rota 86, no Arizona, onde os migrantes são freqüentemente recolhidos e levados para vários pontos por todos os Estados Unidos.

Diaz disse que os dois tinham certeza de que enfrentariam apenas pouco mais de um dia de caminhada, mas agentes da Patrulha de Fronteira dizem que a distância da fronteira até a Rota 86 implica em uma caminhada de três ou quatro dias.

O último telefonema de Felicitas para casa foi feito dois dias antes da sua morte. "Ela me disse, 'Pai, cheguei à fronteira'", conta Martinez.

Tepetlan, uma vila de 1.800 habitantes em um planalto situado na borda leste da Sierra Madre Oriental, viu a sua população diminuir nos últimos anos à medida que multidões de seus moradores rumavam para o "otro lado", conforme os Estados Unidos são conhecidos na cidade fronteiriça.

Familiares e amigos disseram que Felicitas preferiu acreditar, assim como muitos outros que tentam fazer a travessia, que nada de mal lhe aconteceria.

O seu irmão caçula fez uma jornada similar oito meses antes e encontrou trabalho em uma fábrica na Geórgia, mas ele falou à irmã a respeito da marcha exaustiva sob um calor infernal pelo deserto, e aconselhou-a a não fazer tal coisa.

"Eu disse a ela que o trabalho aqui é duro e que às vezes não há trabalho algum", disse o seu irmão Vicente, 24, em uma entrevista por telefone da Geórgia, onde o seu emprego possibilita que ele ajude os pais, a mulher e dois filhos pequenos em Tepetlan. "Mas ela acreditou que tudo daria certo".

O seu pai cruzou a fronteira há vários anos em San Diego, fugindo de agentes da Patrulha de Fronteira que estavam no encalço dele e do seu grupo de imigrantes com helicópteros e holofotes. Ele encontrou trabalho rural na Califórnia e em Nebraska, e vendeu sorvetes em Chicago, antes de cansar-se do clima e dos empregos esporádicos e retornar para casa para colher café em Tepetlan.

Diaz, também, fez a jornada há apenas um ano, mas disse que foi pego pela Patrulha de Fronteira e imediatamente deportado. Segundo Diaz, aquela viagem não foi tão perigosa, mas ele foi capturado após menos de um dia de caminhada.

A família Martinez mora em uma casa modesta de dois quartos em Tepetlan. Ela fica em uma rua de terra repleta de cenas típicas de uma região rural: homens cavalgando burros, meninos brincando com um tatu capturado e vendedores de peixe e de frutas expondo os seus produtos em carrocerias de picapes velhas.

Felicitas trabalhou em Veracruz limpando casas e o aeroporto durante um ano, mas achou o trabalho muito duro para que conseguisse obter dinheiro suficiente para cuidar dos filhos, com idades que variam de seis a 13 anos.

A sua vida pessoal também passava por turbulência havia anos. Os familiares a descrevem como uma pessoa meio rebelde e cabeça-dura. Ela abandonou a escola de segundo grau aos 14 anos de idade, casou-se e ficou grávida aos 15, e largou o pai dos seus quatro filhos no ano passado, depois de várias brigas. Ela casou-se novamente, e buscava formas de ganhar muito dinheiro para construir uma casa nova.

Felicitas ouviu dizer que Diaz pretendia fazer uma nova tentativa, por meio de um contrabandista que era um parente distante, e pegou dinheiro emprestado com um agiota da cidade. O custo total da viagem seria de US$ 3.000. A metade do dinheiro seria paga adiantado, e a outra metade após uma travessia bem-sucedida.

Mas sucesso foi o que não houve. Por volta das 11h do dia 6 de julho, a agente da Patrulha de Fronteira, Kelly Kirby, recebeu um telefonema informando-a a respeito de um jovem imigrante encontrado com vida no deserto, e da sua prima, possivelmente morta. Toda vez que há um telefonema sobre um imigrante em apuros, Kirby diz que torce pelo melhor, mas sabe esperar pelo pior.

Diaz contou que Felicitas morreu pouco antes do pôr do sol. Ele chorou e sentiu medo, e fez uma fogueira, esperando ser localizado. Diaz passou a noite inteira ao lado do corpo da prima, sem dormir.

De manhã ele saiu em busca de ajuda. Diaz caminhou ao longo de uma cerca de gado e acabou chegando a uma estrada, onde acenou para um agente da Patrulha de Fronteira que passava pelo local.

Kirby respondeu à chamada e, com o auxílio de Diaz, localizou Felicitas.

Ela usava calça jeans e uma blusa. A espuma em volta da sua boca era uma indicação de que ela teve convulsões. Embora Felicitas tenha caminhado por cerca de um dia e meio, a sua condição física e a quantidade insuficiente de água e comida que consumiu a tornaram susceptível à uma morte no deserto.

"Ela fez praticamente tudo o que poderia ter feito para não conseguir sobreviver à travessia", afirmou Kirby.

Quando o corpo de Felicitas retornou a Tepetlan, ele foi levado para dentro da casa para um velório. O pai abriu a tampa e olhou a face da filha. "Eu tinha que olhar, tinha que vê-la", contou Martinez.

Martinez, com a ajuda de um amigo que é pedreiro, está concluindo os trabalhos na sepultura, que inclui uma réplica da igreja da cidade, para onde a mãe de Felicitas a levou para que recebesse uma bênção antes de partir para os Estados Unidos.

Ela está sepultada em um cemitério que traz a seguinte frase sobre o portão: "Eu retornarei à casa do meu Pai".

Observando o trabalho na sepultura à distância em uma tarde recente, Diaz falou a respeito da sua vida desde a morte da prima e da possibilidade de tentar uma outra travessia.

"Agora não", disse ele. "Mas, quem sabe mais tarde?". UOL

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